GAEL - SANGUE DO MEU SANGUE

1460 Words
Gael Eu sou o Gael. Gêmeo da Maya. Então já sabe, tenho 20 anos também. Mesma cara... bom... nem tanto, com certeza eu sou beeeem mais bonito, mas temos a mesma mãe que nos mima muito, mesmo pai que nos criou com mão de ferro e olhar de quem já matou antes de aprender a amar de verdade. Sem esquecer que somos irmãos do Douglas, que é mais velho do primeiro casamento da nossa mãe. É que a minha mãe é mais velha que o meu pai e meu pai era melhor amigo do Douglas... bom já dá pra imaginar a treta, né? Mas enfim, a gente nunca foi igual por dentro. Ela sempre foi a que questionava tudo em silêncio. Eu sou o que questiona em voz alta, mas nunca alto o suficiente pra mudar alguma coisa. Desde moleque eu sinto ela. Não é papo de gêmeo místico, não. É real. Quando ela quebrava o braço jogando bola na quadra da escola, eu sentia um formigamento no braço antes dela gritar. Quando ela ficava bolada com alguma parada da vida, eu acordava no meio da noite com o peito apertado sem motivo. Nos últimos dois anos, esse aperto virou rotina. Ela sumia de casa, voltava com olheiras fundas, evitava meu olhar na mesa do café. No começo eu pensei que era a faculdade de Direito. Estudar pra c*****o, ler livro grosso, discutir lei como se fosse salvar o mundo. Mas logo saquei que não era livro nenhum. Era homem. E homem daqueles ruins, tá ligado? Eu tô no quintal agora, fumando um beck encostado no muro, olhando pro morro lá em baixo. O sol tá batendo forte, o asfalto quente soltando cheiro de borracha queimada. Meu pai, o Ben, tá lá dentro no escritório conversando com os cria. Voz baixa, comando firme. Ele é o rei aqui. Não precisa gritar. Basta olhar que todo mundo obedece. Inclusive eu. Mas eu odeio isso. Odeio ser o herdeiro relutante. Não quero o trono. Não quero a coroa de chumbo que vem com ela. Quero sair dessa merda, mas pra onde? Pra faculdade como a Maya? Pra emprego de carteira assinada que paga pouco e humilha muito? Não dá mermão. O morro não solta a gente assim fácil. A porta dos fundos abre. É ele. Meu pai. Camiseta oversize, cicatriz brilhando no sol. — Coé, filho. Tá aí pensando na vida? Eu dou um trago, solto a fumaça devagar. — Na real? Tô pensando na nossa vida, pai. Ele se aproxima, pega o beck da minha mão, dá um trago também. Depois me devolve. — E o que você concluiu? — Que a gente vive numa guerra que nunca acaba. Que você manda, protege, mata se precisar. Mas e o custo? A Maya tá estranha. A mãe vive preocupada. Eu tô aqui, preso no meio, sem querer ser você, mas também sem conseguir ser alguém diferente. Ele ri baixo, sem graça. — Você acha que eu escolhi isso, Brutus? — Pois é, esse é meu vulgo, herdei do meu avô depois de bater em uns pivetes e ele ver que sou como ele era. — Que eu acordei um dia e disse “quero ser o Ben do morro”? Não, Gael. A vida escolheu. E quando escolhe, ou você aceita e domina, ou te domina. Sem poder, a gente seria caçado. Como rato. Você quer isso pra sua irmã? Pra sua mãe? Pros seus avós? Pra você? Eu balanço a cabeça. — Não. Mas também não quero que a Maya entre nessa guerra que não é dela. Ele me encara longo. — Ela já entrou. Quando escolheu andar com quem anda. — Você sabe? — Eu sei o suficiente. Russo. Nome que pesa. Homem instável. Violento. Não é só complicado, filho. É perigoso demais. E ela tá cega de amores por ele. Eu sinto um frio na espinha. — E você vai deixar, pai? — Deixar? Eu não controlo o coração dela. Só controlo o morro. Se ela cair, vai aprender na marra. Como todo mundo aprende. Ele vira as costas, entra de novo. Eu fico ali, beck queimando entre os dedos, pensando que talvez o meu maior medo não seja perder o trono. É perder ela, minha irmã. Mais tarde, entro em casa. A Maya tá no quarto dela, sozinha, arrumando uma mochila pequena. Roupa, carregador, escova