Para pessoas normais, ser da realeza é uma vida boa e sem preocupações, admito que as regalias e toda a riqueza que a monarquia usufrui não são ruins, mas as vezes sinto falta de algo mais, algo que me faça sentir vivo.
Quando chego à área central de Palácio, minha casa. Não uma casa convencional, mas o mais próximo que tive. Dirijo até a parte dos fundos do castelo, afinal a única coisa que não preciso é ter meu rosto estampada em revistas e tablóides pela manhã e como resultado ter que ouvir um sermão de meus pais falando o quanto sou irresponsável.
Eu sou o príncipe herdeiro e todos tem necessidade de saber sobre cada passo que eu dou. Um pequeno deslize e já sou desacreditado por metade da população.
Quando entrei no palácio o relógio já marcava as 4:00AM. A semana inteira passei entre aviões e instituições de caridade que possuíam a ajuda financeira da família real, o que pode ser bem estressante considerando o quanto essas pessoas querem se mostrar agradecidas. Sei que esses movimentos são uma grande ajuda a pessoas que são necessitadas, mas devo admitir que não sinto um sentimento de "dever cumprido". Na verdade não sinto nada, tudo não passa de obrigação.
Em eventos oficiais como esses em instituições de caridade é quando mais me sinto sozinho. Não existe solidão pior do que se sentir sozinho mesmo estando rodeado de pessoas. Pessoas essas que querem saber tudo sobre a vida de Noah , O príncipe, o herdeiro, o futuro regente. , ninguém quer saber de alguém sem coroa, sem normas, apenas uma pessoa de carne e osso.
Recentemente meu pai decidiu que seu tempo como rei logo deveria acabar e eu, como príncipe herdeiro, deveria assumir. Nunca havia sentido tanto o peso de ser um príncipe como naquele momento.
- Papai peço que reconsidere essa decisão. - digo ao me levantar do sofá luxuoso da Biblioteca do castelo.
Meu pai se mostrava irredutível quanto a mudar de ideia. Será que ele não via como eu não queria isso? Como não estava preparado?
- Você sempre soube que isso aconteceria. Eu já sou um homem velho e nosso povo precisa de um rei jovem que saiba lidar com esses tempos modernos. Além disso, você já vai fazer 18 anos, não precisa mais perder tempo na universidade, você é mais avançado que todo mundo.
respirei fundo odiava quando ele dizia isso.
- Eu peço um ano para que eu possa fazer o que eu quiser.
- Mas Noah como iremos explicar sua ausência por tanto tempo? Você está sendo egoísta ao pedir isso. E quanto ao povo? E as suas obrigações reais? Querido você é o príncipe de Eldora o próximo na linha de sucessão, será amado pelo povo e mesmo assim quer declinar de seu futuro?
Eu sabia que minha mãe queria o melhor pra mim, assim como também queria o melhor para o povo.
- Eu só preciso de um ano antes de me tornar rei. - falei pegando suas delicadas mãos nas minhas, acariciando-as suavemente.
- Um ano. E então, você voltará e irá se concentrar em se tornar um bom rei para o nosso povo. – meu pai falou.
Agora eu teria meu ano de liberdade, somente precisava pensar em um destino. mesmo sendo avançado e já ter me formado, ainda tinha o sonho de ir para uma universidade comum.
— Tem certeza que quer fazer isso? — perguntou o meu amigo Wagner à minha frente.
— Eu preciso disso.
ele suspirou.
Depois de fazer as malas, com tudo pronto fui me despir dos meus pais.
— Você será coroado em breve. Não pode viver como um civil para sempre.
— Só por um tempo — disse Noah suavemente — Quero saber como é viver de verdade.
Silêncio.
— E ninguém pode saber quem você é — acrescentou o rei.
— Eu sei.
— Nem mesmo seus amigos.
Noah assentiu mas no fundo.
Ele não sabia o que estava por vir.
Dias depois.
