Gael
Eu passo o dia inteiro com um nó na garganta que não desce. Desde que vi a Maya descer a ladeira, mochila nas costas, passos rápidos, sem olhar pra trás. Eu fiquei na janela até o cabelo dela sumir na curva. Depois, deitei na cama e não preguei o olho. O pressentimento tá aqui, pesado, como se o morro inteiro soubesse de algo que eu ainda não sei.
Tento me ocupar, vou pro QG. Ajudo os cria na boca, confero a contagem da grana do dia, fico de olho na entrada pra ver se ninguém vacila. Mas nada distrai. Cada moto que sobe a ladeira faz meu coração acelerar. Cada tiro distante — que aqui é rotina — parece mais perto. Eu vejo o meu pai fazendo cobrança num moleque de uns 16 anos que atrasou a prestação do que deve na boca.
Ali ele não é meu pai.
É o dono do morro.
E o Ben não grita. Só olha feio.
O moleque treme, entrega o envelope suado, pede desculpa mil vezes. O Ben pega o dinheiro, dá um tapa leve no ombro do garoto — tipo “vai, aprender” — e vira as costas. O moleque sai correndo, aliviado por ainda estar vivo. Eu assisto tudo e penso, é isso que a gente virou? Máquina de medo?
Na madrugada, entro em casa pra tomar um banho. A minha mãe tá na cozinha, lavando louça devagar, como quem pensa demais. Ela é a única que ainda tenta manter a casa parecendo uma casa. Eu sento na cadeira, pego um copo d’água.
— Coé, mãe.
Ela vira, enxuga a mão no pano de prato.
— Coé, filho. Tá com cara de quem não dormiu.
— Não dormi.
Ela senta na minha frente, cruza os braços.
— É a Maya, né?
Eu assinto.
— Ela saiu. Foi pro morro de cima. De novo.
Ela suspira longo.
— Eu sei. Ela acha que eu não percebo, mas mãe percebe tudo. Ela chega aqui com o olhar vazio, come pouco, responde curto. Tá se perdendo, Gael. Tá se perdendo de mim, de você, da nossa casa.
Eu baixo a cabeça.
— Eu tentei falar com ela. Mas sabe como ela é, ela explode. Diz que a gente quem não entende ela.
A mãe ri triste, com deboche.
— Ela era tão meiga quando pequena, lembra? Corria atrás de você no quintal, gritava “Gael, espera!”. Sempre doce, obediente. Eu olhava pra ela e pensava, essa menina vai ser diferente. Vai estudar, vai sair daqui, vai ter uma vida melhor. O Ben jurou que ia proteger vocês dois. Que ia manter vocês fora dessa vida.
— E ele não conseguiu mãe.
— Ele tentou, não n**o. Mas o morro não solta. E o pai de vocês… ele é o morro. Eu casei com ele sabendo. Sabia que era dono, que tinha inimigos pra todo lado, que toda noite eu ia dormir rezando pra ele voltar inteiro. Não é fácil, filho. Toda vez que ouço sirenes, meu coração para. Toda vez que ele sai armado, eu penso, será que é a última vez?
Eu olho pra ela. Os olhos dela estão úmidos, mas ela não chora. Nunca chora na frente da gente.
— Você tem medo de perder a Maya pro mesmo mundo?
— Tenho. Medo de verdade. Porque esse mundo engole. Engole devagar. Primeiro é o amor, depois é a lealdade, depois é a vida. E quando você percebe, já virou parte da máquina. Ela cursa direito, entende das leis, de tudo. Ela vive um relacionamento abusivo, tóxico com aquele... ogro do Russo.
Eu fico quieto. Penso na Maya na laje do Russo. Penso nela justificando tudo.
— Eu não sei o que fazer, mãe.
Ela pega minha mão.
— Fala com ela. Não briga. Só fala. Diz que a gente a ama. Diz que a casa tá aqui. Sempre vai estar.
Eu aperto a mão dela.
— Vou tentar.
Mas por dentro eu sei, tentar não basta mais.
Volto pro QG — cheio de caixa de munição e cheiro de óleo de arma, eu tô recebendo um carregamento novo. Fuzil, pistola, carregador.
Os caras descarregam rápido, suados. Eu confiro tudo, assino o papel. Aí chega o boato. Como sempre chega aqui, sussurro de um cria pro outro, até chegar em mim.
