GAEL - VERDADES QUE QUEIMAM

1428 Words
Gael Eu subo a ladeira do morro do Russo com o sangue fervendo nas veias. A noite tá quente pra c*****o, o asfalto soltando vapor, o funk ecoando baixo como se o morro inteiro estivesse sussurrando segredos. Eu não corro. Ando devagar, calculado. Eu não chego apressado. Eu chego como dono de si. Mas na verdade por dentro eu tô um caos. A mensagem da Maya dizendo “tô bem” ainda tá na tela do celular, mas eu sei que é caô. Eu sinto ela. Sempre sinto. Passo pela boca de fumo principal. Dois cria me olham de canto, mas ninguém barra. Meu nome abre caminho. Mais pra cima, quase na laje dele, eu vejo um moleque encostado no muro, cabeça baixa, fumando um beck com a mão tremendo. Ele é novo, uns dezoito, rosto magro, olho vermelho de quem chorou ou de quem cheirou demais. Eu reconheço, o nome dele é Léo. Já vi ele no baile do meu morro umas vezes. Eu paro na frente dele. Ele levanta o olhar devagar, me reconhece. — Coé, Brutus — murmura, voz rouca. — Coé, Léo. Tá de boa? Ele ri sem graça, joga o beck no chão e pisa. — De boa uma p***a. A minha prima Tati morreu, mano. Nos braços do Russo. Como é que fica de boa? Eu me encosto do lado dele no muro. Voz baixa. — Foi por isso que eu subi, que bom que tu é parente dela. Quero saber a real. Não o boato que rola na rua. A verdade que só quem tava perto sabe. Ele me olha longo. Hesita. Depois suspira. — Você é irmão da Maya, né? A mina que fica com ele direto. — Sou. Ele balança a cabeça, como se doesse falar. — Então você precisa saber mesmo. Porque se ela tá lá dentro… c*****o, ela precisa saber. Eu cruzo os braços, espero. — A Tati não era qualquer uma não. Era ex do Russo. Três anos atrás. Eles tavam juntos firmes de verdade. Ela engravidou dele. Tava felizona. Mas ele não queria filho nenhum. Meu estômago dá um nó. — Grávida? — Sim, mano. Uns quatro meses. Ela tava feliz pra c*****o. Falava que ia ser diferente, que o Russo ia mudar, que ia ser pai e ia aceitar a criança aos poucos. Mas aí veio a treta. Ele para, engole seco. Olha pros lados, como se o morro pudesse ouvir. — Uma noite, teve uma discussão feia. Ele tava chapado pra c****e. Coca, uísque... Ela cobrou algo, falou que queria que ele assumisse, que parasse de sumir com outras minas e de usar tanta droga. Ele perdeu a linha. Disse que não pediu pra ela engravidar. Bateu nela. Forte. Socou a barriga. Ela caiu, sangrou. Perdeu o bebê ali mesmo, no chão da laje. Eu sinto o mundo girar. O ar some. — Ele… bateu nela grávida, cara? Léo assente, olhos marejados. — Depois ficou desesperado. Chamou ajuda, levou ela pro hospital. Mas já era. A criança não resistiu. A Tati saiu do hospital destruída. Sumiu do morro. Ninguém viu mais. Foi um tempo pro interior, depois pro morro do Trovoada. Jurou vingança. Disse que ia acabar com ele. Que ia fazer ele sentir a mesma dor. Eu fecho os olhos por um segundo. Imagino a cena. Imagino o Russo batendo. Imagino a mina sangrando. Imagino minha irmã dormindo do lado de um homem capaz disso. — E hoje… ela voltou pra cobrar? — Voltou. Aliada com os cria do Trovoada. Achou que era a hora. Invadiu atirando. Mas os caras do Russo são bem mais rápidos, né? Ela levou tiro no peito. Morreu nos braços dele. Ironia do c*****o, né? O mesmo morro onde ela perdeu o filho. Eu fico quieto. O estômago embrulhado. Junta as peças, o ódio dela não era só político. Era íntimo. Dor de mãe. Dor de mulher traída. O ataque não era só guerra de morro. Era uma guerra de dor. E o Russo enterrou tudo de novo. Sem remorso. — Valeu, Léo — falo, voz baixa. — Se cuida, mano. Ele assente, sem olhar pra mim. — Cuida da sua irmã, Brutus. Antes que ela vire a próxima que perde algo por causa dele. Eu sigo subindo. Mas antes de chegar na laje, cruzo com o Jamil. Ele