Londres seria o lugar perfeito pra mim. Teriam varias distrações que me ajudariam a esquecer essa estupidez de reinado.
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O avião finalmente pousou com suavidade, e o coração de Noah Robson disparou dentro do peito.
Pela pequena janela, ele observou as luzes da cidade brilhando ao longe como estrelas derramadas sobre a terra. Era tudo novo. Diferente do palácio, diferente do reino, diferente de tudo que ele conhecia.
Apertou os dedos sobre o passaporte e respirou fundo.
— É agora… — murmurou para si.
Vestindo roupas simples, uma camisa branca, calça preta e um casaco leve, Noah parecia apenas mais um estudante chegando para iniciar a vida universitária.
Mas ele não era.
Noah Robson era um príncipe.
E, pela primeira vez na vida, pisaria no mundo como um civil.
Ao sair do avião, o movimento do aeroporto o envolveu de imediato: vozes apressadas, rodinhas de malas deslizando pelo chão brilhante, anúncios ecoando pelos alto-falantes.
Noah segurou a alça da mala e caminhou pelo saguão tentando ignorar os olhares curiosos que recebia. Seus cabelos claros e longos, presos de forma elegante, e os olhos azuis chamavam atenção por onde passava.
Assim que pegou sua bagagem, foi em direção à saída.
Do lado de fora, o vento fresco da cidade tocou seu rosto.
Uma sensação de liberdade.
Uma sensação assustadora.
Vários táxis estavam alinhados na entrada. Noah se aproximou de um carro preto e o motorista abriu o porta-malas.
— Para onde, rapaz? — perguntou o homem com um sorriso simpático.
Noah puxou do bolso o papel onde havia anotado o endereço.
— Universidade Real de Saint Bridge… campus principal.
O motorista assobiou baixo.
— Primeiro ano?
Noah sorriu de leve.
— Sim.
— Vai gostar. Dizem que é uma das melhores do país.
Noah entrou no banco traseiro, observando a cidade pela janela enquanto o carro se afastava do aeroporto.
As ruas largas, os prédios altos, cafeterias, livrarias, jovens caminhando pelas calçadas… tudo parecia saído de um filme.
Seu coração se apertou.
Ele estava sozinho.
Longe da família.
Longe da segurança da coroa.
Mas, ao mesmo tempo, mais perto do próprio destino.
A chegada ao campus
Quando o táxi atravessou os portões enormes da universidade, Noah ficou sem palavras.
O campus era gigantesco.
Prédios históricos misturados com arquitetura moderna, jardins impecáveis, fontes de mármore, estudantes espalhados pelos gramados.
Parecia um pequeno reino.
O motorista estacionou em frente ao prédio administrativo.
— Chegamos.
Noah pagou a corrida e saiu do carro com a mala.
Por alguns segundos, ficou apenas admirando o lugar.
— Uau… — sussurrou.
Então entrou.
No interior do prédio, o ambiente era elegante e organizado. Noah aproximou-se do balcão da secretaria.
A atendente sorriu.
— Bom dia. Posso ajudar?
— Sou Noah Robson. Vim finalizar minha matrícula e entregar os documentos.
A mulher digitou algo no computador.
— Ah, senhor Robson. Estávamos esperando por você.
Noah sorriu nervoso.
— Aqui estão meus documentos.
Ela analisou tudo com cuidado.
— Está tudo certo. Seu curso é Arquitetura, correto?
Ao ouvir isso, o coração de Noah acelerou levemente.
Arquitetura.
O mesmo curso do famoso Nathan Cristian.
O nome que ele ouvira inúmeras vezes antes mesmo de chegar.
— Sim.
A mulher entregou um envelope.
— Aqui estão seu cartão estudantil, mapa do campus e acesso provisório aos dormitórios.
Noah agradeceu e se virou…
…acabando por esbarrar em alguém.
Os papéis caíram no chão.
— Ah! Desculpa! — Noah se abaixou imediatamente.
— Não, a culpa foi minha.
A voz era masculina, calorosa e divertida.
