Russo
Eu tô aqui, encostado no balcão improvisado desse baile no morro do Jogador, com o copo de whisky na mão, mas o gosto já virou nada faz tempo. A batida do funk tá estourando nos paredão, o grave batendo no peito como soco, e o cheiro de maconha misturado com suor e perfume barato enche o ar. Luz colorida piscando, mulher rebolando no meio da pista, cria gritando.
— Bota, bota! — pros MCs.
Normalmente isso me anima, me faz sentir no controle. Hoje não. Hoje eu só sinto um vazio que não explica.
A Maya mudou. Eu percebo faz dias. O olhar dela tá distante, como se tivesse uma parede de vidro entre a gente. Ela sorri, responde, mas não é a mesma. Não tem mais aquele fogo nos olhos quando me olha. Eu tento puxar ela pra perto, beijo no pescoço, mão na cintura, mas sinto resistência.
Ela se esquiva devagar, disfarça com um riso fraco. Isso me fode.
Mexe com a parte mais doente de mim. Medo de perder. Medo de alguém roubar o que é meu. Porque ela é minha. Sempre foi. Desde o dia que eu vi ela no meu baile com aquela cara de quem não tem medo de nada.
Os rumores tão voltando a circular também. O Trovoada não esqueceu a morte da garota. Dizem que aquilo não acabou a guerra, só deu uma pausa. Que o irmão dela tá juntando gente, que tem conversa de revanche. Eu ouvi dos meus próprios soldados, cochichando no barraco.
— O Russo acha que enterrou, mas cova rasa não segura defunto.
Eu finjo que não escuto, mas escuto tudo. Fico mais violento no comando. Ontem mesmo mandei quebrar um moleque que olhou torto pro meu carro. Bati na cara dele na frente de todo mundo. Só pra mostrar que ainda mando aqui. Que ninguém vai me tirar o que conquistei.
Eu quis trazer a Maya pro baile hoje justamente pra mostrar que tô tentando mudar. Nunca levei ela pra baile em morro alheio. Ela sempre fica no meu morro, na minha casa, no meu mundo. Raramente levo no meus bailes. Mas hoje eu pensei, vou mostrar que sou capaz de sair da bolha, de dividir espaço. De ser menos possessivo. Mas eu mesmo sabia que era mentira. Eu trouxe ela pra marcar território. Pra todo mundo ver que ela tá comigo. Que ela é minha rainha.
A gente chegou junto, de mão dada. Ela tava linda, vestido justo preto, cabelo solto, batom vermelho. Eu vesti a melhor camisa, corrente no pescoço, tênis novo. Quase tretei com o Vassoura um dos braços direitos do Jogador. Mas mesmo assim os caras me cumprimentaram com moral.
Eu dei risada, porque o Jogador sabe que não pode vacilar comigo. Sou essencial pro funcionamento do morro dele. O cara tá na minha mão. Maya ficou do meu lado, quieta, mas sorrindo pros conhecidos que passavam e me cumprimentavam. Dancei com ela um pouco, colei o corpo no dela no meio da pista. Ela rebolou devagar, mas sem aquela empolgação de antes. Eu senti.
Depois de um tempo, ela falou, por cima da música alta.que ia no banheiro, eu nem sei se respondi, já meio bêbado, a cabeça girando de whisky e das linhas de pó que eu tinha puxado.
Ela sumiu na multidão. Cinco minutos. Dez. Quinze. No baile ninguém “demora” assim. Aqui é morro. É olho em cima o tempo todo. Todo mundo se conhece, todo mundo vigia. Eu fico encostado no bar, copo na mão, mas já não sinto gosto de nada. Só observo. Um cara ali do lado olhando demais pra direção que ela foi. Outro rindo com os amigos, apontando. Isso me irrita pra c*****o, sempre a ho que tudo tem haver comigo. Sou assim desde sempre mano.
— Vou ali e já volto — falo pros meus soldados, que tavam ali do lado bebendo.
Eles assentem, sem perguntar. Sabem que quando eu falo assim, melhor não encher o saco.
Passo no Jogador, mas volto o foco pra minha Maya.
Caminho pros fundos do baile. A parte perto dos banheiros é mais escura, a música chega abafada, vira sussurro. Tem casal se pegando no canto, cheiro de baseado forte. E aí eu vejo ela antes dela me ver.
Encostada na parede suja, chorando baixinho. Ombros tremendo. A luz fraca bate no rosto dela, as lágrimas brilhando.
Passo a mão no rosto devagar, tentando me controlar.
— Que p***a é essa, Maya?
Ela levanta a cabeça rápido, limpa as lágrimas com as costas da mão.
— Nada.
— Nada? Tá chorando por nada agora? — eu falo, voz já saindo grossa.
Ela cruza os braços, tentando se recompor.
— Eu só queria respirar um pouco, Russo.
