Russo
Uma semana.
Sete dias.
Cento e sessenta e oito horas sem ela.
Eu achei que era birra. Coisa de dois, três dias no máximo. Mulher quando fica bolada some, depois volta. Sempre volta. Comigo sempre voltam.
Mas a Maya não voltou.
E isso tá me comendo vivo.
No primeiro dia, eu deixei quieto. Pensei "deixa ela esfriar a cabeça". No segundo, mandei mensagem. Nada. No terceiro, liguei. Chamou e caiu na caixa postal. No quarto, mandei áudio. Visualizou. Não respondeu.
No quinto dia, eu comecei a perder a paciência de verdade.
Não é sobre controle. Não é sobre posse. É sobre... c*****o, é sobre ela. Sobre o jeito que ela me olha, o cheiro dela no meu travesseiro, a voz dela me chamando de "Nick" quando tá com vontade. Sobre acordar de madrugada e estender o braço pro lado dela e encontrar nada. Só o lençol frio.
Nenhuma outra mina me faz sentir o que a Maya me faz.
E eu tentei, tá ligado? Esses dias aí, teve mina dando em cima, teve novinha querendo sentar no colo, teve tudo. Mas eu não consegui. Não consegui olhar pra nenhuma. Não consegui puxar papo. Não consegui nem imaginar encostar em outra.
Ela fez alguma merda comigo. Mexeu em parafuso que não devia.
No sexto dia, eu mandei a última mensagem. Já tava louco, já tinha cheirado, já tinha bebido, já tava com aquele ódio misturado com desespero que só ela consegue provocar.
📲 Eu: Se não vier, vou no morro do teu pai buscar você.
Botei o celular de lado. Tomei mais uma dose.
O visor acendeu na hora.
📲 Maya: por favor não faz isso Nick.
Nick.
Ela me chamou pelo nome.
Não é Russo. Não é "amor". É Nick. O nome que quase ninguém chama. O nome que só ela usa quando quer dizer algo importante.
Meu coração acelerou igual moto sem escapamento.
📲 Eu: só quero conversar Maya, vem aqui pô.
Ela visualizou.
Não respondeu.
Não veio.
Fiquei esperando igual o****o. Olhando pro celular. Olhando pra porta. Olhando pra escada. Nada.
A noite passou. Ela não veio.
De manhã, eu acordei com o sol batendo na cara e um ódio quieto no peito. Não era raiva dela. Era raiva de mim. De precisar tanto. De depender. De sentir.
Eu nunca precisei de ninguém.
Agora preciso dela.
E isso me fode mais do que qualquer tiro, qualquer facada, qualquer guerra de morro.
—
Subi pro estúdio do Gugu sem nem avisar.
Gugu é meu tatuador desde sempre. Foi ele quem fez a primeira tatuagem que eu fiz, um palhaço fumando baseado, nas costas. Depois veio o "Russo" na sobrancelha, que virou minha marca. Depois veio tudo: o peito, os braços, as costas. Ele conhece minha pele mais do que eu mesmo.
O estúdio dele fica na outra ponta do morro, um lugar simples mas com equipamento bom. Porta de ferro, parede grafitada, som sempre tocando um rap mais antigo. Cheguei lá já meio acelerado, a noite sem dormir pesando, o pó ainda batendo leve.
A porta tava fechada. Entrei sem bater.
— E aí, Gugu.
A cena na minha frente era inesperada. Ele tava com uma mina novinha branquinha deitada na maca, os p****s de fora, ele tatuando bem perto do mamilo. Os biquinhos dela estavam durinhos, rosados, ela de olhos fechados aguentando a dor.
— p***a, Russo — ele reclamou na hora, sem parar o movimento da agulha. — Eu tô trabalhando, c*****o.
A mina abriu os olho assustada, se cobriu rápido com o braço.
Eu ri, dei um passo pra dentro.
— Aí, gatinha — falei direto pra ela. — Depois remarca tua sessão, tá ligada? Pago até outra tatuagem pra você, mas rala daqui agora.
Ela olhou pro Gugu, depois pra mim, depois pro Gugu de novo. Levantou devagar, pegou a blusa, saiu sem dizer nada. A porta bateu.
Gugu largou a agulha na bandeja, passou a mão no rosto.
