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1471 Words
Capítulo 5 – Luana narrando Acordo com o corpo completamente dolorido, como se tivesse sido atropelada por um caminhão. O peso da noite anterior ainda está em mim, e eu m*l consigo abrir os olhos. Sinto um calor forte na pele, um peso na alma, e, ao abrir os olhos com dificuldade, vejo as marcas do que ele fez. O inchaço no rosto, a dor pulsante no olho… tudo me lembra o quão frágil eu sou nas mãos dele. Levanto devagar, quase sem forças, e sigo em direção ao banheiro. O espelho me devolve uma visão repulsiva – meu rosto está marcado, meu olho roxo e meu corpo cansado de tanta dor. Pego o kit de primeiros socorros e, com mãos trêmulas, faço um curativo improvisado, tentando disfarçar o que aconteceu. A maquiagem, minha velha aliada, é a última tentativa de esconder o que está acontecendo por dentro e por fora. Desço as escadas tentando manter a dignidade, mas a dor nas minhas pernas me impede de ser rápida. Quando chego à sala, vejo Raul, cercado por flores. O ambiente, normalmente pesado, agora está recheado de cores, mas não consigo sentir nada além de nojo. Ele me vê descendo lentamente e, ao me olhar, seus olhos se enchem de uma expressão que parece arrependimento. Mas é tarde demais para isso. — O que são essas flores? – pergunto, tentando esconder a raiva na minha voz, mas ela transparece. Não consigo evitar. Ele se aproxima com um sorriso hesitante, segurando as flores como se fossem a chave para meu perdão. — São para me desculpar por ontem. Eu sei que não deveria ter feito aquilo, Luana. Não deveria ter te machucado – ele diz, pegando minha mão e me ajudando a descer as últimas escadas com um cuidado exagerado. Eu o encaro, tentando ler o que há por trás daquelas palavras vazias. — Se você sabe, por que fez? – minha pergunta sai mais cortante do que eu esperava, mas a dor ainda está ali, pulsando forte. Ele, como sempre, tenta me agradar com um presente, uma joia, mais uma para me iludir. — Eu também comprei isso – ele diz, estendendo a caixinha pequena para mim. Abro e vejo o brilho da joia, mas não há brilho nenhum no meu coração. Eu apenas o encaro em silêncio, sem saber o que mais dizer. — Acho que combina com você – ele completa, passando a mão pelo meu rosto com uma suavidade que só me irrita mais. — São lindas – murmuro, tentando esconder o desdém, mas minhas palavras soam vazias. Ele sorri, como se tivesse ganhado algum tipo de vitória. Sinto um calafrio percorrendo meu corpo. Sei que ele está pensando que tudo vai voltar ao normal, que as flores e a joia vão resolver o caos que ele criou. — Sabia que você ia gostar – ele diz, e com a mesma facilidade com que me tocou, ele começa a traçar planos. — Vou viajar e volto em quatro dias. Vamos fazer um jantar na nossa casa quando eu voltar. Organize tudo, vai ao médico, ajeita seu rosto… Eu te amo, Luana. Antes que eu possa responder, ele me beija, e depois sai pela porta. Eu fico ali, parada, no meio da sala, olhando para as flores, para as joias. O vazio dentro de mim cresce ainda mais. Não consigo segurar a raiva que está crescendo dentro de mim. Sem pensar, começo a atirar os vasos de flores para todo lado, a despedaçar os buquês de rosas, e as joias? Eu as jogo longe, sem me importar com o valor ou com o que ele possa pensar. Nada disso importa. Nesse momento, minha sogra aparece, com aquele sorriso insuportável no rosto, entrando pela porta como se estivesse em sua própria casa. — Apanhou foi pouco – ela fala com desprezo, sem nem tentar esconder a ironia. — Eu ainda não sei o que meu filho vê em você. Eu a olho com ódio, já não me importando mais com as aparências. — Cala a boca, sua bruxa – eu respiro fundo, tentando controlar a raiva, mas não consigo. Ela não se intimida, ao contrário, responde de forma mais ríspida. — Abaixa o tom de voz. Eu, então, não tenho mais paciência. — Abaixar