é vapor antigo, frequenta os bailes com o Russo, sempre de boa, sempre no meio da bagunça. Me vê, estende a mão pro aperto de brothers. — E aí, parceiro! Tá perdido por aqui? Eu aperto a mão dele, forte. — Tô atrás da Maya. Ele ri. — Ah, mano, ela acabou de ir embora. Já deve estar chegando em casa. Eu paro. Incrédulo. — Sério, mano? — Sério. O Russo mandou ela descer. Disse que tava tenso demais aqui depois da treta. Que era melhor ela ir pra casa do pai. Ela saiu faz uns vinte minutos. Alívio e raiva misturados. Ela tá indo pra casa. Mas eu preciso falar com ela antes que o Russo invente mais caô. — Valeu, Jamil. — De boa, irmão. Cuidado na descida. O morro tá quente. Eu viro as costas e desço correndo. A ladeira parece mais longa. O coração batendo forte. Chego no morro ofegante. A casa tá silenciosa. Luz acesa na sala, mas ninguém na cozinha. Subo as escadas devagar. Bato na porta do quarto dela. — Maya? Ela abre. Cansada. Olho inchado. Tenta sorrir. — Gael? Que isso, mano? Tá tarde. Eu entro, fecho a porta atrás de mim. Tranco. — Senta aí. Ela franze a testa, mas senta na cama. Eu fico em pé. — O que rolou lá em cima hoje? Ela suspira. — Tiroteio. Invasão. Uma mina morreu. Mas eu tô bem. Fiquei na casa do Russo o tempo todo. Eu respiro fundo. — Eu sei quem morreu. Tati. Ex do Russo. Ela pisca. — E daí? — Três anos atrás, ela engravidou dele. Maya fica branca. — O quê? — Engravidou. Tava de quatro meses. Eles tavam juntos. Ela queria que ele assumisse o bebê. Ele tava chapado, violento. Discutiram. Ele bateu nela. Socou a barriga. Ela perdeu o bebê. Maya balança a cabeça devagar. — Mentira. Isso é mentira, Gael. Boato de morro. Inimigo sujando o nome dele. — Eu ouvi de gente de dentro. Do Léo, que era próximo, primo dela. Gente que viu. Que viveu aquilo. Ela se levanta. — Não. O Russo não faria isso. Ele não é assim. Ele tem trauma, sim, mas não bateria numa grávida. Não mataria o próprio filho dele. — Ele não matou de propósito... talvez sim, bom, não sei. Mas bateu. E o bebê morreu por causa disso. Ela sumiu. Jurou vingança. Voltou hoje com o pessoal do Trovoada. Pra cobrar. E morreu tentando. Maya começa a tremer. — Você tá inventando isso pra me afastar dele. Você não aceita a gente. Nunca vai aceitar ele! — Eu tô te contando a verdade, mana! Pra você abrir o olho! Ele é violento. Ele destrói quem chega perto demais. E você tá aí, defendendo um homem que enterrou uma criança sem olhar pra trás! Ela grita. — Ele mudou! Ele me disse que tem mudado muito nesses dois anos comigo! Que eu sou diferente! — E você acredita? Depois de tudo, Maya? Maya chora agora. Lágrimas grossas. — Eu amo ele, Gael. Eu amo. Mesmo sabendo que dói. Mesmo sabendo que é errado. Eu amo. Eu me aproximo dela. — Amor não é isso, mana. Amor não te deixa destruída. Amor não te faz justificar agressão, perda de filho, morte. Ela empurra meu peito. — Sai do meu quarto! Sai! Você não entende nada! Eu fico parado. Olho pra ela chorando, abraçada nos próprios joelhos. — Eu te amo, Maya. Por isso tô aqui. Pra te salvar antes que seja tarde. Ela não responde. Só chora. Eu saio do quarto. Fecho a porta devagar. Desço as escadas. Sento na sala escura. O silêncio da casa pesa mais que qualquer tiro. Eu tentei. Joguei a verdade na cara dela. Mas ela não quis ver. Ainda não. Mesmo sem acreditar de verdade, eu plantei a semente. A dúvida. A rachadura na confiança cega que ela tem nele. E eu sei, rachadura pequena vira buraco grande. Com o tempo. Mas o tempo pode custar caro. Eu olho pro celular. Nenhuma mensagem dela. Nenhuma do Russo. Eu sei que a guerra tá só começando. E que a próxima bala pode não ser de rival. Pode ser de dentro. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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