Capítulo 4

1477 Words
HELENA Eu acordei cedo naquela manhã. A primeira coisa que pensei foi em Alessandra. Depois de tudo o que havia acontecido na noite anterior, eu tinha passado horas pensando naquela menina. Eu queria acreditar que, finalmente, ela estava segura. Levantei da cama e fui até a cozinha preparar o café. Enquanto colocava a água para ferver, ouvi meu marido se levantar. — Bom dia — ele disse. — Bom dia. — Ela ainda está dormindo? Olhei para o corredor. — Acho que sim. Sorri. — Vou preparar alguma coisa para ela comer. Peguei pão, leite e algumas frutas. Eu estava começando a imaginar como seria ajudá-la a reconstruir a vida. Talvez conseguíssemos uma matrícula em uma escola. Talvez descobríssemos algum familiar. Talvez pudéssemos cuidar dela até encontrarmos uma solução. Eu só não imaginava que, quando abrisse aquela porta, encontraria o quarto vazio. Caminhei até o quarto. — Alessandra? Nada. Abri a porta completamente. A cama estava vazia. O cobertor estava jogado de lado. Olhei para o banheiro. Nada. — Alessandra? Meu coração começou a acelerar. Fui até a sala. — Amor! Meu marido apareceu. — O que aconteceu? — Ela não está no quarto. — Talvez tenha acordado cedo. — Não. Eu já sabia que não. Olhei para a porta da frente. Estava destrancada. Meu coração afundou. — Ela foi embora. Meu marido ficou parado. — Tem certeza? — Tenho. Corri para o quarto. A fotografia do pai não estava sobre a cama. Ela tinha levado. Também percebi que uma das blusas que eu havia colocado para ela usar tinha desaparecido. Ela tinha saído de novo. ⸻ Saímos imediatamente. Eu não conseguia pensar direito. Só conseguia imaginar uma menina de dez anos andando sozinha pelas ruas. — Para onde ela pode ter ido? — meu marido perguntou. — Eu não sei. — Ela conhece alguém aqui? — Não. — Algum lugar que ela tenha mencionado? Parei por alguns segundos. — A praça. — Vamos para lá. Entramos no carro. Durante o caminho, eu não conseguia parar de pensar. Será que ela achava que nós íamos machucá-la? Será que tinha medo de nós? Será que alguém havia dito alguma coisa? Quando chegamos à praça, comecei a procurar. Banco por banco. Calçada por calçada. Nada. — Alessandra! Meu marido chamou. Nenhuma resposta. Perguntamos a algumas pessoas se tinham visto uma menina de dez anos. Uma senhora disse: — Eu vi uma menina parecida com ela passando cedo. Meu coração acelerou. — Para onde? — Ela estava andando em direção à rodoviária. Olhei para meu marido. — Vamos. ⸻ Quando chegamos à rodoviária, comecei a procurar desesperadamente. Havia muitas pessoas. Crianças. Adultos. Famílias. Pessoas carregando malas. E eu só conseguia procurar por uma menina pequena segurando uma fotografia. Até que vi alguém sentado perto de uma coluna. Meu coração parou. — Alessandra! Ela levantou a cabeça. Era ela. Estava abraçada à mochila. Corri até ela. Mas, quando me viu, ela levantou imediatamente. — Não! Parei. Ela começou a recuar. — Alessandra, sou eu. — Não chega perto! Eu fiquei parada. Ela estava tremendo. — Eu só quero conversar. — Vocês vão me levar embora. Meu marido se aproximou alguns passos. — Ninguém vai levar você. — Vão sim! Ela começou a chorar. — Eu ouvi vocês falando ontem. Olhei para meu marido. — O que você ouviu? — Vocês estavam falando que iam procurar ajuda. Respirei fundo. Agora eu entendia. — Alessandra, nós não queremos fazer m*l a você. — Vocês vão me levar para o Conselho Tutelar! Aquelas palavras me fizeram perceber o tamanho do medo daquela menina. Ela não tinha fugido porque não gostava de nós. Ela tinha fugido porque estava com medo de perder o pouco de segurança que havia encontrado. Aproximei-me lentamente. — Você tem medo do Conselho Tutelar? Ela assentiu. — Eles vão me tirar de vocês. — Por que você acha isso? — Porque todo mundo fala que criança que foge de casa vai parar lá. Sentei no chão, mantendo distância. — Olha para mim. Ela me olhou. — Nós não vamos simplesmente entregar você para qualquer pessoa. — Promete? — Prometo que não vamos fazer nada escondido de você. Ela começou a chorar. — Eu não quero ir para outro lugar. — Eu sei. — Eu já perdi meu pai. Aquela frase me destruiu. — Eu não quero perder vocês também. Fiquei alguns segundos em silêncio. Depois estendi minha mão. — Você não