Capítulo 30 – Luz em Movimento

1103 Words
A noite parecia infinita. As janelas do 17º refletiam o breu da cidade, e cada luz acesa dentro do prédio era como um coração insistindo em bater. Sofia passou horas acordada, andando de um lado a outro da sala. O som do relógio marcava o ritmo da ansiedade. O bilhete de P. — “Amanhã, a luz muda de lado” — não saía de sua mente. Lorenzo dormia no sofá, o paletó sobre os ombros, o rosto cansado, bonito de um jeito que machuca. Ela o observou em silêncio. Queria ser forte o bastante pra protegê-lo, mas, por dentro, era ela quem tremia. De repente, o celular vibrou. Uma nova mensagem: “Camada 2 não deve nascer. 10h será tarde demais.” — P. Sofia engoliu o medo. Não respondeu. Apenas pegou o caderno e escreveu, com letra trêmula: “Toda luz provoca sombra. Mas o amor é o único clarão que não recua.” O amanhecer chegou disfarçado — cinza, preguiçoso, arrastando nuvens. Às 7h, Helena apareceu, impecável como sempre. — Dormiram? — perguntou, sabendo a resposta. — Planejamos — disse Sofia. — A publicação da Camada 2 segue o cronograma. Às 10h, ponto. Vera chegou logo depois, trazendo café e más notícias. — O mandado subiu para o Supremo. O relator mandou “analisar com urgência”. Isso significa interferência. — Patrícia. — Lorenzo afirmou, sem hesitar. — Ela está puxando corda por cima. Helena assentiu. — O império Prado não desiste fácil. Mas agora é guerra de narrativa. Eles querem confiscar o Aurora pra depois dizer que foi “por segurança nacional”. Sofia respirou fundo. — Então a gente mostra que segurança nacional é a verdade. Lorenzo sorriu, mas os olhos mostravam preocupação. — Eles não vão jogar limpo, Sofia. Hoje, algo vai acontecer. — Deixa acontecer — ela respondeu. — A luz nunca pediu licença. Às 9h45, o andar inteiro estava em prontidão. Júlia posicionava as câmeras; Arthur, os backups automáticos; Vera e Caetano, a segurança. Helena revisava a fala de Sofia com a precisão de quem afina instrumentos antes do concerto. — É só leitura — disse Helena. — Sem emoção exagerada. Mas firme. Sofia assentiu. — Eu aprendi com vocês. Lorenzo a observava. — E ensinou a todos nós. Por um instante, o mundo pareceu caber naqueles segundos antes do caos. Às 10h em ponto, o painel acendeu: PUBLICAÇÃO EM ANDAMENTO. Camada 2 subia. As linhas de código giravam, carregando provas de contratos e desvios, auditorias falsas, fluxos de dinheiro. Mas, antes que chegasse a 100%, o monitor piscou — e tudo parou. — O quê...? — Arthur digitou rápido. — Interceptaram o upload! — Travaram o servidor principal — informou Vera. — Mas como?! O som de um motor pesado ecoou do lado de fora. Caetano correu até a janela. — Caminhonete preta. Placa fria. Quatro agentes. Estão vindo. Helena se adiantou. — O mandado ainda está sob análise! — Eles não precisam esperar — disse Sofia, a voz firme. — Eles têm poder, e o poder raramente pede permissão. Lorenzo segurou sua mão. — O que fazemos agora? Sofia o olhou, calma, decidida. — A ponte não se entrega. Ela foi até a mesa, pegou o pendrive dourado original e o prendeu dentro da capa do caderno. — Se confiscarem os computadores, ainda temos o coração do sistema. Júlia filmava sem querer. — Isso é… histórico. — É necessário. — Sofia respirou fundo. — Quando eles subirem, continuem o protocolo. Helena arregalou os olhos. — O que você vai fazer? — Levar a luz pra outro lugar. O elevador acendeu no térreo. Os agentes subiam. Três andares abaixo, Sofia descia pela escada de incêndio, o caderno apertado contra o peito. Lorenzo a seguiu, sem pensar. — Sofia! Você não vai sozinha! — Se ficarmos juntos, eles levam nós dois! — gritou, o som misturado ao eco dos passos. Ele a alcançou no 10º andar. Agarrou sua mão, ofegante. — Você acha mesmo que eu vou deixar? — Lorenzo, escuta. — Ela tocou o rosto dele. — Se o Aurora cair, tudo acaba. Eu preciso entregá-lo. — Então eu vou com você. — A voz dele quebrou. — É a nossa ponte, lembra? Ela sorriu entre lágrimas. — A ponte precisa de alguém pra segurar de cada lado. E o beijo veio. Rápido. Dolorido. Cheio de promessa. O tipo de beijo que o público Dreame sente na alma — aquele que mistura amor e despedida. Os agentes chegaram ao 17º. Helena e Vera os receberam com o protocolo na mão. — Mandado em revisão! — gritou Vera. — Vocês estão cometendo abuso de autoridade! Mas eles já passavam. Arthur tentava salvar os arquivos, Caetano bloqueava as portas, Júlia transmitia tudo ao vivo. Enquanto isso, no subsolo, Sofia e Lorenzo alcançaram a garagem. A chuva começava a cair, como se o céu também soubesse o peso do dia. Um carro esperava — o mesmo de Caetano, com o motor ligado. Sofia abriu a porta, jogou o caderno no banco do passageiro. — O servidor do prédio caiu, mas ainda há o link externo. Se eu chegar à Fundação Aurora, consigo subir tudo de lá. Lorenzo segurou seu rosto. — Eu te encontro lá. — Promete? — Prometo o que já é verdade. — Ele sorriu. — Eu nunca te esqueço, lembra? Sofia sorriu de volta, com o olhar molhado. — É por isso que o mundo ainda tem salvação. Ela entrou no carro. O motor rugiu. Lorenzo ficou parado, vendo o carro sumir na curva. E, no alto do prédio, os drones voltaram — luzes vermelhas cortando o céu. O rádio do carro chiou. “Sofia, cuidado. Tem perseguição. Eles sabem que você tem o original.” Era Júlia. Sofia acelerou. A chuva aumentava. O vidro embaçava. No retrovisor, faróis se aproximavam — dois, três, quatro carros. Ela ligou o viva-voz. — Júlia, se algo acontecer, publica a última versão. Senha ‘raiz’. — Sofia… Mas a ligação cortou. O som dos pneus na pista molhada misturava-se ao do coração dela. O Aurora pulsava no caderno. A ponte ainda vivia. No prédio, Lorenzo olhava a chuva pela janela, o rosto frio, o peito em fogo. Helena se aproximou. — Ela vai conseguir. Ele assentiu, sem responder. Mas o olhar dele dizia tudo: Se o amor é luz, então que venha a escuridão. E, lá fora, em meio à tempestade, um raio cortou o céu — como se o universo inteiro anunciasse o que o público já sentia: O amor de Sofia e Lorenzo acabava de entrar na parte mais perigosa… E mais bonita.
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