CAPÍTULO 34 – A VINGANÇA DE PATRÍCIA

1006 Words
O dia amanheceu limpo, como se o céu tivesse esquecido da guerra. Mas o céu não esquece. Só observa, à espera do próximo trovão. Sofia acordou com o som de passos no apartamento. Por um segundo, achou que ainda sonhava, até ouvir a voz dele — suave, grave, conhecida. — Café pronto. E sem açúcar, do jeito que você gosta quando precisa pensar. Lorenzo estava ali, com uma camisa simples, o olhar cansado e o sorriso que ela jurou guardar pra sempre. Era o primeiro amanhecer em paz desde o caos. — Você devia estar descansando — ela disse, sentando-se. — E você devia parar de anotar ideias às cinco da manhã — ele devolveu, com ternura. Sofia olhou o caderno aberto na mesa: “A liberdade é o amor que sobreviveu à guerra.” Ele se aproximou, tocando o cabelo dela com cuidado. — A gente venceu ontem. Ela suspirou. — Ontem. Mas e hoje? Lorenzo sorriu sem esconder a preocupação. — Hoje é o dia depois da vitória. O mais perigoso. Enquanto isso, em um escritório de vidro, Patrícia Prado observava a cidade. O reflexo dela no vidro era quase bonito. Quase humano. Um homem entrou, deixando uma pasta sobre a mesa. — Os números. A coletiva dela aumentou a credibilidade da M&M em 400%. Ela virou símbolo de ética. Patrícia abriu a pasta e folheou sem pressa. — Ética é uma palavra de aluguel. Todo mundo usa, ninguém paga. — E Lorenzo Martins? Ela olhou para o horizonte. — Livre. Mas não limpo. A luz cansa os olhos, e a sociedade adora derrubar seus santos. O homem a observava com cuidado. — E o plano B? Patrícia fechou a pasta. — Já começou. Ela virou o monitor, mostrando uma foto: um novo funcionário, crachá recém-emitido da M&M. Jovem, carismático, sorriso fácil. Nome: Miguel Prado. — Ele? — perguntou o homem. — Seu sobrinho? — Não. — Patrícia sorriu. — Meu espelho. Na M&M, os corredores voltaram a cheirar a café e papel novo. A rotina fingia normalidade, mas os olhos seguiam Sofia e Lorenzo por onde passavam. Alguns aplaudiam. Outros cochichavam. E ela, com a serenidade aprendida à força, sorria sem se defender. Helena passou por ela no corredor. — O país te chama de “A mulher que salvou a verdade”. Sofia riu. — Eu só queria salvar o amor. — Às vezes, é a mesma coisa — Helena respondeu, antes de seguir. Lorenzo entrou na sala logo depois, a gravata frouxa e a alma exausta. — Caetano conseguiu rastrear as origens das fake news. — Disse, jogando uma pasta na mesa. — São contas falsas com o mesmo padrão da Pontus. — Patrícia. — Sofia reconheceu. — Ela nunca recua, só muda de máscara. Ele assentiu. — E o novo analista que Helena contratou? Miguel Prado? — Começa hoje. — Ela abriu o e-mail com o dossiê. — Disseram que é brilhante. Currículo impecável. Lorenzo franziu a testa. — Prado? Sofia olhou pra ele. — Não pode ser coincidência. — Nada é coincidência desde o Aurora — ele murmurou. Miguel chegou ao 17º andar com um sorriso que encantava. Camisa social azul, pastas na mão, olhar curioso. Júlia o apresentou: — Galera, esse é o Miguel. Reforço da equipe de auditoria. Veio direto de São Paulo. Sofia se levantou para cumprimentar. O aperto de mão dele foi firme demais, o olhar direto demais. — Prazer, doutora Duarte. É uma honra trabalhar com a mulher que desafiou o sistema. Ela sorriu educadamente. — Aqui todo mundo desafiou o sistema, Miguel. Uns com café, outros com coragem. — E alguns com segredos. — Ele respondeu, quase como quem testa limites. Sofia o observou por um segundo a mais. Algo naquele olhar a fez lembrar Patrícia — o mesmo tipo de calma calculada. — Bem-vindo à M&M — disse, guardando a sensação num canto da mente. Naquela noite, Lorenzo estava no terraço, olhando as luzes da cidade. Sofia chegou com duas xícaras de chá. — Pensando no futuro? — perguntou, sentando ao lado dele. — Pensando em quantas vezes o passado ainda vai tentar voltar — respondeu. Ela encostou a cabeça no ombro dele. — O amor sempre vai ser o ponto fraco da ponte, Lorenzo. Mas é também o que faz ela aguentar. Ele sorriu. — Você fala como quem tem fé. — Eu tenho. — Olhou pra ele. — Tenho fé em nós. Ele a beijou — devagar, com ternura e peso. E o público Dreame sentiu aquele tipo de beijo que parece prometer eternidade. Mas, do outro lado da cidade, Patrícia assistia à cena pela tela do computador. Um vídeo gravado da varanda vizinha, captado por uma lente longa. — O amor deles é bonito — disse, bebendo o vinho devagar. — Quanto mais puro o sentimento, mais fácil de manchar. Miguel, do outro lado da ligação, respondeu: — Ela já confia em mim. Está abrindo o protocolo da terceira camada. — Ótimo. — Patrícia sorriu. — Vamos deixar ela achar que venceu. Ela levantou o olhar para o horizonte, onde o céu começava a se nublar novamente. — Porque, quando o amor vira bandeira, basta uma mancha pra virar alvo. Na manhã seguinte, Sofia chegou cedo à M&M. O sol estava diferente — claro demais, silencioso demais. Miguel já estava na sala, mexendo nos relatórios. — Você chega cedo — ela comentou. Ele sorriu. — Costumo dizer que a verdade não dorme. Sofia sorriu de volta, mas algo em seu peito apertou. Instinto. Intuição. Amor pressentindo dor. Ela olhou pela janela e viu Lorenzo lá embaixo, falando com a imprensa. O vento balançava o paletó dele, e o olhar dela se encheu de ternura — e medo. Porque, por alguma razão, sabia que a tempestade ainda não tinha acabado. E, no gabinete escuro da Pontus, Patrícia dizia ao espelho: — A vingança é só o nome elegante da justiça de quem perdeu. Ela pegou uma flor — uma orquídea branca. E a esmagou entre os dedos.
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