A chuva não caía. Ela desabava, como se o céu tivesse engolido a dor de Sofia e devolvesse tudo em prantos.
O limpador do para-brisa m*l dava conta; a estrada brilhava em reflexos de luz e água, e o volante tremia sob as mãos dela.
No banco do passageiro, o caderno — agora pesado, sagrado, vivo — abrigava o Aurora, o último pedaço da verdade que ainda respirava.
O rádio chiava, mas ela não desligava.
Talvez, em algum ruído, ouvisse o nome dele.
— Lorenzo… — sussurrou, o som engolido pelo motor.
No alto do prédio, Lorenzo ainda observava a cidade.
A tempestade fazia o vidro tremer. A ausência dela fazia o peito doer.
Helena se aproximou, com o semblante de quem já viu o mundo despencar e ainda escolheu ficar de pé.
— Você mandou ela sozinha — disse, sem acusar.
— Eu deixei ela ser quem é — respondeu. — Sofia não precisa de resgate. Ela precisa de tempo.
Helena olhou para o horizonte. — O problema é que o tempo, às vezes, é o primeiro a trair.
Lorenzo fechou os olhos, sentindo o peso do amor e da culpa. — Eu devia ter ido.
— Não. — A voz de Helena foi firme. — O amor que vale é aquele que confia até no perigo.
Lá fora, um trovão respondeu.
Na estrada, Sofia viu os faróis se aproximando pelo retrovisor.
Dois carros.
Depois, três.
Ela acelerou.
A chuva engrossava. O som era um rugido.
A respiração, um fio.
O coração batia como sirene.
Lembranças vieram — o primeiro café com Lorenzo, o sorriso dele na varanda, a frase que ela anotou no caderno:
“O amor não é o que te protege. É o que te ensina a não fugir.”
Ela não fugiria agora.
Pegou o celular. Gravou uma mensagem curta, a voz trêmula:
— Se alguém ouvir isso… o Aurora está comigo. Não deixem que matem o espelho. Digam a ele que eu consegui. Que eu sempre acreditei no amor, mesmo quando o mundo duvidou.
Aperto no peito.
As luzes atrás se aproximavam.
Ela fez o que o pai faria — o que Lorenzo faria.
Pegou a lateral da estrada e entrou em uma trilha de terra, escondida entre árvores.
O carro sacudia, mas ela não parou.
Até que o motor falhou.
E o silêncio veio com força demais.
Lorenzo recebeu o aviso pelo rádio de Caetano.
— Perdemos o sinal do carro de Sofia. Última localização: estrada velha para o Alto. Nenhum retorno desde as 22h47.
O mundo, então, pareceu perder cor.
O terno dele, o relógio, o prédio inteiro — tudo virou ruído.
— Eu vou. — Pegou o casaco.
Helena tentou impedir. — Lorenzo, você não pode! Eles querem você também!
— Eles já me têm. — A voz dele saiu baixa, firme, doída. — Eu só quero ela.
E saiu.
A trilha estava escura, molhada, o cheiro de barro e folhas misturado com o de medo.
O carro de Sofia apareceu no meio da estrada, inclinado, farol ainda aceso.
Ela não estava dentro.
Lorenzo correu, o coração em disparo. Chamou o nome dela — uma, duas, dez vezes.
Até ouvir um som baixo, atrás do carro.
Ela estava lá, caída na grama, o cabelo grudado de chuva, o rosto pálido.
Mas viva.
Ele se ajoelhou, a chuva misturando-se às lágrimas.
— Sofia… me ouve, por favor.
Os olhos dela se abriram devagar.
E, entre a dor e o cansaço, um sorriso nasceu.
— Eu sabia que você viria.
— Eu prometi. — Ele riu, mesmo chorando. — E eu nunca quebro promessa.
Ela tentou se levantar, mas ele a segurou com cuidado.
O caderno estava ao lado, encharcado.
Mesmo assim, o Aurora brilhava, protegido pelo metal.
— Conseguiu salvar o código — ele disse, segurando o objeto com reverência.
— O código… e o que ele carrega. — A voz dela era um fio de vento. — O amor é a nossa última linguagem.
Ele riu entre soluços. — Você fala como se o mundo fosse poesia.
— E você como se o mundo ainda tivesse salvação. — Ela tocou o rosto dele, devagar. — Juntos, talvez a gente tenha razão.
A chuva diminuiu.
O silêncio voltou.
Mas era um silêncio bonito, cheio de significado.
Horas depois, Caetano e Helena chegaram com a equipe.
Sofia foi levada para o hospital — exausta, mas fora de perigo.
Enquanto o carro partia, Lorenzo ficou parado na estrada, olhando o amanhecer chegar por trás das nuvens.
O céu, agora, era um mosaico de cinza e dourado.
Ele abriu o caderno molhado e leu o que ela havia escrito na última página:
“Se eu cair, não apaga o que veio antes.
Cada linha é uma ponte.
E, se o amor for mesmo luz,
Ele vai me encontrar.”
Lorenzo fechou o caderno com cuidado, encostou-o no peito e olhou pro horizonte.
O sol, tímido, começou a nascer.
E o público — o coração da história — entendeu:
O preço da verdade é alto.
Mas, quando o amor é real, até a dor tem claridade.
À distância, dentro de um carro preto, uma mulher observava a cena.
Olhos frios. Sorriso contido.
Patrícia Prado.
— A luz mudou de lado — disse ela, tirando os óculos. — Agora é a minha vez de brilhar.
O motorista acelerou.
E, atrás dela, o céu se acendia, preparando o próximo golpe.