Quando Noah levantou o olhar, encontrou um rapaz alto, bonito, de cabelos castanhos escuros bagunçados e um sorriso fácil.
— Primeira vez aqui? — ele perguntou, ajudando a juntar os papéis.
Noah soltou um sorriso tímido.
— Está tão óbvio assim?
O rapaz riu.
— Um pouco. Sou Zander.
Noah pegou o último papel e ficou de pé.
— Noah.
Zander arqueou a sobrancelha.
— Prazer, Noah. Você parece perdido.
— Eu estou perdido.
Os dois riram.
O início da amizade
Zander apontou para o mapa na mão dele.
— Posso te mostrar o campus, se quiser.
Noah hesitou por um instante, mas o jeito amigável do rapaz transmitia confiança.
— Eu adoraria.
Os dois saíram caminhando pelos jardins.
Zander falava sem parar, apontando cada prédio.
— Ali fica a biblioteca principal. A cafeteria mais barata é aquela. E aquele prédio enorme é de Arquitetura.
Noah olhou para o edifício imponente e sentiu um frio na barriga.
— É incrível.
Zander percebeu o brilho nos olhos dele.
— Você ama arquitetura, não ama?
— Muito.
— Então vai se dar bem aqui.
Enquanto caminhavam, a conversa fluía com naturalidade.
— Você é de onde? — Zander perguntou.
Noah precisou escolher as palavras com cuidado.
— De… bem longe daqui.
— Mistério, hein?
Noah riu.
— Talvez.
Zander observou a mala ao lado dele.
— Vai ficar nos dormitórios?
Noah suspirou.
— Na verdade, ainda não decidi. Eu queria um apartamento fora do campus.
— Sério?
— Gosto de privacidade.
Zander ficou em silêncio por alguns segundos antes de abrir um sorriso.
— Isso é perfeito.
— Como assim?
— Eu também estava procurando alguém para dividir um apartamento.
Noah piscou, surpreso.
— Está falando sério?
— Totalmente. Os preços perto da universidade são absurdos.
Noah riu.
— Isso parece destino.
— Ou sorte.
A procura pelo apartamento
Na mesma tarde, os dois decidiram sair em busca de um lugar.
Caminharam pelas ruas próximas ao campus olhando placas de ALUGA-SE.
Zander apontou para um prédio moderno de três andares.
— Que tal esse?
Noah ergueu o olhar.
— Parece bonito.
Entraram no edifício e foram recebidos por uma senhora simpática.
— Vieram ver o apartamento 302?
— Sim — Zander respondeu.
A mulher entregou a chave.
O apartamento era lindo.
Sala espaçosa, cozinha moderna, duas suítes, varanda com vista para parte do campus.
Noah caminhou lentamente pelo local, encantado.
— É perfeito…
Zander abriu um sorriso.
— Eu pensei o mesmo.
Noah virou-se para ele.
— Você realmente aceitaria dividir comigo? Acabamos de nos conhecer.
Zander deu de ombros.
— Tenho bom pressentimento sobre você.
Noah sentiu o peito aquecer.
Há muito tempo ninguém confiava nele sem saber quem ele era.
— Eu também tenho sobre você.
A corretora interrompeu.
— Então, vão ficar?
Zander olhou para Noah.
— O que acha?
Noah sorriu, os olhos azuis brilhando.
— Acho que acabamos de encontrar nosso novo lar.
Zander estendeu a mão para ele.
— Parceiros de apartamento?
Noah apertou a mão dele.
— Parceiros.
Primeira noite no novo lar
Mais tarde, com as malas já no apartamento, os dois estavam sentados no chão da sala vazia, cercados por caixas.
Zander segurava duas latas de refrigerante.
— Um brinde ao começo da nossa vida universitária.
Noah pegou a sua.
— Ao começo.
As latas se tocaram.
Noah olhou ao redor.
Pela primeira vez, aquilo parecia real.
A universidade.
A liberdade.
A amizade inesperada.
O novo lar.