O dia amanheceu limpo, como se o céu tivesse esquecido da guerra.
Mas o céu não esquece.
Só observa, à espera do próximo trovão.
Sofia acordou com o som de passos no apartamento. Por um segundo, achou que ainda sonhava, até ouvir a voz dele — suave, grave, conhecida.
— Café pronto. E sem açúcar, do jeito que você gosta quando precisa pensar.
Lorenzo estava ali, com uma camisa simples, o olhar cansado e o sorriso que ela jurou guardar pra sempre.
Era o primeiro amanhecer em paz desde o caos.
— Você devia estar descansando — ela disse, sentando-se.
— E você devia parar de anotar ideias às cinco da manhã — ele devolveu, com ternura.
Sofia olhou o caderno aberto na mesa:
“A liberdade é o amor que sobreviveu à guerra.”
Ele se aproximou, tocando o cabelo dela com cuidado.
— A gente venceu ontem.
Ela suspirou. — Ontem. Mas e hoje?
Lorenzo sorriu sem esconder a preocupação. — Hoje é o dia depois da vitória. O mais perigoso.
Enquanto isso, em um escritório de vidro, Patrícia Prado observava a cidade.
O reflexo dela no vidro era quase bonito. Quase humano.
Um homem entrou, deixando uma pasta sobre a mesa.
— Os números. A coletiva dela aumentou a credibilidade da M&M em 400%. Ela virou símbolo de ética.
Patrícia abriu a pasta e folheou sem pressa.
— Ética é uma palavra de aluguel. Todo mundo usa, ninguém paga.
— E Lorenzo Martins?
Ela olhou para o horizonte. — Livre. Mas não limpo. A luz cansa os olhos, e a sociedade adora derrubar seus santos.
O homem a observava com cuidado.
— E o plano B?
Patrícia fechou a pasta. — Já começou.
Ela virou o monitor, mostrando uma foto: um novo funcionário, crachá recém-emitido da M&M.
Jovem, carismático, sorriso fácil.
Nome: Miguel Prado.
— Ele? — perguntou o homem. — Seu sobrinho?
— Não. — Patrícia sorriu. — Meu espelho.
Na M&M, os corredores voltaram a cheirar a café e papel novo.
A rotina fingia normalidade, mas os olhos seguiam Sofia e Lorenzo por onde passavam.
Alguns aplaudiam. Outros cochichavam.
E ela, com a serenidade aprendida à força, sorria sem se defender.
Helena passou por ela no corredor. — O país te chama de “A mulher que salvou a verdade”.
Sofia riu. — Eu só queria salvar o amor.
— Às vezes, é a mesma coisa — Helena respondeu, antes de seguir.
Lorenzo entrou na sala logo depois, a gravata frouxa e a alma exausta.
— Caetano conseguiu rastrear as origens das fake news. — Disse, jogando uma pasta na mesa. — São contas falsas com o mesmo padrão da Pontus.
— Patrícia. — Sofia reconheceu. — Ela nunca recua, só muda de máscara.
Ele assentiu. — E o novo analista que Helena contratou? Miguel Prado?
— Começa hoje. — Ela abriu o e-mail com o dossiê. — Disseram que é brilhante. Currículo impecável.
Lorenzo franziu a testa. — Prado?
Sofia olhou pra ele. — Não pode ser coincidência.
— Nada é coincidência desde o Aurora — ele murmurou.
Miguel chegou ao 17º andar com um sorriso que encantava.
Camisa social azul, pastas na mão, olhar curioso.
Júlia o apresentou:
— Galera, esse é o Miguel. Reforço da equipe de auditoria. Veio direto de São Paulo.
Sofia se levantou para cumprimentar.
O aperto de mão dele foi firme demais, o olhar direto demais.
— Prazer, doutora Duarte. É uma honra trabalhar com a mulher que desafiou o sistema.
Ela sorriu educadamente. — Aqui todo mundo desafiou o sistema, Miguel. Uns com café, outros com coragem.
— E alguns com segredos. — Ele respondeu, quase como quem testa limites.
Sofia o observou por um segundo a mais.
Algo naquele olhar a fez lembrar Patrícia — o mesmo tipo de calma calculada.
— Bem-vindo à M&M — disse, guardando a sensação num canto da mente.
Naquela noite, Lorenzo estava no terraço, olhando as luzes da cidade.
Sofia chegou com duas xícaras de chá.
— Pensando no futuro? — perguntou, sentando ao lado dele.
— Pensando em quantas vezes o passado ainda vai tentar voltar — respondeu.
Ela encostou a cabeça no ombro dele. — O amor sempre vai ser o ponto fraco da ponte, Lorenzo. Mas é também o que faz ela aguentar.
Ele sorriu. — Você fala como quem tem fé.
— Eu tenho. — Olhou pra ele. — Tenho fé em nós.
Ele a beijou — devagar, com ternura e peso.
E o público Dreame sentiu aquele tipo de beijo que parece prometer eternidade.
Mas, do outro lado da cidade, Patrícia assistia à cena pela tela do computador.
Um vídeo gravado da varanda vizinha, captado por uma lente longa.
— O amor deles é bonito — disse, bebendo o vinho devagar. — Quanto mais puro o sentimento, mais fácil de manchar.
Miguel, do outro lado da ligação, respondeu:
— Ela já confia em mim. Está abrindo o protocolo da terceira camada.
— Ótimo. — Patrícia sorriu. — Vamos deixar ela achar que venceu.
Ela levantou o olhar para o horizonte, onde o céu começava a se nublar novamente.
— Porque, quando o amor vira bandeira, basta uma mancha pra virar alvo.
Na manhã seguinte, Sofia chegou cedo à M&M.
O sol estava diferente — claro demais, silencioso demais.
Miguel já estava na sala, mexendo nos relatórios.
— Você chega cedo — ela comentou.
Ele sorriu. — Costumo dizer que a verdade não dorme.
Sofia sorriu de volta, mas algo em seu peito apertou.
Instinto. Intuição. Amor pressentindo dor.
Ela olhou pela janela e viu Lorenzo lá embaixo, falando com a imprensa.
O vento balançava o paletó dele, e o olhar dela se encheu de ternura — e medo.
Porque, por alguma razão, sabia que a tempestade ainda não tinha acabado.
E, no gabinete escuro da Pontus, Patrícia dizia ao espelho:
— A vingança é só o nome elegante da justiça de quem perdeu.
Ela pegou uma flor — uma orquídea branca.
E a esmagou entre os dedos.