GAEL - NO TERRITÓRIO INIMIGO

1258 Words
Gael Eu chego no morro do Russo já com o nome que pesa aqui, Brutus. Não é apelido de moleque. “O futuro dono do morro do Ben” O herdeiro que ainda não quer a coroa, mas que todo mundo sabe que vai herdar. Eu subo a ladeira devagar, mão no coldre da pistola escondida na cintura, jaqueta aberta pro vento quente da noite. Não venho como irmão preocupado. Venho como homem do corre. Frio. Atento. Medindo cada passo, cada olhar que cruza o meu. O clima tá pesado pra c*****o. O morro ainda fede a pólvora do tiroteio de horas atrás. Luzes piscando nas bocas, cria armado até os dentes, mas ninguém ri alto como de costume. Tem cochicho no ar. Gente olhando de canto, reconhecendo quem eu sou na hora. Um moleque mais novo me vê, baixa a cabeça rápido e vira pro outro lado. Outro, mais velho, acena com o queixo, mas sem sorriso. Respeito misturado com desconfiança. Aqui eu posso ser um inimigo em potencial. Filho do Ben. Sangue do morro vizinho. E mesmo sendo gêmeo da mina que o Russo vive grudado, isso não me torna amigo. Me torna ameaça. Eu paro na entrada da laje principal. Dois vapôs antigos tão encostados na parede, fumando beck, conversando baixo. São os velhos da área, Zé Pequeno e o Careca. Estão aqui desde antes do Russo tomar o comando, viram dono mudar, bala voar, morro trocar de cor. Eles me conhecem. Sabem que eu não subo aqui pra tomar cerveja. Eu me aproximo devagar. Paro a uns dois metros, mãos visíveis, sem ameaça. — Coé, Zé. Coé, Careca. Zé Pequeno traga o beck, solta a fumaça devagar, me mede de cima a baixo. — Coé, Brutus. Tá longe de casa, hein? Careca ri baixo, rouco. — O que o príncipe do morro vizinho veio fazer aqui? Cobrar imposto? Eu não sorrio. — Vim saber de uma parada que rolou mais cedo. Tiro, confusão, uma mina morta. Os dois trocam olhar rápido. Zé Pequeno apaga o beck no muro. — Aqui rola muita parada, irmão. Qual delas você quer saber? — A que deixou o chefe bolado. A mina que morreu nos braços dele. Careca bufa. — Você tá perguntando demais pra quem é de fora. Eu dou um passo à frente. Voz baixa, mas firme. — Eu não vim como estranho. Vim como quem tem interesse. E vocês sabem que, se eu quiser, eu descubro sozinho. Mas prefiro ouvir de boca amiga. Zé Pequeno suspira, coça a barba rala. — Tá bom, Brutus. Mas isso fica entre nós, tá ligado? O Russo não gosta de papo solto. — Fica sim, mano. Careca olha pros lados, se aproxima um pouco. — A mina não era qualquer uma. Era a Tati. Uma morena alta, tatuagem de borboleta no pescoço. Foi mina do Russo uns anos atrás, antes dele virar o que é hoje. Eu sinto um alívio subir pelo peito. Não era a Maya. Não era minha irmã. Mas não mostro. Mantenho a cara de pedra. — Antes da Maya? Zé Pequeno assente. — Muito antes. A Tati sumiu do mapa depois que o Russo... Enfim cara, ela saiu bolada, foi pro morro do Trovoada, começou a andar com os cria de lá. Careca continua, voz mais baixa. — Hoje ela voltou. Veio com ódio acumulado. Não foi só invasão de território. Foi vingança pessoal. Ela trouxe uns moleques do Trovoada, armados, dizendo que ia “cobrar o que era dela”. O Russo tava na casa dele, quando o tiroteio começou. A Tati subiu atirando no morro. Levou um tiro no peito. Morreu nos braços dele. Ele ficou segurando ela, gritando pro Juninho chamar ajuda. Mas já era. Eu processo tudo. O peito aperta