O início

933 Words
O campus da Faculdade de Arquitetura ganhava vida logo nas primeiras horas da manhã. O sol reflectia nos enormes painéis de vidro do edifício principal, enquanto grupos de alunos atravessavam os jardins impecavelmente desenhados. Mas toda a movimentação parecia desacelerar no instante em que Nathan Cristian surgiu. Alto, impecável em uma camisa branca ajustada ao corpo e calça social escura, os cabelos perfeitamente alinhados e o olhar frio que parecia ignorar o mundo, ele caminhava como se fosse dono do lugar. Ao lado dele vinham seus únicos amigos. Thiago Moreira, sorriso provocador, cabelos castanhos levemente bagunçados e um charme impossível de ignorar. E Yuri Vasconcelos, elegante, de traços marcantes e olhar misterioso, sempre tão sofisticado quanto Nathan. Os três eram conhecidos no campus como o trio de ouro. — Aposto cinquenta que até o fim da manhã alguém vai tentar falar contigo — disse Thiago, segurando o riso. Nathan nem olhou para ele. — Você perde dinheiro demais com apostas idiotas. Yuri soltou uma risada baixa. — Ele só está tentando distrair do fato de que ficou acordado até às três terminando a maquete. Thiago levou a mão ao peito, fingindo indignação. — Aquela maquete é arte. Merece noites em claro. Nathan ergueu uma sobrancelha. — Arte? Você colou metade das peças tortas. — Isso se chama desconstrutivismo. Os três riram ao entrar na sala. A aula de Projeto Estrutural já havia começado. O professor andava entre as mesas observando as plantas e os modelos 3D nos tablets. Nathan sentou-se no centro, abrindo seu notebook ultrafino. — Hoje temos que finalizar o projeto da biblioteca sustentável — lembrou Yuri. — O meu já está pronto — Nathan respondeu, sem tirar os olhos da tela. Thiago inclinou-se para ver. — Claro que está. Você provavelmente desenhou isso dormindo. Nathan mostrou a tela por um segundo. O projeto era impecável: linhas modernas, grandes aberturas de luz natural, jardins internos e um conceito minimalista luxuoso. Yuri assobiou. — Isso está absurdo de perfeito. — Eu sei — Nathan respondeu com um meio sorriso arrogante. Thiago apontou para a própria tela. — Então ajuda os pobres mortais aqui. Nathan respirou fundo, mas puxou a cadeira para mais perto. — A circulação vertical está errada. Se insistir nesse elevador no centro, vai matar a iluminação zenital. Thiago arregalou os olhos. — É por isso que eu te mantenho por perto. — Achei que fosse pela minha beleza — Nathan retrucou. — Também. A manhã passou entre cálculos estruturais, ajustes de planta e discussões sobre materiais sustentáveis. Quando o sinal do intervalo tocou, o trio saiu para o corredor. Foi instantâneo. Conversas diminuíram. Olhares se voltaram para eles. Algumas garotas literalmente pararam no meio do caminho. Thiago sorriu de lado. — Lá vem. Duas meninas se aproximaram, claramente nervosas. — Nathan… você poderia nos ajudar com o trabalho de maquete? — perguntou uma delas, mexendo no cabelo. Nathan manteve a expressão neutra. — Não. A garota piscou, surpresa. — É… só que ouvimos dizer que você é o melhor… — E ouviram certo. Ainda assim, não. Thiago virou o rosto para esconder a risada. Yuri cruzou os braços, divertido. A segunda menina tentou outra abordagem. — Talvez a gente pudesse agradecer com um café na saída? Nathan finalmente olhou para elas, o rosto bonito e completamente impassível. — Não misturo gentileza com falsas intenções. As duas coraram e saíram rapidamente. Thiago explodiu em gargalhadas. — Você consegue ser c***l sem levantar a voz. Isso é um talento. Nathan deu de ombros. — Eu apenas não gosto de perder tempo. Na lanchonete, o trio ocupou a mesa de sempre, perto da parede de vidro com vista para o jardim central. Bandejas impecáveis, cafés caros, croissants e sucos naturais. — Às vezes eu acho que essa universidade inteira vive em função de te observar — comentou Yuri. Nathan tomou um gole do café. — Problema deles. Thiago apoiou o cotovelo na mesa. — Falando em problemas, o professor pediu uma apresentação em dupla para sexta. Nathan franziu a testa. — Não trabalho em dupla. — Vai ter que trabalhar — Yuri disse. — Regras do curso. Nathan recostou-se na cadeira. — Então escolho vocês dois. Thiago riu. — Isso seria trio, gênio. A conversa seguiu leve, entre piadas sobre professores exigentes, críticas aos projetos ruins de outros alunos e comentários sobre os próximos eventos da faculdade. Ao fim das aulas, já no estacionamento privativo, os carros luxuosos chamavam quase tanta atenção quanto seus donos. O Porsche preto de Nathan, o Mercedes cinza de Yuri e o BMW azul escuro de Thiago brilhavam sob a luz dourada do fim da tarde. Thiago girou a chave do carro no dedo. — Hoje à noite no meu apartamento? Precisamos revisar a apresentação. Yuri assentiu. — E pedir comida japonesa. Nathan fechou a porta do Porsche com calma. — Oito horas. Antes de entrar, mais uma garota se aproximou, claramente sem desistir. — Nathan, você vai à festa de sábado? Ele colocou os óculos escuros. — Não. — Mas eu nem disse onde é… Nathan lançou um olhar frio e entrou no carro. — Exatamente. O ronco potente do motor arrancou mais suspiros ao redor. Thiago e Yuri trocaram um olhar divertido. — Ele nunca decepciona — Yuri comentou. — O rei do gelo — Thiago completou. Os três carros deixaram o estacionamento em sequência, como uma cena de filme. Dentro do Porsche, Nathan permitiu-se um raro sorriso. Apesar de toda a atenção que recebia, apenas com Thiago e Yuri ele conseguia ser ele mesmo. Sem máscaras. Sem jogos. Apenas Nathan e seus únicos amigos.
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