Capítulo 31 – O Preço da Verdade

904 Words
A chuva não caía. Ela desabava, como se o céu tivesse engolido a dor de Sofia e devolvesse tudo em prantos. O limpador do para-brisa m*l dava conta; a estrada brilhava em reflexos de luz e água, e o volante tremia sob as mãos dela. No banco do passageiro, o caderno — agora pesado, sagrado, vivo — abrigava o Aurora, o último pedaço da verdade que ainda respirava. O rádio chiava, mas ela não desligava. Talvez, em algum ruído, ouvisse o nome dele. — Lorenzo… — sussurrou, o som engolido pelo motor. No alto do prédio, Lorenzo ainda observava a cidade. A tempestade fazia o vidro tremer. A ausência dela fazia o peito doer. Helena se aproximou, com o semblante de quem já viu o mundo despencar e ainda escolheu ficar de pé. — Você mandou ela sozinha — disse, sem acusar. — Eu deixei ela ser quem é — respondeu. — Sofia não precisa de resgate. Ela precisa de tempo. Helena olhou para o horizonte. — O problema é que o tempo, às vezes, é o primeiro a trair. Lorenzo fechou os olhos, sentindo o peso do amor e da culpa. — Eu devia ter ido. — Não. — A voz de Helena foi firme. — O amor que vale é aquele que confia até no perigo. Lá fora, um trovão respondeu. Na estrada, Sofia viu os faróis se aproximando pelo retrovisor. Dois carros. Depois, três. Ela acelerou. A chuva engrossava. O som era um rugido. A respiração, um fio. O coração batia como sirene. Lembranças vieram — o primeiro café com Lorenzo, o sorriso dele na varanda, a frase que ela anotou no caderno: “O amor não é o que te protege. É o que te ensina a não fugir.” Ela não fugiria agora. Pegou o celular. Gravou uma mensagem curta, a voz trêmula: — Se alguém ouvir isso… o Aurora está comigo. Não deixem que matem o espelho. Digam a ele que eu consegui. Que eu sempre acreditei no amor, mesmo quando o mundo duvidou. Aperto no peito. As luzes atrás se aproximavam. Ela fez o que o pai faria — o que Lorenzo faria. Pegou a lateral da estrada e entrou em uma trilha de terra, escondida entre árvores. O carro sacudia, mas ela não parou. Até que o motor falhou. E o silêncio veio com força demais. Lorenzo recebeu o aviso pelo rádio de Caetano. — Perdemos o sinal do carro de Sofia. Última localização: estrada velha para o Alto. Nenhum retorno desde as 22h47. O mundo, então, pareceu perder cor. O terno dele, o relógio, o prédio inteiro — tudo virou ruído. — Eu vou. — Pegou o casaco. Helena tentou impedir. — Lorenzo, você não pode! Eles querem você também! — Eles já me têm. — A voz dele saiu baixa, firme, doída. — Eu só quero ela. E saiu. A trilha estava escura, molhada, o cheiro de barro e folhas misturado com o de medo. O carro de Sofia apareceu no meio da estrada, inclinado, farol ainda aceso. Ela não estava dentro. Lorenzo correu, o coração em disparo. Chamou o nome dela — uma, duas, dez vezes. Até ouvir um som baixo, atrás do carro. Ela estava lá, caída na grama, o cabelo grudado de chuva, o rosto pálido. Mas viva. Ele se ajoelhou, a chuva misturando-se às lágrimas. — Sofia… me ouve, por favor. Os olhos dela se abriram devagar. E, entre a dor e o cansaço, um sorriso nasceu. — Eu sabia que você viria. — Eu prometi. — Ele riu, mesmo chorando. — E eu nunca quebro promessa. Ela tentou se levantar, mas ele a segurou com cuidado. O caderno estava ao lado, encharcado. Mesmo assim, o Aurora brilhava, protegido pelo metal. — Conseguiu salvar o código — ele disse, segurando o objeto com reverência. — O código… e o que ele carrega. — A voz dela era um fio de vento. — O amor é a nossa última linguagem. Ele riu entre soluços. — Você fala como se o mundo fosse poesia. — E você como se o mundo ainda tivesse salvação. — Ela tocou o rosto dele, devagar. — Juntos, talvez a gente tenha razão. A chuva diminuiu. O silêncio voltou. Mas era um silêncio bonito, cheio de significado. Horas depois, Caetano e Helena chegaram com a equipe. Sofia foi levada para o hospital — exausta, mas fora de perigo. Enquanto o carro partia, Lorenzo ficou parado na estrada, olhando o amanhecer chegar por trás das nuvens. O céu, agora, era um mosaico de cinza e dourado. Ele abriu o caderno molhado e leu o que ela havia escrito na última página: “Se eu cair, não apaga o que veio antes. Cada linha é uma ponte. E, se o amor for mesmo luz, Ele vai me encontrar.” Lorenzo fechou o caderno com cuidado, encostou-o no peito e olhou pro horizonte. O sol, tímido, começou a nascer. E o público — o coração da história — entendeu: O preço da verdade é alto. Mas, quando o amor é real, até a dor tem claridade. À distância, dentro de um carro preto, uma mulher observava a cena. Olhos frios. Sorriso contido. Patrícia Prado. — A luz mudou de lado — disse ela, tirando os óculos. — Agora é a minha vez de brilhar. O motorista acelerou. E, atrás dela, o céu se acendia, preparando o próximo golpe.
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