de novo, mas agora é diferente. Não é medo pela Maya. É nojo misturado com compreensão. O Russo enterra o passado sem dó. Mata fantasma antigo como se fosse rival qualquer. E minha irmã tá dormindo do lado de um homem que faz isso sem piscar. — E a Maya? — pergunto, direto. — Ela tava nessa treta? Zé Pequeno balança a cabeça. — Não, mano. A Maya tava na casa dele. Quando o tiroteio começou, o Russo desceu sozinho. Ela não viu nada. Ficou lá trancada até acabar. Eu fico quieto uns segundos. Olho pro morro lá embaixo, luzes piscando, moto subindo, som de funk abafado. Tudo parece normal. Mas não é. — O Trovoada tá mesmo por trás? Zé Pequeno dá de ombros. — Pode ser. Pode não ser. A Tati já tava com ódio há anos. Mas sei lá… coincidência demais. O Russo acha que foi armação. Tá mandando reforço na entrada, criando ponto novo de observação. O morro tá em alerta máximo. Careca me olha sério. — E você, Brutus? Por que tá aqui de verdade? Preocupado com a mana? Eu sustento o olhar dele. — Preocupado sim. Mas não sozinho, parceiro. Se isso virar guerra aberta entre o morro do meu pai e o do Russo, minha irmã tá no meio. E eu não vou deixar ela virar alvo. Zé Pequeno ri seco. — Boa sorte convencendo o Russo a soltar ela. Ele se gaba, dizendo que ela é a única que fica com ele mesmo ele sendo quem é. Que é diferente. Mas homem como ele não larga o que considera “seu”. Eu assinto devagar. — Eu sei. Mas eu também não largo o que é meu. Eles ficam quietos. Respeito no olhar. Não é medo. É reconhecimento. Filho do Ben, futuro dono. Não vim brincar. — Valeu pelo papo, rapaziada — falo, já me virando pra descer. Careca me chama de volta. — Brutus… cuidado. O Russo tá sensível. Se ele te ver aqui em cima sem convite, pode interpretar errado. Eu paro, viro de lado. — Ele que interprete. Eu não vim pedir permissão. Desço a escada de ferro. Passo pelos cria armados. Alguns me olham, mas ninguém barra. O nome Brutus abre portas. Mas também fecha saídas. Enquanto desço a ladeira, o vento bate na cara. Penso na Maya lá em cima, trancada no quarto enquanto o Russo segurava uma morta nos braços. Penso na Tati voltando com ódio de anos. Penso no Trovoada rindo do outro lado. Penso que aquela morte não foi aleatória. Foi passado cobrando o presente. Fantasma que o Russo enterrou m*l. E agora o fantasma tá vivo de novo. Eu paro no meio da ladeira, olho pra cima. A laje dele tá iluminada. Imagino ela lá dentro, esperando ele voltar, achando que pode consertar o que não tem conserto. A morte da garota pode ser só a ponta de algo muito maior. Uma faísca que vai incendiar os dois morros. E a Maya pode estar dormindo ao lado de um homem que enterra fantasmas do passado sem olhar pra trás. Sem remorso. Sem dó. Eu aperto o passo. Pego o celular, mando mensagem pra ela de novo. 📲 Eu: Mana, responde direito. Tô sabendo da parada. Me diz onde você tá. Agora. Visualizado. Sem resposta. Eu guardo o celular. Não vou mais esperar. Vou subir. Vou bater na porta dele. Vou olhar na cara do Russo e falar que minha irmã não é prêmio. Não é posse. E se ele não soltar, eu mesmo vou tirar ela de lá. Mesmo que isso signifique bala. Mesmo que signifique guerra. Porque Brutus não veio pra assistir. Brutus veio pra proteger o sangue do mesmo sangue. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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