Um dos moleques, o Pequeno, chega perto, voz baixa.
— Gael, ouviu a parada?
— Que parada?
— No morro do Russo. Tiro pesado mais cedo. Rival invadiu, trocou chumbo pesado. Dizem que uma mina morreu. Nos braços dele.
Meu sangue gela na hora.
— Morreu como?
— Ninguém sabe direito ainda. Mas a mina tava com ele. Na casa dele.
Eu sinto o chão sumir.
— Nome? Sabe o nome da mina?
Pequeno balança a cabeça.
— Ninguém falou. Só que era uma que ele tava com frequência. Segundo os cria de lá.
Eu pego o celular na hora.
Ligo pra Maya.
Chama. Chama.
Caixa postal.
— Oi, é a Maya. Deixa recado.
Eu ligo novamente. Mesma coisa.
Mando mensagem.
Uma atrás da outra.
📲 Eu: Mana, responde. Tô preocupado.
📲 Eu: O que rolou aí?
📲 Eu: p***a Maya, me responde. Tá viva?
📲 Eu: Por favor, responde irmã.
Nada. Silêncio.
Eu fico andando de um lado pro outro no galpão. O coração batendo na garganta. Pode ser ela? Pode ser a Maya morta? Nos braços dele? Eu imagino a cena. Imagino o Russo segurando ela, sangue, silêncio. Imagino a minha mãe recebendo a notícia. Imagino o meu pai explodindo.
O Ben entra no galpão. Vê minha cara, franze a testa.
— Que foi, filho?
Eu engulo seco.
— Boato no morro de cima. Tiro. Uma mina morreu nos braços do... Russo.
Ele não pisca.
— E?
— Pode ser a Maya, pai!
Ele fica quieto uns segundos.
Depois fala, voz fria como aço.
— Quem se envolve com guerra, vira alvo.
Eu olho pra ele, chocado.
— É só isso que você tem pra dizer? “Vira alvo”?
— É a realidade, Gael. Ela escolheu. Escolheu andar com um homem descontrolado que vive na mira de geral. Se aconteceu algo, foi escolha dela.
— Ela é sua filha, pai!
— E eu avisei. Avisei mil vezes. Agora, se ela tá viva, vai aprender. Se não tá… a gente enterra e segue. Porque parar não é opção.
Eu sinto a raiva subir, vejo tudo escuro, a cabeça dói. Não é possível mano. Como ele pode ser tão frio?
— Você fala como se fosse fácil.
— Não é fácil. Mas é necessário. Senão o morro cai. E se o morro cai, todos nós caímos.
Ele vira as costas, sai. Eu fico ali, tremendo. Entendendo, pela primeira vez, que o conflito entre os dois morros não é mais só diplomático. Tá virando pessoal. Tá virando família. E se a Maya morreu… ou se ela tá viva mas destruída… isso vai respingar em tudo.
O meu celular vibra.
Mensagem dela. Finalmente. Eu sinto as lágrimas quentes escorrendo.
📲 Maya: Tô bem. Depois a gente conversa mano.
Eu leio. Leio de novo. “Tô bem.” Duas palavras secas. Sem emoji, sem explicação. Eu sei que é mentira. Eu sinto. Como sempre, sinto ela.
Eu respondo rápido:
📲 Eu: Cadê você agora? Me diz onde tá.
Nada. Visualizado. Sem resposta.
Eu guardo o celular no bolso. Olho pro galpão vazio. Olho pras armas na mesa. Penso na minha mãe chorando quieta. Penso no meu pai frio. Penso na Maya se perdendo.
Chega.
Não vou mais só assistir. Não vou mais ficar na janela olhando ela descer a ladeira. Não vou mais esperar boato pra saber se minha irmã tá viva.
Eu pego a jaqueta, pego a pistola que fica na gaveta. Não aviso ninguém. Nem a minha mãe, nem o meu pai. Saio pela porta dos fundos do QG.
A noite tá quente. O morro respira. Funk ao longe. Eu desço a ladeira devagar, coração batendo forte.
Vou até o morro do Russo.
Vou buscar a verdade.
Mesmo que isso signifique cruzar a linha que separa os dois mundos.
Mesmo que isso signifique encarar o Russo cara a cara.
Mesmo que isso signifique guerra.
Porque sangue do mesmo sangue não se abandona.
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