de dente. Coisas de quem vai passar a noite fora. De novo. Eu encosto no batente da porta, cruzo os braços. — Tá indo viajar, mana? Pro Nordeste? Ela levanta o olhar, força um sorriso. — Vai zoar, né? — Tô zoando pouco. Você tá parecendo fugitiva, Maya. Ela fecha o zíper da mochila, senta na cama. — Tô indo pro morro de cima. Só hoje. Eu entro, fecho a porta atrás de mim. Sento na cadeira da escrivaninha. — Só hoje. Igual ontem. Igual anteontem. Você acha que eu não percebo, Maya? Ela suspira. — Gael, não começa cara. Que saco. — Eu não começo. Eu continuo. Porque você tá sumindo, Maya. Tá evitando me olhar. Tá evitando todo mundo aqui de casa. E eu sei que tem um homem no meio. Ela fica quieta. Silêncio já é resposta. — Quem é o cara que conseguiu o coração da minha irmã? Quem é o sortudo? Ela olha pro chão. — É o Russo. O nome sai da boca dela como se doesse. Eu sinto raiva subir quente. — Russo. c*****o, Maya. Você tá falando sério, mesmo? — Tô. Eu me levanto, ando de um lado pro outro no quarto pequeno. — Você sabe quem ele é, né? Não é só “um cara complicado”. Ele manda no morro dele com mão de ferro. Some com mina, bebe até cair, atira em quem vacila. É instável pra c*****o. Violento. Esse tipo de homem não muda por amor, mana. Ele muda quando morre, quando não pode mais fazer merda. Ela explode. — Você não conhece ele, Gael! Ninguém conhece! Todo mundo só vê o monstro. O chefe. O perigoso. Mas eu vejo o outro lado. O cara que me abraça quando tá destruído. Que me beija como se eu fosse salvar ele. Eu paro na frente dela. — Salvar? Ele não quer ser salvo, Maya. Ele quer controle. Quer posse. E você tá se entregando de bandeja pra ele. — Eu escolho isso. — Escolhe? Ou ele te prende? Ela se levanta também. Olhos brilhando de raiva e lágrima. — Ninguém respeita as minhas escolhas nessa casa! O pai me julga. Você me julga. Todo mundo acha que sabe o que é melhor pra mim. Mas ninguém vive o que eu vivo com ele. Eu baixo o tom. — Eu não tô julgando pra te controlar. Tô com medo. Medo de verdade. Ontem à noite, no baile do morro dele, eu vi. Duas minas dançando pra ele. Coladas nele. Ele rindo, bebendo, pegando as duas depois. Saiu com elas. E você? Ficou esperando na casa dele? Ela congela. Por um segundo acho que vai chorar. Mas ela engole seco. — Eu não me importo. — Para de mentira, Maya. Você se importa sim. Só que prefere fingir que não. — E se eu me importar? O que muda pra você? Ele é assim, droga. Sempre foi. E eu sabia quando entrei nisso. Eu me aproximo dela, ponho a mão no ombro. — Mana… amar alguém não significa se colocar em risco constante. Não significa aceitar humilhação disfarçada de paixão. Você merece mais. Merece um cara que te coloca em primeiro lugar. Não um que te deixa de reserva.Voce é lindo Maya, estudiosa, inteligente pra caramba, cara. Mas tá sendo burra demais. Ela tira minha mão devagar. — Eu sei o que mereço mais, Gael. Mas eu amo ele. E amor não é uma escolha, não é racional. — Então o que é? Autodestruição? Ela pega a mochila, joga no ombro. — É o que eu tenho agora. Eu fico parado, olhando ela passar por mim. Abre a porta do quarto. — Maya… Ela para, mas não vira. — Se cuida, tá? Porque se algo acontecer com você… eu não aguento. Te amo. — Te amo. — Ela diz baixinho. Ela sai. Passos leves pelo corredor. Eu ouço a porta da frente abrir e fechar. Corro pra janela do quarto. Vejo ela descendo a ladeira. Cabelo solto, mochila nas costas, andando rápido como quem foge de si mesma. Eu fico ali, encostado no vidro frio. Pressentimento pesado no peito. Tipo quando a gente sente a bala antes dela chegar. Eu não sabia ainda como, nem quando. Só sabia que o nome Russo ainda ia ser cuspido com ódio dentro da minha casa. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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