*Narrado por Luana*
Eu não tinha para onde correr. Só percebi isso depois de rodar o Rio de Janeiro inteiro com aquele carro. Como fui i*****l! Raul, nesse momento, devia estar querendo a minha cabeça, e meio mundo devia estar atrás de mim. O carro tinha GPS. Era óbvio que iriam me rastrear.
Sem pensar duas vezes, estacionei em uma rua qualquer e desci. Caminhei rápido, olhando para os lados, tentando ignorar a sensação de que alguém já estava no meu encalço. Meu celular começou a tocar sem parar. Droga! Eles podiam me rastrear por ele também.
Com o coração na mão, larguei o aparelho em cima de um banco de praça e segui em frente. Eu sabia que aquela atitude ia me ferrar depois, mas era a única opção no momento. Entrei no primeiro táxi que vi e me joguei no banco de trás.
— Pra onde, moça? — o taxista perguntou, olhando pra mim pelo retrovisor.
Eu não sabia. Não podia ir pra casa. Não podia ir para nenhum lugar que Raul conhecesse.
— Algum hotel — respondi, sentindo o desespero tomar conta.
— Tem um no centro, mas é meio badalado.
— Um mais afastado!
O taxista me olhou de cima a baixo, talvez estranhando meu nervosismo e o vestido de festa amassado.
— Tem um perto de um centro comercial, não chama muita atenção.
— Pode ser.
O caminho pareceu durar uma eternidade, mas assim que paramos em frente ao hotel, senti um breve alívio. Desci rápido, joguei algumas notas no banco do passageiro e segui para a recepção. O lugar era simples, nada luxuoso, mas servia.
— Bom dia — um homem atrás do balcão me cumprimentou, me analisando de cima a baixo. Provavelmente achava que eu era garota de programa.
— Preciso de um quarto.
— Está sozinha?
— Sim.
— Documento?
— Pago adiantado.
Coloquei o dinheiro na bancada antes que ele pudesse questionar. Ele pegou as notas, conferiu, e me entregou uma chave.
— O banheiro fica no fundo do corredor.
— Obrigada.
Subi as escadas sentindo meu corpo pesar. Eu precisava descansar, pensar no que fazer. Mas quando abri a porta do banheiro, o cheiro podre quase me fez vomitar. Imundo. Inutilizável.
Revirei os olhos, irritada, e desci novamente. Não vi ninguém na recepção, então fui atrás de uma vassoura e um rodo. Peguei também um produto de limpeza barato que encontrei jogado por ali. Subi e limpei o banheiro como pude. O cheiro era horrível, mas melhor do que antes.
"Do luxo ao lixo", pensei, lembrando daquela música.
Quando terminei, tomei um banho rápido, tirei a maquiagem borrada e voltei para o quarto. Me joguei na cama e fechei os olhos por um segundo, mas o barulho de vozes na porta me fez gelar.
— Ela tá nesse quarto — uma voz masculina disse.
Meu coração disparou.
— Você tem certeza que é a garota que o Marcos quer?
Marcos. Meu sangue gelou.
Eles arrombaram a porta, e eu me joguei para trás, procurando uma saída. Vi uma porta no corredor e a abri sem pensar. Uma escada!
Desci correndo, tentando não fazer barulho. Escutei os homens revirando tudo atrás de mim. Assim que cheguei ao térreo, saí pelos fundos do hotel e corri.
— Ela tá aqui fora! — alguém gritou.
Não olhei para trás. Me misturei na multidão do centro comercial, esbarrando em pessoas, atravessando galerias apertadas, cortando por becos sem rumo. Minha bolsa ficou para trás, todo o dinheiro que eu tinha foi junto, mas minha vida era mais importante.
Minha respiração estava ofegante quando vi um táxi parado no semáforo. Corri e entrei sem nem pensar.
— Anda! — falei, tentando recuperar o fôlego.
— Pra onde?
Eu não sabia. Não tinha ninguém. Nenhum lugar seguro.
Exceto um.
— Morro da Proeza — soltei, sentindo um arrepio ao dizer aquelas palavras.
O taxista virou o rosto, desconfiado.
— Lá eu não vou, senhora.
— O mais perto possível, então. Rápido!
Ele hesitou por um segundo, mas acelerou. Eu me afundei no banco, tentando recuperar o fôlego. Agora, eu estava sem dinheiro, sem celular, sem saída. E a única pessoa que poderia me ajudar era Preto.
Mas a que preço?