Cobertura do príncipe gelo

1035 Words
A noite já havia tomado conta da cidade quando o Porsche preto de Nathan deslizou pelas ruas iluminadas, parando em frente a um dos edifícios mais luxuosos próximos à universidade. A cobertura onde ele morava era um presente dos pais. Um mimo milionário para o herdeiro único da família Cristian. Poucos minutos depois, o elevador privativo se abriu diretamente na sala principal. Thiago foi o primeiro a entrar. — Cara eu juro que nunca me acostumo com isso. Yuri soltou uma risada baixa enquanto observava o ambiente. A cobertura era simplesmente deslumbrante. O pé-direito duplo fazia o espaço parecer ainda mais grandioso. Uma parede inteira de vidro revelava a vista noturna da cidade, com as luzes brilhando como estrelas abaixo deles. O chão em mármore claro reflectia a iluminação quente e sofisticada dos lustres modernos. Os sofás em tons de cinza e creme pareciam saídos de uma revista de decoração, combinando perfeitamente com as esculturas minimalistas espalhadas pelo ambiente. No canto, uma estante enorme exibia livros de arquitetura, design e arte, além de pequenos prêmios académicos de Nathan. Thiago passou a mão pelo encosto do sofá. — Isso aqui vale mais do que meu carro. Nathan tirou o relógio e o colocou sobre a mesa de centro. — Dramático. — Não, realista — Yuri respondeu, indo até a janela. — A vista é absurda. Nathan afrouxou a gola da camisa. — Meus pais queriam que eu ficasse perto da universidade e tivesse conforto. Thiago arqueou a sobrancelha. — Conforto? Isso aqui é praticamente um palácio suspenso. Nathan apenas sorriu de lado. — Sentem. Vamos terminar logo esse trabalho. Eles se acomodaram na enorme mesa de jantar de vidro, que Nathan usava como espaço de estudos. Tablets, notebooks, folhas de croqui e réguas profissionais logo tomaram conta da superfície. Thiago abriu o arquivo da apresentação. — Certo, dupla improvisada com ajuda de luxo do Yuri. — Trio — Yuri corrigiu, puxando uma cadeira. — Já aceitei meu destino. Nathan abriu a planta digital do projeto. — A ideia central precisa ser mais forte. A biblioteca sustentável não pode parecer apenas bonita, precisa parecer viva. Thiago inclinou-se para a tela. — Pensei em usar jardins verticais na fachada. Nathan assentiu. — Bom. Mas combine com painéis de captação solar no topo. Yuri acrescentou: — E um sistema de reaproveitamento da água da chuva integrado ao paisagismo. Nathan virou o notebook na direção dos amigos. — Exatamente isso. A estrutura precisa conversar com a natureza. Por quase duas horas, o trio mergulhou completamente no trabalho. Debateram materiais, iluminação natural, circulação de pessoas e acessibilidade. Entre uma correção e outra, surgiam provocações. — Você fala como se já fosse dono do maior escritório do país — comentou Thiago. Nathan continuou desenhando no tablet. — Não “como se”. Eu vou ser. Yuri riu. — A confiança dele chega a ser ofensiva. — Não é confiança. É visão. Thiago levantou as mãos em rendição. — Tá bom, futuro deus da arquitetura. Quando finalmente terminaram, Thiago jogou-se no sofá. — Perfeito. Se esse trabalho não tirar nota máxima, o professor está cego. Nathan fechou o notebook e relaxou pela primeira vez naquela noite. — Tiramos nota máxima. Yuri foi até o bar elegante da sala e serviu três copos de suco. — Agora podemos falar de coisas mais interessantes. Thiago sorriu malicioso. — Tipo paixões? Nathan estreitou os olhos. — Lá vem. Os três se acomodaram no sofá enorme, a cidade brilhando ao fundo. Thiago foi o primeiro a falar. — Eu acho engraçado como metade da universidade está apaixonada por você, Nathan, e mesmo assim você nunca olha para ninguém. Yuri concordou. — Nunca mesmo. Nem por curiosidade. Nathan apoiou o braço no encosto, observando a vista. — Porque nenhuma delas me interessa. Thiago sorriu. — Nenhuma pessoa te interessa. Por um instante, Nathan ficou em silêncio. O tom arrogante habitual suavizou-se. — Talvez porque eu não esteja procurando qualquer pessoa. Yuri inclinou-se, curioso. — Então o herdeiro de gelo acredita em amor? Nathan soltou uma respiração baixa. — Acredito. Thiago arregalou os olhos teatralmente. — Milagre registrado. Nathan ignorou a provocação. — Eu cresci vendo relacionamentos vazios ao meu redor. Pessoas se aproximando por interesse, por status, por dinheiro, por aparência. Nada real. Yuri observou o amigo com atenção. — E você quer algo real. Nathan assentiu lentamente. — Quero alguém que me veja além do sobrenome, além do dinheiro, além da imagem que todos criaram de mim. A sala mergulhou num silêncio confortável. Thiago foi quem quebrou o momento. — Isso foi… inesperadamente profundo. Nathan soltou um pequeno sorriso. — Não tenho pressa. Yuri tomou um gole do suco. — Então é por isso que você rejeita todo mundo. Nathan confirmou. — Eu não quero desperdiçar o que sou com algo passageiro. Thiago inclinou a cabeça. — Você quer se guardar para a pessoa certa. Nathan olhou para a cidade, as luzes reflectidas nos seus olhos escuros. — Sim. A sinceridade na sua voz surpreendeu até os amigos. Yuri sorriu de leve. — No fundo, o rei do gelo é o mais romântico de nós. Nathan deu uma risada baixa. — Não espalhe isso. Thiago cruzou os braços, divertido. — Então qual seria a pessoa ideal? Nathan pensou por um momento. — Alguém inteligente. Que consiga me desafiar. Que não se impressione com o que tenho, mas com quem eu sou. E… alguém que me faça sentir algo que nunca senti. Yuri assobiou. — Padrões altos. — Sempre. Thiago sorriu. — Sabe o pior? Eu consigo imaginar exatamente o tipo de pessoa que vai aparecer do nada e bagunçar a tua vida perfeita. Nathan levantou uma sobrancelha. — Isso não vai acontecer. Yuri e Thiago trocaram um olhar cúmplice. — Vai sim — disseram juntos. Nathan balançou a cabeça, divertido. — Vocês assistem romance demais. A conversa seguiu noite adentro, entre brincadeiras, confidências e sonhos sobre o futuro. Mas mesmo sorrindo, Nathan não conseguia ignorar a estranha sensação no peito. Como se, em algum lugar muito próximo, o destino estivesse silenciosamente preparando alguém capaz de atravessar todas as muralhas que ele levou anos para construir. E pela primeira vez, essa ideia não pareceu ameaçadora, pareceu inevitável.
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