Maya
A descida do morro do Russo foi a mais longa da minha vida.
Não era a ladeira íngreme, nem os degraus de concreto quebrado, nem a dia quente que grudava a blusa no corpo. Era o peso dentro do peito. Aquele aperto que não aliviava por mais que eu tentasse respirar fundo.
Eu descia as vielas com as pernas bambas, a mão protegendo a barriga sem perceber, as palavras dele martelando na cabeça igual tiro repetido.
"Eu mato a desgraçada que ousar seguir com uma gravidez minha!"
A frase não saía.
Ecoava.
Cada vez mais forte, mais c***l, mais definitiva.
Eu vi o copo voar na minha direção. Senti o vento dele passar perto do meu rosto antes de estourar na parede. Vi os olhos dele escuros, vidrados, cheios de uma fúria que eu nunca tinha visto tão perto. Não era só raiva. Era medo transformado em ódio. Era passado cuspindo na cara do presente.
E no meio daquele turbilhão, eu grávida.
Com um filho dele na barriga.
Um filho que ele acabou de dizer que mataria.
Eu parei no meio da viela, encostei no muro pichado e vomitei.
Não era só enjoo de gravidez.
Era nojo.
Nojo de mim mesma por amar alguém capaz daquilo. Nojo da situação. Nojo do mundo que me colocou ali, grávida de um homem que destruiu outra mulher do mesmo jeito.
Vomitei até não ter mais nada.
Limpei a boca com as costas da mão e continuei.
Quando cheguei em casa, a tv da sala tava ligada. Minha mãe devia estar na cozinha ou no quarto. Eu não queria encontrar ninguém. Não queria explicar nada. Não queria ouvir perguntas.
Subi as escadas feito fantasma, pisadas suaves no chão pra não fazer barulho, entrei no quarto e tranquei a porta.
Sentei no chão, encostei no guarda-roupa, e o choro veio.
Não era um choro bonito, daqueles de filme que escorre lágrima delicada. Era choro feio. Soluço que sacudia o corpo inteiro. Nariz escorrendo. Olho ardendo. Peito doendo como se fosse rasgar.
Eu coloquei a mão na barriga.
Ainda lisa. Ainda plana. Mas eu sabia que lá dentro tinha algo. Alguém. Uma vida que eu já amava sem nem conhecer.
— Me desculpa — eu sussurrei, a voz falhando. — Me desculpa por ter te colocado nessa situação.
O silêncio respondeu.
E eu chorei mais.
Porque a verdade é que eu não protejo nem eu mesma. Como é que eu ia proteger um bebê?
Senti a presença do meu irmão gêmeo, antes mesmo dele encostar na porta.
— Maya?
Eu não respondi. Não conseguia.
Ele girou a maçaneta. Trancado.
— Maya, abre a porta. Por favor.
Eu tentei levantar, mas as pernas não obedeciam. Arrastei o corpo até a porta, destranquei com mão trêmula e abri.
Ele me viu.
Eu devia estar com cara de enterro. Olho inchado, rosto vermelho, blusa suja do vômito que eu não limpei direito. Mas ele não fez careta. Não julgou. Só me puxou pro abraço dele, forte, protetor, igual quando a gente era criança e eu acordava com pesadelo e ia pra cama dele.
— Calma — ele falou baixo. — Calma, eu tô aqui.
Eu agarrei nele como se ele fosse a única coisa sólida no mundo.
— Ele falou... — minha voz saiu espremida. — Ele falou que...
— Fala depois. Respira primeiro.
Ele me levou até a cama, sentou do meu lado, segurou minha mão. Esperou o choro e os soluços passarem, o corpo parar de tremer.
Aí ele perguntou:
— O que rolou lá em cima?
Eu contei.
Contei tudo. A conversa sobre futuro. A pergunta sobre filho. A reação dele. O copo na parede. O grito.
"Eu mato a desgraçada que ousar seguir com uma gravidez minha!"
Quando repeti a frase, a voz falhou de novo.
Gael ficou tenso do meu lado. O corpo dele endureceu, o maxilar travou, os olhos escureceram.
— Ele falou isso? Exatamente isso?
— Exatamente.
Gael levantou, andou até a janela, passou a mão no rosto. Ficou uns segundos em silêncio, olhando pro nada. Depois virou pra mim.
— Você contou pra ele? Sobre o bebê?
— Não.
O alívio no rosto dele foi tão grande que doeu em mim.
— Ainda bem, Maya. Ainda bem.
— Por quê?
Ele voltou, sentou na minha frente, segurou meus ombros.
— Porque se você tivesse contado... ele podia ter feito alguma coisa. Ali na hora. Naquele estado de raiva dele.
Meu estômago embrulhou de novo.
— Você acha que ele faria? — perguntei, mesmo sabendo a resposta.
Gael demorou um segundo.
— Eu acho que ele não é de ameaça vazia. E você viu o que ele fez com a Tati. Grávida também.
A comparação me atravessou.
Tati.
Bebê com o sangue dele, morto antes mesmo de nascer.
Eu levei a mão à boca, sentindo o vômito subir de novo. Gael segurou meu braço.
— Respira. Respira fundo.
— Eu não posso ter esse bebê perto dele — eu falei, a voz saindo num fio. — Eu não posso.
