O PRIMEIRO BAILE

1645 Words
Capítulo 4 Amanda Narrando Já faz quinze dias que estou aqui no morro da Tijuca. Gato não me deixa sozinha um só minuto. Ele me levou a uma médica ginecologista, que não tirava os olhos dele, com cara de safada. Pediu para passar um anticoncepcional bom. Antes, ela fez exames para saber se eu estava grávida. O teste deu negativo, mas, para ter certeza, ela fez uma ultrassonografia e deu tudo negativo. Meu útero estava limpo. Então, ela passou o remédio e explicou como tomar. Mas quem nos ensinou mesmo foi a Ana Paula, para mim e para a Dayane. Ela também estava lá, esperando a consulta. Quando saímos da sala, ela veio na minha direção e me abraçou, dizendo: — Como está sua lua de mel? — Estamos nos dando bem, pelo menos por enquanto. E você? Ela fez uma carinha meio triste e disse: — Ontem RB saiu dizendo que ia pra boca ficar de plantão. Mas não foi. Jogaram no grupo da comunidade um vídeo que tinha ele, o PH, numa resenha com putas, numa casa que eles têm aqui em cima no morro. — Mas você já falou com ele sobre isso? — Não. A Ana Paula falou que não é pra dizer nada, fazer a Kátia, porque eles lá nessa casa só transam com as putas de camisinha. Olhei pra ela incrédula. — Sério isso? Deus me livre. Se alguém mandar no grupo uma coisa dessas, eu mostro pra ele e vou embora do morro. — Não é bem assim, não, prima. A Ana Paula falou que fez isso com o PH e levou foi uma surra. A mãe dela não falou nada, ainda deu razão pra ele. Temos que tomar cuidado. Aqui é diferente. Eles podem fazer o que querem, nós não. E se a gente fizer alguma coisa que desagrade, eles batem, deixando toda marcada pra gente aprender. Essa é a fala deles. Ela continuou: — A Ana Paula já tentou várias vezes fugir do morro, mas ele bota vapor na cola dela e pega ela na saída do morro. Bate tanto que ela vai parar no postinho toda machucada. Estou te contando porque estou com medo de acontecer com a gente. Olhei para onde eles estavam conversando. O celular do Gato tocou, ele atendeu, fez uma cara de safado e desligou. Veio até mim dizendo que apareceu um B.O. pra resolver, que não ia em casa almoçar e só ia chegar à noite. Minha prima me olhou com pena. Perguntei: — Posso ficar com a Dayane e a Ana Paula, tomar açaí ali no Seu Zé da praça? Ele deixou, falou alguma coisa com o RB, subiu na moto e foi. Senti um arrepio, um aperto no coração. Olhei pra minha prima e disse: — Tem alguma coisa errada. Minha prima entrou na consulta e demorou pra um c*****o. Quando saiu, veio com a receita. Subimos a pé. O RB também saiu logo assim que a consulta acabou. Passamos na farmácia, compramos nossos remédios, ligamos para a Ana Paula e chamamos ela pra ficar na piscina na casa da Dayane. Ela veio, estava com cara de quem tinha chorado. Fiquei preocupada com o rumo que as coisas estavam tomando. Ela nos contou que o marido dela também saiu. Viram ele descendo o morro com p**a na garupa da moto; mandaram foto. Passamos o dia ali, bebemos cerveja, almoçamos, depois tomamos banho de piscina. Descemos pra lanchonete; era seis horas. Sentamos nas mesinhas do lado de fora porque estava fresquinho. Vimos umas quatro marmitas chegando, bem bronzeadas. Elas eram lindas, os cabelos molhados: uma morena, outra ruiva, uma mulata e outra loira. Fiquei olhando, mas logo desviei o olhar pra Ana Paula, que estava com os olhos cheios d’água. Perguntei: — O que foi? Ela respondeu: — Era a ruiva que estava na garupa do PH saindo do morro. Abracei ela, mas já com o coração na mão. Minha prima estava com o rosto triste. As putas estavam numa farra, dizendo que não iam sentar durante uma semana, que deram gostoso. Diziam assim: — Já tenho o dinheiro das minhas compras do mês e pra me embelezar pro baile de sábado. A Ana Paula falou: — Essas aí são putas, só transam por dinheiro. Subimos o morro devagar. A Ana Paula foi pra casa dela, a Dayane pra dela, e a minha era quase do lado da casa da Dayane. Quando cheguei em casa, encontrei o Gato largado na cama, dormindo, todo queimado de praia, bronzeado, com um chupão bem grande no pescoço. Estava arranhado também, pouca coisa, mas estava. Desci pra cozinha. Dona Cláudia tinha deixado a comida pronta. Coloquei no prato e esquentei no micro-ondas. Quando sentei pra jantar, deparei com ele descendo as escadas e me olhando. Deu um sorriso sem graça e veio me abraçar. Percebi que o chupão tinha sido tampado, os arranhões no pescoço também, e os das costas — não sei por que ele botou