— Mano, tu é f**a. Demorei dias pra convencer essa mina a fazer tattoo no seio. Dias! Ia comer ela depois, de graça. Tu estragou minha f**a.
Eu deitei na maca, ignorando o drama.
— Ia f***r com a mina?
— Tava alinhado, velho. Tudo certo. Ela tava afim. Aí tu chega metendo o louco...
— Tá muito engraçadinho hoje.
Ele bufou, guardando o material.
— Empata f**a alheia e ainda quer tirar onda. Tá bom. O que tu quer, Russo?
Apontei pro peito, na parte de cima, perto da clavícula.
— Quero uma tattoo aqui. Uma letra bonita, bem feita. Escreve "Maya".
Ele parou de mexer nas coisas. Me olhou.
Depois começou a rir.
Não era riso normal. Era riso de quem não acredita no que tá ouvindo. Ele acendeu um baseado, tragou fundo, me encarando.
— Tá falando sério? — perguntou, a fumaça saindo devagar.
— Claro, mano. Pode fazer.
Ele deu mais um trago, balançou a cabeça.
— Você, Russo. O cara que tem nome de guerra tatuado na cara. O cara que nunca gravou nome de mina em lugar nenhum. Agora quer tatuar "Maya" no peito?
— Ela é diferente.
Ele me olhou por um segundo. Não falou nada. Só preparou o material.
Eu cheirei mais uma carreira na mão mesmo, enquanto ele organizava as tintas. O pó bateu forte, a cabeça clareou, o corpo relaxou. Deitei na maca e deixei ele trabalhar.
Gugu tatuou em silêncio. Só o barulho da agulha e o baseado queimando no cinzeiro. Eu fiquei ali, olhando pro teto, pensando nela.
Pensando no jeito que ela me chamou pelo nome.
Pensando no medo na voz dela.
Pensando no que eu fiz pra ela chegar nesse ponto.
A agulha ardia, mas eu nem ligava. Dor física é nada perto da dor de não ter ela por perto.
Quando ele terminou, limpou a área com álcool. Ardeu mais.
— Pronto — ele disse.
Levantei, fui no espelho.
Ficou perfeita.
Do jeito que eu queria. Nem muito grande, nem pequena. Letra bonita, caprichada, no lugar exato. "Maya". Ali, no meu peito, perto do coração.
Paguei, agradeci.
— Tá apaixonado mesmo? — ele perguntou quando eu já tava na porta.
Parei. Virei de lado.
— Ela é especial.
Ele sorriu.
— Não magoa ela, Russo.
Saí sem responder.
—
Cheguei em casa já de noite. Tomei um banho, fiquei encarando a tattoo no espelho. Fiz um vídeo, tirei foto. Peguei o celular e mandei.
📲 Eu: [foto da tattoo no peito]
Ela demorou pra responder. Quase uma hora. Quando veio a notificação, meu coração disparou de novo.
📲 Maya: 😮
Só um emoji de boca aberta.
Mas já foi suficiente.
📲 Eu: gostou?
📲 Maya: você ficou mais bonito.
Eu ri sozinho no quarto. Ri igual i****a. Igual moleque que ganha presente.
📲 Eu: então vem ver de perto.
Ela demorou mais um pouco. O meu coração na mão.
📲 Maya: Amanhã eu tô aí.
Não foi "hoje". Não foi "agora". Foi "amanhã".
Mas já serviu.
Serviu pra eu dormir com um pouco mais de paz. Serviu pra eu acreditar que ainda tem chance. Serviu pra eu sentir que, mesmo com tudo, ela ainda tá ali.
Antes de dormir, passei o dedo na tattoo. A pele ainda quente, ainda vermelha.
Maya.
Escrita em mim.
Pra sempre.
Ela pode não saber ainda, mas eu não tô brincando. Não tô fazendo joguinho. Não é posse. Não é controle.
É que pela primeira vez na vida, alguém me fez querer ser diferente.
E se ela deixar... eu vou tentar.
Mesmo que eu não saiba como.
Mesmo que eu tenha medo de falhar.
Mesmo que o monstro dentro de mim ainda exista.
Por ela... eu tento.
Amanhã ela vem.
E eu vou estar aqui.
Esperando.
Como nunca esperei ninguém.
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