— Não vai. A gente não vai deixar.
Eu olhei pra ele.
— Como, Gael? Como a gente vai esconder um filho do Russo? Ele descobre tudo. Ele tem gente em todo canto. Ele...
— Calma. A gente vai pensar com calma.
Ele levantou, andou de um lado pro outro no quarto pequeno. Eu fiquei sentada, abraçada nos meus joelhos, vendo ele pensar em voz alta.
— Primeiro: você não volta pra lá tão cedo. Fala que tá magoada com a briga. Que precisa de um tempo. Ele vai acreditar porque vocês realmente brigaram.
— E se ele não aceitar?
— Ele vai ter que aceitar. Você não é obrigada a ir quando ele chama.
Eu balancei a cabeça.
— Você não conhece ele. Ele não aceita não. Ele vem me buscar.
Gael parou, me olhou sério.
— Então a gente se prepara pra isso.
Silêncio.
— Segundo: ninguém pode saber da gravidez. Ninguém. Nem a mãe, nem o pai, nem as suas amigas. Quanto menos gente souber, mais segura você tá.
— Por quanto tempo? Até quando eu vou conseguir esconder?
Ele olhou pra minha barriga.
— Até você não conseguir mais. Aí a gente vê.
Eu passei a mão no rosto.
— Isso é loucura.
— É o que a gente tem.
Ele continuou andando.
— Terceiro: talvez você precise sair do morro. Fugir. Ir pra casa de alguém. Um lugar onde ninguém te conhece, onde ninguém liga você ao Russo.
— Fugir?
— Se precisar, sim.
A palavra doeu.
Fugir.
Sair da minha casa, do meu morro, da minha família, da minha faculdade, da minha vida. Tudo por causa dele.
— Eu não quero fugir, Gael.
— E eu não quero enterrar minha irmã.
A frase dele bateu como um tapa.
Eu fiquei quieta.
Ele sentou do meu lado de novo, pegou minha mão.
— Maya, escuta. Eu sei que é pesado. Sei que é f**a. Mas a gente tá falando de um homem que já matou. Que já bateu em mulher grávida. Que já destruiu uma família antes da sua começar. Você não pode tratar isso como se fosse briga de namorado. Isso é questão de vida ou morte.
— Eu sei.
— Então pensa comigo: você quer ter esse bebê?
A pergunta me pegou desprevenida.
Eu olhei pra minha barriga. Pros meus joelhos. Pras minhas mãos.
Queria?
Sim.
Eu quero!
Mesmo com tudo. Mesmo com o medo. Mesmo com o pai sendo quem é. Mesmo com a possibilidade de criar uma criança sozinha, escondida, longe de tudo.
Eu quero.
— Quero — respondi, a voz firme pela primeira vez no dia.
Gael apertou minha mão.
— Então a gente vai proteger vocês dois. Custe o que custar.
Eu apoiei a cabeça no ombro dele.
— E o Russo?
— A gente lida com ele quando chegar a hora. Por enquanto, a gente finge que você só tá magoada. Toma distancia. Some aos poucos. Até ele perder o interesse.
— Ele não perde interesse.
Gael riu sem graça.
— Eu sei. Mas a gente tenta.
Ficamos em silêncio um tempo. O morro lá fora continuava vivo, como sempre. Funk ao longe. Moto subindo. Gente vivendo. E aqui dentro, o meu mundo tinha desabado.
— Gael?
— Fala.
— Eu tô com medo. Medo de verdade.
Ele me abraçou de lado.
— Eu também.
— E se ele descobrir?
— Não vai.
— E se ele vier atrás?
— A gente se esconde.
— E se ele encontrar?
Gael demorou a responder.
— Aí a gente enfrenta. Juntos.
Eu fechei os olhos.
Não tinha resposta certa. Não tinha caminho fácil. Tinha só a gente, o segredo, e um bebê que ainda nem sabia que já era alvo.
Mais tarde, quando Gael saiu do quarto, eu fiquei ali deitada. Olhando pro teto. Mão na barriga.
Pensei no Russo.
Pensei no ódio nos olhos dele.
Pensei na ameaça.
E pensei na Tati. Na mulher que amou ele antes de mim. Que acreditou que podia mudar ele. Que engravidou cheia de esperança e terminou sangrando no chão.
Eu não queria ser a próxima Tati.
Mas será que eu tinha escolha?
Eu virei de lado, puxei o cobertor até o queixo.
A verdade é que amor não salva ninguém.
Não salvou ela.
Não ia me salvar.
A única coisa que podia salvar a gente agora era o segredo.
O segredo de que dentro de mim crescia o sangue dele.
O herdeiro que ele nunca quis.
A vida que ele ameaçou matar.
E eu, a mãe, a única barreira entre ele e o mundo.
Eu fechei os olhos.
O sono não veio.
Mas veio uma certeza: eu protegeria esse bebê com minha vida, se precisasse.
Nem que pra isso eu tivesse que sumir do mapa.
Nem que pra isso eu tivesse que encarar o Russo de frente um dia.
Nem que pra isso eu tivesse que morrer tentando.
Porque aquela vida ali dentro era minha.
E sangue do meu sangue não se entrega.
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