MAYA - ONDE EU ME PERCO

1393 Words
Maya Eu chego no morro do Russo quando a noite já engoliu tudo. A ladeira tá escura, só iluminada pelos postes meia-boca e pelas luzes coloridas que piscam nas bocas de fumo. O som do funk estoura alto, grave batendo no peito como se quisesse entrar dentro de mim. Tem cria armado na entrada, fuzil pendurado no ombro, olho de quem já matou e não sente mais nada. Eles me reconhecem na hora. Um acena com a cabeça, outro fala baixo pro outro. — É a mina do chefe. Eu passo, cabeça erguida, mas por dentro o coração tá acelerado. Não é só medo. É aquela mistura doida de medo e t***o, perigo e vontade de pertencer. As minas na laje de cima me olham de canto. Algumas com inveja pura, outras com respeito forçado. Elas sabem que eu sou a que fica. A que ele chama quando quer. A que não some depois. Eu sinto os olhares queimando nas costas enquanto subo a escada de ferro rangente. Cheiro de maconha, cerveja, suor. Tudo junto. Entro na laje dele. O lugar tá lotado de gente. Cria bebendo, rindo alto, mulher rebolando no meio da roda só de calcinha. No centro, o Russo. Ele tá de pé, sem camiseta, copo na mão, voz alta discutindo com o Juninho. — p***a, tu vacilou, mermão! Eu falei pra resolver quieto, não pra fazer alarde! Juninho baixa a cabeça. — Foi m*l, chefe. O cara que vacilou primeiro. Russo joga o copo no chão. Vidro estilhaça. — Vacilou primeiro? Aqui quem vacila some, c*****o! Aí ele me vê. Parada na entrada, mochila no ombro, short jeans, top preto. O rosto dele muda na hora. A raiva some, vira um sorriso torto, daqueles que só eu conheço. Ele larga o Juninho no meio da frase, vem até mim devagar, como predador que já caçou. — Coé, minha linda — ele fala baixo, só pra mim. Me puxa pela cintura, cola o corpo no meu. Cheiro de uísque, maconha e suor. Me beija na boca na frente de todo mundo. Língua possessiva, mão apertando minha b***a. Os cria assoviam, riem. — Essa é minha, tá ligado? — ele grita pros vapô ao redor, sem tirar a boca do meu pescoço. — Quem encostar leva tiro na testa. Eles riem mais alto. — É nóis, chefe! — A mina é braba! Eu sorrio, mas por dentro sinto um frio. Importante pra ele? Sim. Objeto dele? Também. Prêmio que ele exibe. Troféu vivo. Ele me leva pro quarto dele. Fecha a porta com o pé. O som do funk fica abafado lá fora. Só a gente agora. Ele me empurra contra a parede, beija forte. Mão já dentro do meu short, dedos grossos me abrindo. Eu gemo na boca dele. — Tava com saudade, gata — ele murmura, voz rouca. — Eu também. Ele arranca minha roupa rápido. Eu passo a mão nas cicatrizes do peito dele. Ele me vira de costas, me joga na cama de quatro. Eu fico assim, empinada pra ele, esperando. Ele dá um tapa forte na b***a. Arde gostoso. — Rebola pra mim, gostosa do caralho.— ordena. Eu rebolo. Devagar no começo, depois mais forte. Ele geme baixo, segura minha cintura com as duas mãos. Entra de uma vez, sem aviso. Duro, fundo. Eu grito de prazer e dor misturados. Ele mete forte, ritmado, batendo a pélvis na minha b***a. Cada estocada faz a cama ranger. — Isso, p***a… assim… — ele rosna. Eu empurro pra trás, encontro o ritmo dele. Ele dá mais tapas. Um, dois, três. A pele queima, mas eu gosto. Ele então dá uns socos na minha costela, dói, queima. Gosto do jeito que ele me domina, do jeito que me faz sentir viva. Ele puxa meu cabelo, arqueia minhas costas. Dá mais socos, enfiando rápido e fundo. — Hoje parece que você tá mais gostosa ainda. — ele ri com os próprios pensamentos, deve tá muito drogado. — Tomei tadala e cheirei, tô louco de vontade de gozar em você. Ele costuma misturar de tudo, já falei que isso pode matar ele, todas essas misturas loucas. Mas ele nunca me