A noite já havia tomado conta da cidade quando o Porsche preto de Nathan deslizou pelas ruas iluminadas, parando em frente a um dos edifícios mais luxuosos próximos à universidade.
A cobertura onde ele morava era um presente dos pais.
Um mimo milionário para o herdeiro único da família Cristian.
Poucos minutos depois, o elevador privativo se abriu diretamente na sala principal.
Thiago foi o primeiro a entrar.
— Cara eu juro que nunca me acostumo com isso.
Yuri soltou uma risada baixa enquanto observava o ambiente.
A cobertura era simplesmente deslumbrante.
O pé-direito duplo fazia o espaço parecer ainda mais grandioso. Uma parede inteira de vidro revelava a vista noturna da cidade, com as luzes brilhando como estrelas abaixo deles. O chão em mármore claro reflectia a iluminação quente e sofisticada dos lustres modernos.
Os sofás em tons de cinza e creme pareciam saídos de uma revista de decoração, combinando perfeitamente com as esculturas minimalistas espalhadas pelo ambiente.
No canto, uma estante enorme exibia livros de arquitetura, design e arte, além de pequenos prêmios académicos de Nathan.
Thiago passou a mão pelo encosto do sofá.
— Isso aqui vale mais do que meu carro.
Nathan tirou o relógio e o colocou sobre a mesa de centro.
— Dramático.
— Não, realista — Yuri respondeu, indo até a janela. — A vista é absurda.
Nathan afrouxou a gola da camisa.
— Meus pais queriam que eu ficasse perto da universidade e tivesse conforto.
Thiago arqueou a sobrancelha.
— Conforto? Isso aqui é praticamente um palácio suspenso.
Nathan apenas sorriu de lado.
— Sentem. Vamos terminar logo esse trabalho.
Eles se acomodaram na enorme mesa de jantar de vidro, que Nathan usava como espaço de estudos. Tablets, notebooks, folhas de croqui e réguas profissionais logo tomaram conta da superfície.
Thiago abriu o arquivo da apresentação.
— Certo, dupla improvisada com ajuda de luxo do Yuri.
— Trio — Yuri corrigiu, puxando uma cadeira. — Já aceitei meu destino.
Nathan abriu a planta digital do projeto.
— A ideia central precisa ser mais forte. A biblioteca sustentável não pode parecer apenas bonita, precisa parecer viva.
Thiago inclinou-se para a tela.
— Pensei em usar jardins verticais na fachada.
Nathan assentiu.
— Bom. Mas combine com painéis de captação solar no topo.
Yuri acrescentou:
— E um sistema de reaproveitamento da água da chuva integrado ao paisagismo.
Nathan virou o notebook na direção dos amigos.
— Exatamente isso. A estrutura precisa conversar com a natureza.
Por quase duas horas, o trio mergulhou completamente no trabalho.
Debateram materiais, iluminação natural, circulação de pessoas e acessibilidade. Entre uma correção e outra, surgiam provocações.
— Você fala como se já fosse dono do maior escritório do país — comentou Thiago.
Nathan continuou desenhando no tablet.
— Não “como se”. Eu vou ser.
Yuri riu.
— A confiança dele chega a ser ofensiva.
— Não é confiança. É visão.
Thiago levantou as mãos em rendição.
— Tá bom, futuro deus da arquitetura.
Quando finalmente terminaram, Thiago jogou-se no sofá.
— Perfeito. Se esse trabalho não tirar nota máxima, o professor está cego.
Nathan fechou o notebook e relaxou pela primeira vez naquela noite.
— Tiramos nota máxima.
Yuri foi até o bar elegante da sala e serviu três copos de suco.
— Agora podemos falar de coisas mais interessantes.
Thiago sorriu malicioso.
— Tipo paixões?
Nathan estreitou os olhos.
— Lá vem.
Os três se acomodaram no sofá enorme, a cidade brilhando ao fundo.
Thiago foi o primeiro a falar.
— Eu acho engraçado como metade da universidade está apaixonada por você, Nathan, e mesmo assim você nunca olha para ninguém.
Yuri concordou.
— Nunca mesmo. Nem por curiosidade.
Nathan apoiou o braço no encosto, observando a vista.
— Porque nenhuma delas me interessa.
Thiago sorriu.
— Nenhuma pessoa te interessa.
Por um instante, Nathan ficou em silêncio.
O tom arrogante habitual suavizou-se.
— Talvez porque eu não esteja procurando qualquer pessoa.
Yuri inclinou-se, curioso.
— Então o herdeiro de gelo acredita em amor?
Nathan soltou uma respiração baixa.
— Acredito.
Thiago arregalou os olhos teatralmente.
— Milagre registrado.
Nathan ignorou a provocação.
— Eu cresci vendo relacionamentos vazios ao meu redor. Pessoas se aproximando por interesse, por status, por dinheiro, por aparência. Nada real.
Yuri observou o amigo com atenção.
— E você quer algo real.
Nathan assentiu lentamente.
— Quero alguém que me veja além do sobrenome, além do dinheiro, além da imagem que todos criaram de mim.
A sala mergulhou num silêncio confortável.
Thiago foi quem quebrou o momento.
— Isso foi… inesperadamente profundo.
Nathan soltou um pequeno sorriso.
— Não tenho pressa.
Yuri tomou um gole do suco.
— Então é por isso que você rejeita todo mundo.
Nathan confirmou.
— Eu não quero desperdiçar o que sou com algo passageiro.
Thiago inclinou a cabeça.
— Você quer se guardar para a pessoa certa.
Nathan olhou para a cidade, as luzes reflectidas nos seus olhos escuros.
— Sim.
A sinceridade na sua voz surpreendeu até os amigos.
Yuri sorriu de leve.
— No fundo, o rei do gelo é o mais romântico de nós.
Nathan deu uma risada baixa.
— Não espalhe isso.
Thiago cruzou os braços, divertido.
— Então qual seria a pessoa ideal?
Nathan pensou por um momento.
— Alguém inteligente. Que consiga me desafiar. Que não se impressione com o que tenho, mas com quem eu sou. E… alguém que me faça sentir algo que nunca senti.
Yuri assobiou.
— Padrões altos.
— Sempre.
Thiago sorriu.
— Sabe o pior? Eu consigo imaginar exatamente o tipo de pessoa que vai aparecer do nada e bagunçar a tua vida perfeita.
Nathan levantou uma sobrancelha.
— Isso não vai acontecer.
Yuri e Thiago trocaram um olhar cúmplice.
— Vai sim — disseram juntos.
Nathan balançou a cabeça, divertido.
— Vocês assistem romance demais.
A conversa seguiu noite adentro, entre brincadeiras, confidências e sonhos sobre o futuro.
Mas mesmo sorrindo, Nathan não conseguia ignorar a estranha sensação no peito.
Como se, em algum lugar muito próximo, o destino estivesse silenciosamente preparando alguém capaz de atravessar todas as muralhas que ele levou anos para construir.
E pela primeira vez, essa ideia não pareceu ameaçadora, pareceu inevitável.