MAYA - DUAS LINHAS

1100 Words
Maya Faz dois dias desde o baile. Eu acordo com um enjoo estranho, um gosto amargo na boca. Viro pro lado na cama e o quarto gira devagar, como se eu estivesse bêbada. Mas não tô. Corro pro banheiro e m*l dá tempo de ajoelhar. Vomito tudo. Arde. Meus olhos lacrimejam. Meu estômago contrai de novo, vazio, mesmo sem ter mais nada pra sair. — Maya? — escuto a voz da minha mãe do lado de fora. Eu puxo descarga rápido, lavo o rosto. — Tô bem! Mentira. Saio do banheiro tentando parecer normal, mas minhas pernas estão moles. Minha mãe me olha de cima a baixo, desconfiada. — Você tá pálida. — Deve ser virose. — Você não comeu quase nada ontem. — Eu sei, mãe. Ela se aproxima, toca minha testa. — Não tá com febre… mas não tá normal também. Vou marcar médico. — Não precisa! — respondo rápido demais. — Vai passar, mãe. Ela cruza os braços. — Maya, você anda estranha faz tempo. Eu desvio o olhar. — Só tô cansada. Ela suspira. Não insiste. Mas eu sei que ela não se convenceu. Volto pro meu quarto. Deito. Fecho os olhos. O enjoo volta em ondas. Meu celular vibra. Mensagem do Russo. 📲 Russo: Saudade de tu, minha delicinha. Meu coração aperta diferente. Saudade. Medo. Uma coisa misturada com outra. Eu respondo só um: 📲 Eu: Também. Levanto pra ir no banheiro de novo. E de novo eu vomito. Dessa vez, quando levanto a cabeça, encontro o Gael encostado na porta. Ele me observa em silêncio. Sério demais. — Tá passando m*l desde quando? — Desde hoje cedo. Ele entra, fecha a porta atrás de si. — Maya… — É virose, mano. Relaxa. Ele cruza os braços. — Você tá atrasada? Eu travo. — Atrasada? Atrasada do quê? Ele me olha como se eu fosse burra. — Da menstruação, p***a. Meu coração dá um pulo errado. — Não. Quer dizer… eu tomo injeção. Ele não pisca. — Isso não responde minha pergunta. Eu penso rápido. Tento lembrar. Minha cabeça parece algodão. — Acho que… não sei. Eu não controlo muito por causa da injeção, tem mês que desce outro não desce quase nada... Ele passa a mão no rosto. — Maya. — O quê? — Tu pode tá grávida daquele infeliz. Eu rio. Um riso nervoso. — Impossível. — Não é impossível, Maya. — Eu tomo injeção todo mês! — E todo mundo sabe que não é 100% confiável. Eu balanço a cabeça negando. — Eu e o Russo... não usamos camisinha. — Confesso. O olhar dele escurece na hora. — Eu sei que não usa. E isso já é outra merda. — Para Gael! — Não, você que tem que parar! — ele explode baixo, tentando não gritar. — Você transa sem preservativo com um cara que fica com outras na tua cara, Maya! — Ele não transa com outras sem camisinha! — E você acredita, né? E mesmo que não transasse, ele vive no meio de droga, sangue, briga. Se não for gravidez, pode ser coisa muito pior! Aquilo me dá um soco no peito. — Para de falar assim dele! — Eu tô tentando te proteger! — Eu não preciso ser protegida! Ele respira fundo, como se estivesse contando até dez. — Então faz um teste. — Não vou fazer teste nenhum. Eu devo ter comido algo estragado. Ele me encara por mais alguns segundos. Depois sai do banheiro sem dizer nada. Eu fico ali, sentada no chão frio, coração disparado. Grávida. A palavra ecoa na minha cabeça como se fosse proibida. Não. Não pode ser. — No dia seguinte logo cedo, Gael entra no meu quarto sem bater. Joga uma sacola em cima da cama. — Que isso? — Testes de gravidez. — Gael… — Faz dois... Eu sinto minhas mãos ficarem geladas. — Eu não preciso disso. — Precisa sim, Maya. Eu cruzo os braços. — Eu não tô grávida. — Então prova. Faz os testes. Eu queria odiar ele naquele momento. Mas não consigo. Porque no fundo… eu também quero saber. Pego um dos testes e vou pro banheiro. Minhas mãos tremem enquanto faço tudo. Espero. O tempo parece não passar. Olho. Duas linhas. Nítidas. Fortes. Positivo. Meu mundo para. Meu coração dispara tão forte que eu escuto no ouvido. Minha visão embaça. Eu começo a rir. Depois começo a chorar. Grávida. Eu. Dele. Eu abro a porta devagar. Gael tá sentado na beirada da cama, sério. Eu só levanto o teste e ele vê as linhas. Ele fecha a cara na hora. — Faz o outro. — Gael… — Faz o outro, Maya. Eu volto pro banheiro como se estivesse andando dentro d’água. Faço. Espero. Olho. Duas linhas. De novo. Eu escorrego pela parede até sentar no chão. A mão vai pra minha barriga sem eu perceber. Tem um bebê ali? Um filho do Russo? Meu peito aperta de medo. Mas junto com o medo vem uma coisa quente. Uma alegria absurda. Uma esperança que eu nem sabia que ainda tinha. Talvez agora ele mude. Talvez agora ele fique só comigo. Talvez agora eu seja suficiente. Começo a chorar mais forte. Gael entra no banheiro, vê o segundo teste na minha mão. Ele não fala nada. Só me puxa e me abraça forte. Eu me agarro nele como quando era criança. — Eu tô com medo… — eu sussurro. — Eu sei. — Mas eu também tô feliz. Ele fecha os olhos. — Eu sei, Maya. Eu sei. — Eu preciso contar pra ele. O corpo do Gael fica tenso. Mas ele não diz nada. — Hoje. Eu preciso falar hoje. Ele respira fundo. Eu espero ele dizer “não vai”. Espero ele me impedir. Mas ele não impede. Ele só segura meu rosto. — Então vai, mas volta. Eu levanto, enxugo as lágrimas. Troco de roupa com as mãos ainda trêmulas. Coloco uma blusa larga sem perceber que tô protegendo a barriga instintivamente. Pego o celular. 📲 Eu: Posso ir aí? Russo responde quase na hora. 📲 Russo: Sempre gata, só colar. Tô te esperando. Meu coração dispara. Eu olho pro Gael na porta do quarto. Ele não sorri. Eu passo por ele. Desço a escada. Saio de casa. O morro tá vivo como sempre. Gente conversando, moto subindo, música ao longe. Eu coloco a mão na barriga de novo. Vou contar pro homem que eu amo que ele vai ser pai de um filho nosso. E tudo que eu sinto é medo. E esperança. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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