não, eu sou a esposa dele, essa casa é minha e quem manda sou eu – minha voz sai firme, desafiante. Eu não vou mais me calar diante dela. — Eu quero você fora daqui. Ela ri, um riso cínico, como se estivesse assistindo a uma cena de teatro. — Você não manda em nada, meu filho deixa você achar que manda em alguma coisa – ela diz com deboche, e a raiva dentro de mim ferve. — Eu estou mandando você ir embora – falo com a voz mais baixa, mas cheia de autoridade. Nesse momento, Pedro aparece na porta, ouvindo tudo. Ele me olha com os olhos de quem não entende nada do que está acontecendo, mas que percebe a tensão no ar. — Mãe – ele começa, mas é interrompido por mim. — Tira ela daqui – eu peço, quase implorando. A presença dela é insuportável. — Tira ela daqui! Pedro, aparentemente cansado da cena, suspira, mas tenta acalmar as coisas. — Mãe, vamos para um hotel até Raul voltar – ele fala para ela, a voz calma, mas decidida. Ela o encara com desprezo, mas não diz nada. Apenas vira-se e sobe as escadas para pegar suas coisas. Pedro se aproxima de mim, e pela primeira vez, vejo uma leve preocupação nos olhos dele. — O que ele fez com você? – ele pergunta, a dor nos olhos, mas não sei se ele está se referindo ao Raul ou a mim mesma. Eu não respondo de imediato. A dor é forte demais, a mágoa me engole inteira. — Você não está vendo? – minha voz falha, mas consigo falar. — Ele bebe, se droga, e quem paga o pato sou eu. Eu não aguento mais. Eu sou só uma marionete nas mãos dele, Pedro, e não sei como sair disso. Pedro olha para mim com uma expressão de frustração. — Eu falei desde o começo que não deveria ter se envolvido com ele – ele diz, como se soubesse de antemão que eu estaria nessa situação. Eu não me dou ao luxo de responder. Eu precisava dele, do jeito que estava. Eu estava presa e não sabia como sair. — Eu precisava – respondo finalmente, com a voz baixa. Pedro suspira, e seus olhos se suavizam um pouco. Ele, então, faz a pergunta que vai me atormentar por dias. — Você precisa se livrar dele. Eu o olho, tentando entender. Como? Como eu faria isso? Eu não tenho para onde ir, e ele tem poder sobre mim. Não tenho nada. — E existe como? – eu pergunto, a voz quase quebrando. — Esse homem é uma pedra no meu sapato, ele me machuca, me faz a sua c****a de estimação. Eu não posso sair sem dinheiro, Pedro, sem proteção. Pedro me encara com seriedade, como se tivesse a resposta para tudo. — Então você precisa dar um jeito de ficar com o dinheiro dele ou achar alguém que te proteja. Eu dou uma risada amarga, quase sem acreditar no que ele está dizendo. — E quem vai me proteger, por algum motivo? Me diz – questiono, cínica. — Nenhuma pessoa em sã consciência saberia o que eu fiz e iria me proteger. Pedro não hesita. — Eu não sei o que você fez, mas se tiver algo na jogada, você consegue. Eu o olho, sem entender. — Algo na jogada? O que? – pergunto, a confusão misturada com o desespero. — Mais do que eu faço e trago esses homens para perto de mim? Pedro me encara com uma intensidade que me faz sentir medo. — Um filho – ele diz, e suas palavras caem como uma sentença. — Ou Raul morto, ou preso. Eu te falo, é uma das três alternativas que você tem para se livrar dele. Porque, se não, logo você será mais uma que vai morrer nas mãos dele. E vou ser sincero, Luana, não será a primeira e nem a última. Eu congelo, o coração acelerado. Ele se afasta lentamente, saindo da casa com a mãe dele, que desce as escadas e sai me xingando enquanto vai embora. Eu fico ali, parada, os pensamentos martelando na minha cabeça. As palavras de Pedro ecoam em minha mente. “Vai ser mais uma a morrer nas mãos dele, não será a última e nem a primeira.” “Um filho, morto ou preso, é a única forma de você se livrar dele.” As palavras estão me destruindo por dentro, e eu sei que preciso tomar uma decisão. Mas como?
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