camiseta pra tampar. Fiz o prato dele em silêncio, entreguei nas mãos dele. Sentamos e jantamos. Acabei, lavei nossos pratos e subi pra tomar banho. Ele não entrou no banheiro, como sempre fazia, mesmo tendo acabado de tomar banho. — Vida, vai no shopping amanhã, compra uma roupa bem linda pra você, faz seu cabelo. Quero você bem linda pro baile. Vou te apresentar como fiel. O RB também vai apresentar sua prima, o PH vai apresentar a Ana Paula. Vocês vão as três juntas e vão voltar juntas. Não corta seu cabelo, ok? Olhei pra ele e confirmei com a cabeça. Dei um beijo casto na boca dele, virei de costas. Fiquei surpresa porque ele não quis t*****r. Pegou no sono rapidinho. Acordei com um barulho de moto. Olhei pro lado e vi que o Gato não estava na cama. Fui até o banheiro, fiz minha higiene pessoal, tomei um banho, me vesti e desci. Tomei café. Dona Cláudia já estava na cozinha. Perguntei a ela: — A senhora viu o Gato? Ela olhou pra mim e disse que não. Quando ela chegou, ele já não estava. Falei que ouvi barulho de moto quando acordei. — Então, naquela hora eu já estava aqui dentro. Não vi ele sair. Ele não veio aqui tomar café, por isso não vi. Tomei meu café e subi. Botei uma bermuda jeans e um cropped, uma rasteirinha. Peguei meu dinheiro e botei na bolsa. Era mais ou menos R$ 10.000. Não sei pra que tanto dinheiro, mas peguei assim mesmo. Liguei pra Dayane e pra Ana Paula. Elas já estavam na praça me esperando. Desci pra encontrar com elas. Quando cheguei perto, um carro encostou. Tinha dois caras de moto e o motorista no carro que ia nos levar ao shopping. Entramos no carro e não conversamos, pra não dar confiança pros moleques. Quando chegamos ao shopping, começamos a subir a escada rolante. Olhamos e eles estavam disfarçando, mas nos vigiando. Olhei pras meninas e perguntei: — Quando vocês acordaram, os maridos de vocês estavam em casa? As duas disseram que não. Fiz outra pergunta: — Mas eles dormiram em casa? A Ana Paula olhou pra Dayane e disse: — O meu não dormiu em casa. E o seu, dormiu? A Dayane disse que sim, mas que ele chegou às três da manhã e ela não sabe onde ele estava. Eu me apavorei. Disse pra elas: — O Gato dormiu em casa, mas estava cheio de chupão, arranhado nas costas e bronzeado. E os de vocês, também estavam bronzeados? Elas balançaram a cabeça afirmando que sim. Olhamos uma pra outra e dissemos, as três ao mesmo tempo: — Então eram eles que estavam juntos com aquelas piranhas. Entramos numa loja e começamos a comprar. Entramos em outra, compramos perfumes importados, maquiagem e cremes, todos importados. Fizemos cabelo, depilação e unha. Saímos de lá já era três horas da tarde. Paramos na praça de alimentação pra almoçar, porque não tínhamos nem almoçado. Os caras estavam ali. Vimos quando compraram hambúrguer e sentaram numa mesa bem distante. Quando estávamos levantando, um amigo da Dayane viu ela e chamou: — Dayane! Quando ela viu, ficou branca, pálida. Eu disse: — Não fala com ele. Ela olhou pra ele e disse: — Oi, tudo bem? Como é que você está? — É só isso que eu posso falar com você. Não chega perto de mim. Passa batido. O rapaz não entendeu nada, mas fez o que ela mandou. Não demorou cinco minutos, o telefone dela tocou. Era o RB perguntando quem era o cara que tinha cumprimentado ela. Ela disse que era um amigo de escola, de muitos anos atrás, que não via havia muito tempo, e que não deu confiança. Ele só disse: — Quando chegar em casa, a gente conversa. Ela ficou branca. Eu acho que ele já bateu nela. Pegamos o carro de volta e voltamos pro morro. Quando chegamos em casa, o Gato já estava na sala, sentado, tomando cerveja. Ele olhou pra mim sorrindo e falou: — Como estão as coisas, meu amor? Olhei pra cara dele, nem encostei e disse: — Comprei. Eu quero ir nessa praia que você foi e ficou tão bronzeado do jeito que você tá. E vou te dizer uma coisa: você foi sem mim. Se eu também sair pra praia sem você, não reclama. Do nada, ele levantou e apertou o meu pescoço, dizendo: — Você só sai daqui com a minha ordem. Me assustei e fiquei ali. Quando foi à noite, subimos pro baile. Fomos apresentadas como fiéis, mas nenhuma de nós estava contente. A Dayane estava com um olho arroxeado e os braços roxos. Ela passou maquiagem no olho, que até disfarçou, mas no braço não deu. Perguntei: — Ele te bateu, né? Ela, com os olhos cheios d’água, disse que sim. E ainda estava apresentando ela como fiel. Um absurdo.
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