17

1082 Words
*Preto narrando* Eu nem tinha dormido direito com essa história toda. O clima no morro estava pesado, Marsala estava fora resolvendo umas paradas e eu fiquei na ronda a noite inteira, monitorando o movimento e garantindo que tudo continuasse sob controle. Mas minha cabeça estava em outro lugar. A prisão daquele cara tinha sido um problema grande, e agora tudo estava desmoronando rápido demais. Eu estava sentado na cadeira da biqueira, massageando as têmporas, quando Lara entrou com o celular na mão e um olhar desconfiado. — Ei, onde você tá? — ela perguntou, parando na minha frente. — Em um compromisso — respondi, sem levantar os olhos. — Que compromisso? Por que não me levou? Você sempre me leva. Soltei um suspiro. Lara gostava de estar no meio do jogo, mas tem hora que o jogo é sujo demais até pra quem acha que pode segurar a bronca. — Esse deu BO, ainda bem que você não foi. Ela franziu a testa, cruzando os braços. — Tem a ver com aquele cara que foi preso? — Tá noticiando? — Em tudo que é lugar — ela confirmou, sentando no braço da cadeira ao meu lado. Eu soltei um riso seco. — Então tá tenso. — Ele matou o cara mesmo? Olhei pra ela. Lara sempre queria saber mais do que devia. — Preto — a voz de Marsala cortou a conversa quando ele entrou na biqueira. — A Luana tá aqui fora. Lara se levantou imediatamente, como se tivesse levado um choque. — Quem é Luana? — A mulher do Raul — respondi, ainda assimilando a informação. Lara arregalou os olhos. — E o que ela quer com você? Eu levantei devagar, ajeitando a camisa. — Manda ela entrar — falei pra Marsala, ignorando Lara por um momento. — Beleza — Marsala saiu, mas Lara não estava disposta a deixar o assunto morrer. — Que merda é essa, Preto? A mulher do Raul, aqui? — Eu também quero saber — resmunguei. Lara me encarou com o rosto fechado. — Eu vi foto dela. O que ela quer com você? — Provavelmente me mandar um recado do marido — respondi, tentando manter o tom neutro. — Recado? Que tipo de recado? — Não sei. Talvez um aviso, uma ameaça, ou algo pior. Raul e eu temos negócios, você sabe disso. — E desde quando você resolve negócio com a mulher dos outros? Antes que eu pudesse responder, Marsala voltou trazendo Luana. Ela estava acabada. Mesmo sem maquiagem, com o cabelo preso num coque bagunçado e vestindo o mesmo vestido da noite anterior, Luana ainda conseguia chamar atenção. Mas o que mais me pegou foi o olhar dela. Dava pra ver o medo escondido por trás da tentativa de parecer confiante. — Preciso da sua ajuda — ela disse direto, sem rodeios. Lara se aproximou, empinando o queixo. — Que merda é essa, Preto? — Lara, depois a gente conversa — falei firme. — Como assim? Eu vou te deixar sozinho com essa mulher? — Agora, Lara — repeti, dessa vez sem paciência. Ela olhou pra mim e depois para Luana, como se não acreditasse no que estava acontecendo. Mas Luana não parecia nem um pouco intimidada. Pelo contrário, arqueou a sobrancelha, encarando Lara de cima a baixo. — Você é o quê dele? — Luana perguntou, com um tom de curiosidade que eu não consegui identificar se era real ou puro deboche. Lara se adiantou antes que eu pudesse impedir. — A fiel dele. Luana soltou um sorrisinho, cruzando os braços. — Bom saber. Mas relaxa, só estou aqui para tratar de negócios. Lara bufou, mas sabia que eu não ia mudar de ideia. Ela virou nos calcanhares e saiu pisando forte, deixando um clima pesado no ar. Assim que a porta se fechou, me aproximei de Luana. — Você tá maluca? Aparecer aqui assim? — Se você me entregar pro Raul, eu conto pra ele sobre nosso envolvimento — ela ameaçou sem hesitar. — E seja lá qual for o seu negócio com ele, acaba na mesma hora. Soltei uma risada seca, balançando a cabeça. — Você sabe que não tá em condição de me ameaçar, né? Ela respirou fundo, seus olhos escuros cravados nos meus. — Aquele homem tentou me estuprar. Eu estou cansada de ser agredida pelo Raul, de ser tratada como propriedade. Você não tem ideia do inferno que é viver ao lado dele. A prisão foi minha única chance de escapar. Eu analisei cada palavra dela. — E por que veio pra cá? — Porque ele vai me achar, não importa pra onde eu vá. Mas eu sei de muita coisa. Coisas que podem te interessar. Cruzei os braços. — Informações? — Sim. Sei de detalhes que podem ferrar com ele e te dar vantagem. Fiquei em silêncio por um momento. Raul não era um cara fácil. Traí-lo significava abrir um buraco que talvez nem eu conseguisse sair depois. Mas Luana não era burra. Ela não estaria se arriscando tanto sem ter uma carta na manga. — E em troca de proteção, você me dá essas informações? Ela assentiu. — Raul não é amigo, sócio ou parceiro de ninguém. Ele finge que é, mas só tá esperando o momento certo pra ferrar com você. Eu conheço ele melhor que qualquer um. A verdade era que eu sabia que Raul não era confiável. Mas ouvir isso da boca da própria esposa dele tornava tudo mais real. — Você pode ficar — decidi, e os ombros dela relaxaram. — Mas é do meu jeito, e com as minhas regras. Ela sorriu levemente. — E qual é a primeira regra? A encarei, deixando o peso das palavras caírem sobre ela. — Você vai ficar na minha casa. Ela arregalou os olhos, surpresa. — Com aquela mulher junto? Soltei um riso curto. — Lara não mora comigo. Ela me observou por um instante, como se tentasse entender meus reais motivos. — Por quê? — Porque eu quero garantir que você esteja segura. Aqui, dentro do meu território, ninguém toca em você sem a minha permissão. Os olhos dela brilharam por um instante, como se uma pontinha de esperança estivesse nascendo no meio de todo o caos. — Então eu estou sob sua proteção? — Está. Mas não se engane, Luana. Você ainda tem que me provar que vale a pena. Ela assentiu lentamente, e naquele momento, eu soube que acabava de me meter num problema muito maior do que eu imaginava.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD