### **Capítulo 18**
*Narração de Luana*
Preto me levou até sua casa. Assim que entramos, dei de cara com duas mulheres—uma mais velha e outra mais nova. A mais velha me olhou de cima a baixo antes de perguntar:
— Quem é ela, Preto?
— Mãe, essa é Luana. Ela vai ficar aqui em casa por uns dias. Ela é esposa do Raul.
A mulher arqueou as sobrancelhas e me analisou com um olhar demorado antes de responder:
— Esposa do Raul? — Sua voz carregava um tom de surpresa e desconfiança. — Meu nome é Pamela.
— Prazer, dona Pamela. — Forcei um sorriso educado.
Preto apontou para a mais nova.
— E essa é minha irmã, Lúcia.
— Oi. — Ela disse num tom neutro.
— Oi. — Respondi no mesmo tom.
— Lúcia, vê se consegue algumas roupas pra Luana. Ela tá sem nada. Vou levar ela pro quarto de hóspede.
— Claro. — Lúcia assentiu.
— Seja bem-vinda. — Disse Pamela, ainda me analisando.
— Obrigada.
O olhar dela me dizia que minha presença ali não era exatamente bem-vinda. Talvez fosse por causa da fiel de Preto. Não demorou muito para que eu chegasse ao quarto. Assim que entramos, ele se virou para mim.
— Não tem os luxos que você tá acostumada. — O tom dele era provocativo.
Cruzei os braços, sorrindo de canto.
— Você realmente acha que sou uma patricinha mimada, né?
Ele me encarou, um brilho desafiador nos olhos.
— Vai ter que me provar o contrário.
Dei um passo à frente, diminuindo o espaço entre nós.
— Posso provar de várias formas.
O sorriso dele se alargou, mas antes que pudesse responder, ele olhou para o relógio.
— Tô de ronda na boca. A gente se vê à noite, morena.
Ele se inclinou, me beijando com intensidade. Eu correspondi, mas fomos interrompidos por uma tosse forçada. Olhamos para trás e vimos Lúcia nos encarando, de braços cruzados.
Preto apenas balançou a cabeça e saiu do quarto sem dizer nada.
— Achei que você fosse esposa do sócio dele. — Lúcia comentou, encostando-se à porta. — Seu marido vem direto aqui no morro, e pelo que percebi, ele não é muito amigável.
Suspirei.
— Meu marido tá preso.
Ela franziu a testa.
— É por isso que você tá aqui?
— Ninguém pode saber que eu tô aqui. — Meus ombros caíram. — Seu irmão pode te contar melhor depois.
— Não precisa. Eu não sou de sair espalhando nada. — Ela deu de ombros. — Trouxe umas roupas pra você. Acho que vão servir.
— Obrigada.
Ela hesitou um instante antes de dizer:
— Você sabe que ele tem fiel, né?
Assenti.
— Sara, né? Conheci ela.
Lúcia revirou os olhos.
— Sara. Uma garota completamente ciumenta.
— Tudo bem, não sou ciumenta.
Ela soltou uma risada irônica.
— Meu irmão e ela estão juntos há dois anos. E posso te garantir que Sara não vai aceitar perder Preto.
Mantive a expressão tranquila.
— Eu só preciso de proteção.
Lúcia me observou por um instante antes de dar um conselho:
— Se você quer passar despercebida, fica longe de qualquer confusão.
— Vou tentar. — Respondi sincera. — Posso te pedir um favor?
— Pode falar.
— Preciso de um celular.
— Tenho um velho que não uso mais. Posso te dar.
— Onde consigo um chip?
— Eu compro um pra você.
Sorri pela primeira vez desde que cheguei ali.
— Obrigada.
Ela retribuiu o sorriso de leve.
— Podemos ser amigas, sabe? Eu não sou muito fã da Sara. Pra falar a verdade, ela é insuportável.
Ri baixinho.
— Espero que goste de mim, então. Mas não se preocupa, não tô aqui pra arrumar confusão.
— Vou trazer o celular depois.
— Valeu.
Lúcia saiu do quarto, e assim que fiquei sozinha, fechei a porta e encarei o espaço ao meu redor.
Para quem, poucas horas antes, havia limpado um banheiro imundo de hotel só para conseguir tomar banho… Para quem dormiu em um casebre sem luz, sem água, sem colchão, cercada por baratas… Para quem foi jogada num porão e abusada por dias por dois homens nojentos… Esse quarto era o melhor lugar onde eu poderia estar.
Eu nasci e cresci no morro, em uma família simples, onde vendíamos o almoço para ter o que comer na janta. Sempre soube o que era ter pouco, sempre valorizei tudo. Mas a vida me endureceu.
Caminhei até a janela, olhando o morro lá fora.
O problema é que ninguém conhece a verdadeira Luana. E talvez seja melhor assim.