6

1002 Words
China Assim que o advogado saiu, eu fiquei pensando em como resolver a situação do Dexter. Não posso deixar ele morrer, e o negócio aqui vai desandar se ele rodar. Pra manter a favela controlada, eu preciso dele vivo — ainda que ele seja um problema. Meu rádio apitou. Os Vapores estavam monitorando o diretor do presedio, garantindo que o Júlio pudesse entrar e sair sem chamar atenção. A questão era que nada disso ia garantir que o Dexter recebesse a medicação a tempo. China: (no rádio) Fica de olho no advogado. Quero saber o que ele arrumou lá dentro. Vapor: Pode deixar, qualquer coisa aviso na hora. Júlio A primeira coisa que senti ao entrar na cela foi o cheiro de mofo e metal. Dexter estava encostado na parede, muito machucado, mas os olhos frios e calculistas ainda me perfuravam. Ele parecia analisar cada movimento meu, como se cada segundo comigo ali fosse um possível jogo de xadrez. Júlio: Dexter, eu trouxe os remédios. Com a autorização, consigo liberar alguém pra te dar um suporte nos dias de visita também. Ele riu baixo, um riso frio Dexter: Que consideração, hein, doutor. Mas já estou acostumado a lidar com esses lixos sozinho. Júlio: Eu sei que você aguenta, mas a situação não é só física. Você sabe disso melhor que ninguém. Esse lugar tá te moendo, irmão. Ele levantou o olhar, o mesmo olhar que eu conhecia da rua — um olhar que podia gelar o sangue de qualquer um. Dexter: Júlio, se eu for depender de visita, vou me enterrar aqui dentro. Quero a medicação pra aguentar o tempo necessário, o resto eu dou um jeito. Mas lembra: não confio em ninguém que você mandar, entendeu? Júlio: Eu entendo, mas vai precisar de alguém, Dexter. Alguém de confiança que possa entrar e sair com frequência. Dexter: Pode deixar que eu vou escolher, mas, enquanto isso, faça o seu trabalho. Tire a autorização e depois some daqui. O tom dele era seco, sem espaço para discussão. Ele estava machucado, mas ainda era o mesmo estrategista frio, incapaz de mostrar qualquer vulnerabilidade. Júlio: Certo. Vou garantir a entrada dos remédios e volto com uma solução pra assistência, mas entenda que tô arriscando minha pele por você. Dexter: Se tá arriscando, é porque sabe que eu sempre pago bem. Ou acha que eu tô aqui por amizade? Dei um aceno seco. Dexter nunca se envolvia emocionalmente, nem mesmo com os mais próximos. Na mente dele, o mundo era um jogo de lealdades compradas. Saí da cela com uma mistura de alívio e preocupação. Sabia que ele era capaz de resistir, mas também entendia que o tempo era curto. Fui até o escritório do juiz. Ele estava ocupado, mas sabia que, quando eu aparecia, o assunto era sério. Juiz: O que quer, Júlio? Júlio: Preciso de uma autorização especial para entrada de medicação e um acompanhante nos dias de visita para um cliente em estado crítico. Ele vai precisar de alguém que possa entrar regularmente. Juiz: E o que eu ganho com isso? Ele não mudava; sempre direto ao ponto. Júlio: Sei que está com alguns problemas na área com os tráficos rivais, e eu posso facilitar sua vida em algumas questões. O juiz me olhou com um interesse frio, analisando cada palavra. Juiz: Certo, mas se eu der a autorização, espero que cumpra sua parte. Não vou facilitar as coisas de graça. Saí do gabinete com a autorização em mãos. Conseguir o que precisava era só o começo. Tinha que voltar ao presídio e, finalmente, entregar o que Dexter queria. De Volta ao Presídio Quando voltei, o carcereiro olhou a autorização, relutante, mas não questionou. Entrei e fui direto até a cela do Dexter. Júlio: Consegui o que pediu. Aqui está a autorização. Remédios garantidos. Dexter: (erguendo uma sobrancelha) Rápido. Bom, isso facilita. Agora preciso que continue com o trabalho e garanta que o suprimento não pare. Não importa como. Júlio: E o acompanhante? Precisa escolher alguém logo. Ele me lançou um olhar gélido, um meio-sorriso sem humor. Dexter: Já disse que isso é comigo. Mas aprecio o esforço. Agora saia daqui. Tem mais gente que precisa de atenção. Saí da cela com a sensação de que havia mais sob a superfície, mas era exatamente assim que ele queria. Dexter mantinha todos na distância exata e só deixava que se aproximassem quando convinha. Júlio Quando voltei à cela, Dexter estava sentado, encostado na parede, mantendo o mesmo olhar gélido de sempre. A expressão dele não mostrava o cansaço, mas a intensidade nos olhos denunciava que ele precisava dos medicamentos e, mais ainda, de um plano que o ajudasse a resistir. Júlio: Consegui o que você pediu, Dexter. Aqui estão os remédios autorizados, e agora é só acertar quem vai te visitar nos dias certos. Ele me encarou em silêncio por um segundo, calculando, antes de responder. Dexter: Preciso de uma mulher pra vir aqui. Alguém que seja firme, que entenda as coisas e que saiba o que está fazendo. Não quero visita sentimental. Tem que ser uma mina responsa. A frieza na fala dele me deixou claro que não era sobre ajuda emocional; era estratégico. Ele não tolerava depender de ninguém, mas sabia reconhecer quando precisava manter as aparências — e, mais ainda, quando usar as pessoas certas. Júlio: Tudo bem, entendo o tipo de pessoa que quer. Vou ver alguém assim pra te dar suporte. Dexter assentiu, indiferente. Ele sempre sabia como manipular cada detalhe da situação, até as visitas. Dexter: Não é que eu queira depender de visita, Júlio. Mas quero alguém que saiba a diferença entre simpatia e lealdade. Júlio: Certo. Vou cuidar disso. Dexter: Perfeito. Agora saia e faça o que precisa. Meu tempo aqui depende do que você fizer lá fora. Deixei a cela sabendo que ele esperava uma parceira cuidadosa, mas sem a menor ilusão de sentimentalismo. Dexter era frio, até com aqueles que pareciam próximos. E era por isso mesmo que ele sobrevivia onde muitos não conseguiriam.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD