CAPÍTULO 27 – O ARMÁRIO C-12

1095 Words
O clique da fechadura ecoou mais alto do que o vento. O 17º andar parecia segurar a respiração junto com eles. Sofia girou a chave devagar, como quem gira o destino. O armário abriu, rangendo — um som velho, quase humano. Lá dentro, apenas uma caixa de metal, pequena, coberta por poeira e uma fita branca com letras pretas: “Projeto Aurora.” — Aurora… — murmurou Vera. — Nunca ouvi falar disso nos arquivos. Caetano pegou o tablet e acessou o sistema. — Nada com esse nome. Nem nos backups. Helena olhou para Sofia. — Abre devagar. Sofia obedeceu. Dentro da caixa, havia um pendrive dourado, uma fotografia antiga e uma carta amarelada. Na foto, um homem jovem diante de uma tela de código binário. Ao lado dele, uma mulher com sorriso discreto e… olhos iguais aos de Sofia. — Minha mãe… — sussurrou ela, tremendo. Lorenzo se aproximou, a voz baixa. — Amor, respira. Ela pegou a carta, as mãos trêmulas. A caligrafia era do pai. O papel cheirava a tempo e verdade. “Se você está lendo isto, é porque o ‘Aurora’ voltou à luz. Criei este código pra proteger, mas eles o transformaram em arma. Sua mãe tentou avisar, e pagou por isso. Aurora não é sistema — é o espelho. Ele grava o que os poderosos não querem ver. Sofia, se um dia o código cair nas mãos certas, o mundo verá o que eles esconderam. Confie em quem tem a coragem de amar à luz do dia.” A carta terminou ali, com uma assinatura borrada. Sofia recuou, o corpo inteiro tremendo. — Ele sabia… Ele sabia que iam usar contra ele. Vera pegou o pendrive com pinça. — Isso é histórico. — Ou fatal — Caetano completou. — Se for o verdadeiro “Aurora”, tem nomes, documentos, talvez segredos de Estado. Helena respirou fundo. — E agora, Sofia? Sofia olhou pra caixa e depois pra foto. — Agora a gente acende. Mas antes que alguém dissesse algo, as luzes do 17º piscaram — uma, duas, três vezes. O painel de energia chiou. O som dos cabos vibrando cortou o ar. — Sistema de emergência — avisou Caetano, puxando o rádio. — Temos invasão digital. Arthur respondeu do 30º. — Tentaram acessar o servidor central! — Desconecta tudo! — gritou Vera. — Agora! Lorenzo puxou Sofia pra trás, protegendo-a com o corpo. O andar inteiro mergulhou na penumbra. O barulho dos ventiladores foi substituído por um bip insistente. O painel do elevador brilhou vermelho: ACESSO REMOTO DETECTADO. Helena sacou o celular e acionou a polícia interna. — Eles sabem que achamos o Aurora. Estão vindo buscar. Sofia apertou a caixa contra o peito, o coração disparado. — Eu não vou entregar o que meu pai deixou. Lorenzo a segurou pelos ombros. — Então você entrega comigo. No fundo do corredor, um som metálico: passos, ecoando entre as paredes. O vento batia pelas frestas, levantando papéis. Júlia apareceu ofegante, vinda do elevador de serviço. — Eu vi o painel do térreo piscando! Um carro preto parou na garagem. Gente com crachá falso da Pontus. Helena fechou o semblante. — É agora. Vera e Caetano posicionaram os seguranças na escada. Arthur avisou pelo rádio que estava bloqueando os acessos remotos. Lorenzo olhou pra Sofia. — Você confia em mim? — Até o fim. — Então vem. Ele a puxou pela mão, guiando-a até a sala de segurança. O som dos passos abaixo aumentava. Alguém forçava o acesso principal. Sofia encostou na parede, respirando rápido. — Eles querem o Aurora. Se levarem, tudo que meu pai fez vira mentira. — Então a gente protege. — Lorenzo a olhou, decidido. — Mas se for entre o código e você, eu escolho você. As lágrimas vieram. — Eu não quero ser o motivo de você perder tudo. — Você é o motivo de eu lutar por tudo. A frase ficou no ar, como oração. Helena entrou na sala, arma na mão. — Polícia tá subindo. Temos dois minutos. Caetano empurrou uma mesa pra bloquear a porta. Vera tirou o pendrive das mãos de Sofia e o colocou dentro do notebook isolado. — Vamos decifrar o Aurora antes que eles cheguem. Se for o que eu penso, muda tudo. Os dedos dela voavam pelo teclado. O monitor piscou, exibindo linhas de código. Letras, números, depois… imagens. Vídeos curtos, sem som. Políticos, reuniões secretas, transferências ilegais. Tudo filmado por câmeras que nunca deviam existir. — Santo Deus… — murmurou Helena. — O pai dela gravou o sistema de dentro. — Ele criou o espelho. — Sofia entendeu, chorando. — O Aurora grava os culpados. O elevador apitou. Passos. Vozes abafadas. Gritos de ordem. Lorenzo ficou entre Sofia e a porta. — Se entrarem, eu ganho tempo. — Nem pense. — Ela agarrou o braço dele. — A gente começou junto. Vai terminar junto. As luzes piscavam em vermelho. O andar inteiro parecia pulsar. Vera puxou o pendrive do computador e o colocou no bolso de Sofia. — Corre. — disse. — Se eles destruírem as máquinas, o Aurora vive em você. Sofia hesitou. — E vocês? Helena sorriu. — A gente segura o palco. Vai, menina. Lorenzo a segurou pela mão e correu com ela pelo corredor lateral. Atrás, o som de portas arrombando. Gritos. Eco. Correram até o elevador de manutenção. O painel piscava, travado. Lorenzo abriu a tampa e puxou o botão manual. — Vamos. O elevador desceu em silêncio. Sofia tremia, segurando a caixa e o pendrive. Lá fora, as sirenes começaram a soar. Quando as portas abriram na garagem, a chuva já caía forte. O carro de Caetano os esperava, motor ligado. Entraram. O vidro embaçado, o coração fora do ritmo. — Pra onde? — perguntou o motorista. Sofia olhou pra Lorenzo. Ele olhou pra frente. — Pro alto. — Como assim? — Torre Sul. A imprensa tá lá. Se o Aurora for mostrado ao vivo, ninguém mais cala a verdade. Sofia segurou o pendrive no peito. — Meu pai queria luz. Então vai ter luz. O carro arrancou. Lá atrás, o prédio da M&M piscava em vermelho, como uma ferida aberta. Mas, nas mãos de Sofia, o futuro brilhava dourado. No rádio, uma nova mensagem interceptada: “Aurora ativado. A ponte está completa. Preparem-se para o amanhecer.” Sofia fechou os olhos. O dorama, enfim, mergulhava na fase final — onde o amor e a verdade correm lado a lado. E, do outro lado da tela, o público sabia: as flores de concreto acabavam de florescer sob tempestade.
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