ouve. Ele dá mais uns socos e tapas, envolve meu pescoço com as duas mãos, apertando, me deixando sem ar e mete em mim como se quisesse me partir no meio. — Fala que tu é minha, Maya. — Ele afrouxa as mãos, me deixando respirar. — Sou tua… Russo… sou toda tua… — Eu digo buscando ar e ele volta a apertar o meu pescoço. Ele acelera. O suor escorre. Eu sinto ele pulsar dentro de mim. g**o primeiro, me tremendo toda, gemendo alto pra ele. Ele vem logo depois, grunhindo meu nome, preenchendo tudo de p***a. Cai do meu lado, ofegante. A gente fica ali, pelados, suados, ele ainda duro. Ele suspira pega o beck na mesinha, acende. Traga longo, solta a fumaça pro teto. Me puxa pro peito dele. Eu encosto a cabeça, ouço o coração batendo rápido ainda. — Sabe que eu cresci vendo sangue todo dia? — ele fala de repente, voz baixa. — Meu pai batia na minha mãe. Depois sumiu. Minha mãe virou alcoólatra. Eu entrei no corre cedo. Primeiro roubo, depois boca, depois comando. Nunca ninguém me amou de verdade, Maya. Nunca ninguém ficou quando a parada apertou. Eu levanto o rosto, olho pra ele. — Eu fico amor. Ele ri triste. — Por enquanto. — Pra sempre, se você deixar. Ele traga de novo, passa o beck pra mim. Eu dou um trago pequeno. — Eu não sei ser diferente, gata. Não sei ser o cara bonzinho. Só sei ser assim, bruto, possessivo, fudido. — Eu vejo o outro lado. O que você esconde. Eu sei que você é bom, carinhoso... Ele me olha longo. Por um segundo, parece vulnerável. Quase um menino. — Você é a única que vê. Eu beijo o peito dele. Ele apaga o beck, me abraça forte. Por um momento, parece que tudo tá certo. Que eu posso salvar ele. Que o amor conserta. Mas aí o celular dele toca. Ele olha a tela lendo alguma coisa, franze a testa. — Parada do morro. Tenho que ir resolver. Ele se levanta, veste a calça rápido. Pega a camiseta, o tênis, a arma na cintura. — Volta logo? — pergunto, voz fraca. — Já volto. Fica aí. Não sai daqui, Maya. Ele me dá um beijo na testa, sai. A porta fecha. Silêncio. Eu fico na cama, nua ainda, coberta só pelo lençol. O funk lá fora continua. Tiros distantes ecoam. Pode ser festa, pode ser treta. Aqui em cima nunca dá pra saber. Eu pego o celular. Mensagem das meninas no grupo. 📲 Isadora: Mana, cadê você? Tá sumida de novo. Tá com ele, né? 📲 Viviane: Se tá com ele, pelo menos responde pra gente saber que tá viva. 📲 Marcelly: A gente tá preocupada, Maya. Sério. Eu olho as mensagens. Dedo pairando no teclado. Não respondo. Apago a tela. Vou até o espelho do quarto. Me olho. Cabelo bagunçado, marca vermelha no pescoço, nas costelas e bumbum, meus olhos cansados. Quem é essa mina? Em que momento eu comecei a aceitar migalha pra não ficar sozinha? Em que momento o “eu te amo” virou “eu aguento”? Eu penso no Gael. No olhar dele hoje cedo. No pai me avisando. Na mãe servindo café sem perguntar. Na casa que ainda é minha, mas que eu tô deixando pra trás. Eu tô me perdendo. Aos poucos. Dia após dia. Noite após noite. Volto pra cama. Deito do lado que ele dorme. Sinto o cheiro dele no travesseiro. Fecho os olhos. Eu podia ir embora agora. Descer a ladeira, voltar pro morro do Ben, pro quarto arrumadinho, pros livros de Direito. Podia. Mas eu não vou. Eu escolho ficar mais uma noite. Porque o vazio sem ele dói mais que o vazio com ele. Porque eu ainda acredito que um dia ele vai olhar pra mim e dizer. — Você é suficiente. Só você. Porque o amor, mesmo torto, ainda segura mais forte que a razão. Eu fecho os olhos. Ouço o morro vivo lá fora. Tiros, risada, funk. E penso, tô me perdendo. Mas ainda não tô pronta pra ser encontrada. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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