— Respirar? Eu não tô te sufocando, c*****o.
Ela ri fraco, sem humor nenhum.
— Não?
Aquilo já me sobe errado. O sangue ferve.
— Para de palhaçada. Tá querendo fazer cena em baile dos outros?
Ela vira o rosto pro lado.
— Eu só tô cansada, Russo.
— Cansada de quê? De mim?
Ela não responde. Silêncio. Isso me deixa pior. Muito pior.
Eu seguro o braço dela, firme.
— Fala olhando pra mim, p***a.
Ela tenta puxar o braço.
— Tá doendo.
— Eu nem apertei ainda.
Mas apertei. Apertei sim.
Porque tô com raiva.
Raiva dela, raiva de mim mesmo, raiva do mundo inteiro.
Ela tenta se soltar de novo.
— Me solta, Russo. Alguém vai ver.
— E daí? Tu é minha. p***a! Tu entende isso? MI NHA!
Ela puxa com mais força, tentando se soltar, os olhos faiscando.
— Eu não sou objeto!
Aquilo me estala por dentro. Como se tivesse levado um tapa na cara.
— Para de drama, c*****o!
Ela tenta sair andando e eu puxo ela de volta pelo braço. Ela quase tropeça, o salto arranha no chão irregular.
Eu tento arrastar ela pelo braço de volta pro baile, porque hoje ela resolveu fazer cena na frente na p***a do baile. O vestido justo sobe um pouco enquanto ela tenta se soltar, choramingando baixo.
— Para, Russo, por favor. — ela repete, voz tremendo.
Eu aperto mais forte, não pra machucar de verdade, mas pra ela entender que comigo não é assim que funciona.
E é aí que eu escuto uma voz. Grave, calma, mas cortante como faca.
— Solta a mina aí, parceiro. Tá machucando ela. — solta, voz grossa de quem bebeu demais mas ainda quer bancar o valentão.
De repente, sinto um empurrão forte nas costas. Cambaleio pra frente, quase derrubo ela junto. Viro rápido, já com o sangue subindo.
É o Edy. Aquele filho da p**a metido a herói.
Eu não penso duas vezes. Fecho o punho e acerto um soco direto no queixo dele. O impacto ecoa no meu braço, ele voa pra trás e bate as costas no chão sujo dos banheiros. Dói na mão, mas valeu. Ele levanta a cabeça zonzo, olhos injetados, e me reconhece na hora.
— Qual foi, Russo? Já tá arrumando confusão, viado? Solta a mina! — ele grita, se levantando meio torto, o álcool deixando ele mais lento do que o normal.
A Maya tenta puxar o braço de novo, olhos cheios d'água. Ela olha pra mim, depois pro Edy, e fala baixo.
— Moço, não se mete, por favor.
Eu sinto o peito apertar um segundo. Ela tá com medo. Mas ela é minha. Ponto.
O Edy ainda tá falando merda.
— Russo, solta ela aí na moral, mano. Não vamos precisar chamar o Jogador pra resolver essa besteira.
Eu não respondo com palavras. Puxo a glock da cintura devagar, só pra mostrar que a conversa acabou. Aponto o cano pra ele, o metal frio refletindo a luz amarela fraca dos banheiros. Não vou atirar — não aqui, não agora — mas ele precisa entender.
— Cara, vaza daqui. Ela é minha mulher. Ela já pediu pra tu não se meter. — digo, olhando pra ela enquanto falo, não pra ele. Quero que ela veja que eu tô no controle.
Ela olha pra mim, depois pro Edy. Assente devagar, quase imperceptível, tipo "vai embora, por favor". O medo nos olhos dela é real, mas é medo de mim também, não só do que eu posso fazer com ele. Engulo seco.
O Edy respira fundo, engole o orgulho. Dá pra ver nos ombros caídos.
— Tá bom, véi. Tô vazando.
Ele vira as costas e sai devagar pro lado do bar, passos pesados, coração provavelmente disparado. Eu guardo a glock de volta na cintura, solto o braço dela com mais cuidado agora. Ela não olha pra mim. Só fica ali, tremendo um pouco, esperando o que vem depois.
Eu sei que a noite tá só começando a f***r de vez.
Voltamos pro camarote, perto do bar.
Não falamos mais nada.
Eu fico ali, no escuro do baile, música distante, coração batendo forte. O whisky na mão treme um pouco.
Eu entendo agora. Não dá pra fugir de quem eu fui. O sangue, as covas rasas, as guerras que eu comecei e não terminei. Tudo tá saindo da cova. E o amor da Maya... talvez seja a única coisa que eu ainda tenho a perder.
Eu jogo o copo no chão. Ele estoura. Ninguém olha. Todo mundo continua dançando.
Mas eu não danço mais. Não hoje.
Eu só sinto o vazio crescendo. E o medo. Medo de verdade. Porque se eu perder ela... eu perco tudo.
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