precisa decidir nada agora. Ela olhou para minha mão. Demorou alguns segundos. Então caminhou devagar até mim. Quando chegou perto, eu a abracei. Ela começou a chorar desesperadamente. — Eu achei que vocês iam me mandar embora. — Não. — Eu achei que iam me levar para longe. — Não queremos fazer isso. — Eu estou com medo. — Eu sei. Apertei-a contra mim. — Mas fugir sozinha é perigoso. Ela assentiu. — Eu sei. ⸻ Voltamos para casa. Durante todo o caminho, Alessandra permaneceu em silêncio. Quando chegamos, ela sentou no sofá. Eu preparei um copo de água. — Bebe um pouco. Ela segurou o copo com as duas mãos. — Desculpa. Sentei ao lado dela. — Você não precisa pedir desculpas por estar com medo. — Eu achei que vocês iam me abandonar. — Não vamos. Meu marido sentou do outro lado. — Mas precisamos conversar sobre o que aconteceu. Alessandra ficou tensa novamente. — Eu não vou voltar para o morro. — Ninguém está mandando você voltar. — Promete? — Prometo — ele respondeu. Ela respirou aliviada. Eu segurei sua mão. — Mas precisamos procurar ajuda para cuidar de você. Ela olhou para mim. — Que ajuda? — Pessoas que possam garantir que você esteja segura, que possa estudar e que tenha seus direitos protegidos. — O Conselho? — Talvez precisemos conversar com eles. Ela imediatamente puxou a mão. — Não! — Alessandra… — Eu não quero! Começou a chorar. — Eu não quero que me tirem daqui! Eu a abracei. — Escuta. Ninguém está dizendo que você vai ser levada embora. Ela continuou chorando. — Eu só quero ficar aqui. — Então vamos conversar sobre isso com calma. Ela respirou fundo. — Vocês vão ficar comigo? — Vamos. — Mesmo se eu falar tudo? — Mesmo assim. Ela encostou a cabeça no meu ombro. — Eu tenho medo. — Eu sei. Fiquei fazendo carinho em seus cabelos. Naquele momento, percebi que cuidar de Alessandra seria muito mais difícil do que simplesmente oferecer um quarto e comida. Ela precisava aprender novamente a confiar. Precisava entender que nem todo adulto iria abandoná-la. E, principalmente, precisava sentir que não seria arrancada de um lugar seguro novamente. ⸻ Mais tarde, enquanto Alessandra dormia no sofá, conversei com meu marido na cozinha. — Ela está traumatizada. — Eu percebi. — Qualquer conversa sobre autoridades faz ela entrar em pânico. — Precisamos ter cuidado. — Muito cuidado. Olhei para o corredor. — Ela já perdeu o pai. — E fugiu da madrasta. — Agora tem medo de perder a gente. Meu marido ficou em silêncio. — Nós precisamos fazer tudo corretamente — ele disse. Assenti. — Mas sem assustá-la. — Sim. ⸻ No fim da tarde, Alessandra acordou. Ela veio até a cozinha ainda sonolenta. — Helena? — Oi. — Eu posso ficar? Parei o que estava fazendo. — Ficar onde? — Aqui. Sorri. — Pode. Ela se aproximou e me abraçou. — Obrigada. Abracei aquela menina com força. — Você não precisa agradecer. Ela ficou alguns segundos em silêncio. Depois perguntou: — Você acha que meu pai ficaria bravo comigo? Meu coração apertou. — Por você ter ido embora? Ela assentiu. — Não. — Como você sabe? — Porque ele amava você. Ela olhou para a fotografia. — Ele sempre dizia que eu era a princesa dele. — Então tenho certeza de que ele gostaria que você estivesse segura. Ela sorriu pela primeira vez naquele dia. Pequeno. Mas verdadeiro. ⸻ Naquela noite, antes de dormir, Alessandra veio até mim. — Helena? — Sim? — Eu posso deixar a porta aberta? — Claro. — Eu tenho medo de dormir sozinha. — Então deixe aberta. Ela entrou no quarto. Eu fiquei parada no corredor observando. — Boa noite, Alessandra. — Boa noite. — Dorme bem. Ela sorriu. — Você também. Fechei a luz do corredor, mas deixei a porta aberta. Naquela noite, eu entendi que encontrar Alessandra tinha sido apenas o começo. Ela ainda fugiria muitas vezes dentro da própria cabeça. Mesmo quando estivesse segura, uma parte dela continuaria procurando uma saída. Porque o medo não desaparece apenas porque encontramos um lugar seguro. É preciso tempo. Paciência. Amor. E confiança. E eu estava disposta a dar tudo isso a ela. Porque, naquele momento, Alessandra não era apenas uma menina que havíamos encontrado em uma praça. Ela já fazia parte da nossa família. E eu não permitiria que ela enfrentasse o mundo sozinha novamente.
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