*Preto narrando*
Eu nem tinha dormido direito com essa história toda. O clima no morro estava pesado, Marsala estava fora resolvendo umas paradas e eu fiquei na ronda a noite inteira, monitorando o movimento e garantindo que tudo continuasse sob controle. Mas minha cabeça estava em outro lugar. A prisão daquele cara tinha sido um problema grande, e agora tudo estava desmoronando rápido demais.
Eu estava sentado na cadeira da biqueira, massageando as têmporas, quando Lara entrou com o celular na mão e um olhar desconfiado.
— Ei, onde você tá? — ela perguntou, parando na minha frente.
— Em um compromisso — respondi, sem levantar os olhos.
— Que compromisso? Por que não me levou? Você sempre me leva.
Soltei um suspiro. Lara gostava de estar no meio do jogo, mas tem hora que o jogo é sujo demais até pra quem acha que pode segurar a bronca.
— Esse deu BO, ainda bem que você não foi.
Ela franziu a testa, cruzando os braços.
— Tem a ver com aquele cara que foi preso?
— Tá noticiando?
— Em tudo que é lugar — ela confirmou, sentando no braço da cadeira ao meu lado.
Eu soltei um riso seco.
— Então tá tenso.
— Ele matou o cara mesmo?
Olhei pra ela. Lara sempre queria saber mais do que devia.
— Preto — a voz de Marsala cortou a conversa quando ele entrou na biqueira. — A Luana tá aqui fora.
Lara se levantou imediatamente, como se tivesse levado um choque.
— Quem é Luana?
— A mulher do Raul — respondi, ainda assimilando a informação.
Lara arregalou os olhos.
— E o que ela quer com você?
Eu levantei devagar, ajeitando a camisa.
— Manda ela entrar — falei pra Marsala, ignorando Lara por um momento.
— Beleza — Marsala saiu, mas Lara não estava disposta a deixar o assunto morrer.
— Que merda é essa, Preto? A mulher do Raul, aqui?
— Eu também quero saber — resmunguei.
Lara me encarou com o rosto fechado.
— Eu vi foto dela. O que ela quer com você?
— Provavelmente me mandar um recado do marido — respondi, tentando manter o tom neutro.
— Recado? Que tipo de recado?
— Não sei. Talvez um aviso, uma ameaça, ou algo pior. Raul e eu temos negócios, você sabe disso.
— E desde quando você resolve negócio com a mulher dos outros?
Antes que eu pudesse responder, Marsala voltou trazendo Luana.
Ela estava acabada. Mesmo sem maquiagem, com o cabelo preso num coque bagunçado e vestindo o mesmo vestido da noite anterior, Luana ainda conseguia chamar atenção. Mas o que mais me pegou foi o olhar dela. Dava pra ver o medo escondido por trás da tentativa de parecer confiante.
— Preciso da sua ajuda — ela disse direto, sem rodeios.
Lara se aproximou, empinando o queixo.
— Que merda é essa, Preto?
— Lara, depois a gente conversa — falei firme.
— Como assim? Eu vou te deixar sozinho com essa mulher?
— Agora, Lara — repeti, dessa vez sem paciência.
Ela olhou pra mim e depois para Luana, como se não acreditasse no que estava acontecendo. Mas Luana não parecia nem um pouco intimidada. Pelo contrário, arqueou a sobrancelha, encarando Lara de cima a baixo.
— Você é o quê dele? — Luana perguntou, com um tom de curiosidade que eu não consegui identificar se era real ou puro deboche.
Lara se adiantou antes que eu pudesse impedir.
— A fiel dele.
Luana soltou um sorrisinho, cruzando os braços.
— Bom saber. Mas relaxa, só estou aqui para tratar de negócios.
Lara bufou, mas sabia que eu não ia mudar de ideia. Ela virou nos calcanhares e saiu pisando forte, deixando um clima pesado no ar.
Assim que a porta se fechou, me aproximei de Luana.
— Você tá maluca? Aparecer aqui assim?
— Se você me entregar pro Raul, eu conto pra ele sobre nosso envolvimento — ela ameaçou sem hesitar. — E seja lá qual for o seu negócio com ele, acaba na mesma hora.
Soltei uma risada seca, balançando a cabeça.
— Você sabe que não tá em condição de me ameaçar, né?
Ela respirou fundo, seus olhos escuros cravados nos meus.
— Aquele homem tentou me estuprar. Eu estou cansada de ser agredida pelo Raul, de ser tratada como propriedade. Você não tem ideia do inferno que é viver ao lado dele. A prisão foi minha única chance de escapar.
Eu analisei cada palavra dela.
— E por que veio pra cá?
— Porque ele vai me achar, não importa pra onde eu vá. Mas eu sei de muita coisa. Coisas que podem te interessar.
Cruzei os braços.
— Informações?
— Sim. Sei de detalhes que podem ferrar com ele e te dar vantagem.
Fiquei em silêncio por um momento. Raul não era um cara fácil. Traí-lo significava abrir um buraco que talvez nem eu conseguisse sair depois.
Mas Luana não era burra. Ela não estaria se arriscando tanto sem ter uma carta na manga.
— E em troca de proteção, você me dá essas informações?
Ela assentiu.
— Raul não é amigo, sócio ou parceiro de ninguém. Ele finge que é, mas só tá esperando o momento certo pra ferrar com você. Eu conheço ele melhor que qualquer um.
A verdade era que eu sabia que Raul não era confiável. Mas ouvir isso da boca da própria esposa dele tornava tudo mais real.
— Você pode ficar — decidi, e os ombros dela relaxaram. — Mas é do meu jeito, e com as minhas regras.
Ela sorriu levemente.
— E qual é a primeira regra?
A encarei, deixando o peso das palavras caírem sobre ela.
— Você vai ficar na minha casa.
Ela arregalou os olhos, surpresa.
— Com aquela mulher junto?
Soltei um riso curto.
— Lara não mora comigo.
Ela me observou por um instante, como se tentasse entender meus reais motivos.
— Por quê?
— Porque eu quero garantir que você esteja segura. Aqui, dentro do meu território, ninguém toca em você sem a minha permissão.
Os olhos dela brilharam por um instante, como se uma pontinha de esperança estivesse nascendo no meio de todo o caos.
— Então eu estou sob sua proteção?
— Está. Mas não se engane, Luana. Você ainda tem que me provar que vale a pena.
Ela assentiu lentamente, e naquele momento, eu soube que acabava de me meter num problema muito maior do que eu imaginava.