HELENA
Eu acordei cedo naquela manhã.
A primeira coisa que pensei foi em Alessandra.
Depois de tudo o que havia acontecido na noite anterior, eu tinha passado horas pensando naquela menina.
Eu queria acreditar que, finalmente, ela estava segura.
Levantei da cama e fui até a cozinha preparar o café.
Enquanto colocava a água para ferver, ouvi meu marido se levantar.
— Bom dia — ele disse.
— Bom dia.
— Ela ainda está dormindo?
Olhei para o corredor.
— Acho que sim.
Sorri.
— Vou preparar alguma coisa para ela comer.
Peguei pão, leite e algumas frutas.
Eu estava começando a imaginar como seria ajudá-la a reconstruir a vida.
Talvez conseguíssemos uma matrícula em uma escola.
Talvez descobríssemos algum familiar.
Talvez pudéssemos cuidar dela até encontrarmos uma solução.
Eu só não imaginava que, quando abrisse aquela porta, encontraria o quarto vazio.
Caminhei até o quarto.
— Alessandra?
Nada.
Abri a porta completamente.
A cama estava vazia.
O cobertor estava jogado de lado.
Olhei para o banheiro.
Nada.
— Alessandra?
Meu coração começou a acelerar.
Fui até a sala.
— Amor!
Meu marido apareceu.
— O que aconteceu?
— Ela não está no quarto.
— Talvez tenha acordado cedo.
— Não.
Eu já sabia que não.
Olhei para a porta da frente.
Estava destrancada.
Meu coração afundou.
— Ela foi embora.
Meu marido ficou parado.
— Tem certeza?
— Tenho.
Corri para o quarto.
A fotografia do pai não estava sobre a cama.
Ela tinha levado.
Também percebi que uma das blusas que eu havia colocado para ela usar tinha desaparecido.
Ela tinha saído de novo.
⸻
Saímos imediatamente.
Eu não conseguia pensar direito.
Só conseguia imaginar uma menina de dez anos andando sozinha pelas ruas.
— Para onde ela pode ter ido? — meu marido perguntou.
— Eu não sei.
— Ela conhece alguém aqui?
— Não.
— Algum lugar que ela tenha mencionado?
Parei por alguns segundos.
— A praça.
— Vamos para lá.
Entramos no carro.
Durante o caminho, eu não conseguia parar de pensar.
Será que ela achava que nós íamos machucá-la?
Será que tinha medo de nós?
Será que alguém havia dito alguma coisa?
Quando chegamos à praça, comecei a procurar.
Banco por banco.
Calçada por calçada.
Nada.
— Alessandra!
Meu marido chamou.
Nenhuma resposta.
Perguntamos a algumas pessoas se tinham visto uma menina de dez anos.
Uma senhora disse:
— Eu vi uma menina parecida com ela passando cedo.
Meu coração acelerou.
— Para onde?
— Ela estava andando em direção à rodoviária.
Olhei para meu marido.
— Vamos.
⸻
Quando chegamos à rodoviária, comecei a procurar desesperadamente.
Havia muitas pessoas.
Crianças.
Adultos.
Famílias.
Pessoas carregando malas.
E eu só conseguia procurar por uma menina pequena segurando uma fotografia.
Até que vi alguém sentado perto de uma coluna.
Meu coração parou.
— Alessandra!
Ela levantou a cabeça.
Era ela.
Estava abraçada à mochila.
Corri até ela.
Mas, quando me viu, ela levantou imediatamente.
— Não!
Parei.
Ela começou a recuar.
— Alessandra, sou eu.
— Não chega perto!
Eu fiquei parada.
Ela estava tremendo.
— Eu só quero conversar.
— Vocês vão me levar embora.
Meu marido se aproximou alguns passos.
— Ninguém vai levar você.
— Vão sim!
Ela começou a chorar.
— Eu ouvi vocês falando ontem.
Olhei para meu marido.
— O que você ouviu?
— Vocês estavam falando que iam procurar ajuda.
Respirei fundo.
Agora eu entendia.
— Alessandra, nós não queremos fazer m*l a você.
— Vocês vão me levar para o Conselho Tutelar!
Aquelas palavras me fizeram perceber o tamanho do medo daquela menina.
Ela não tinha fugido porque não gostava de nós.
Ela tinha fugido porque estava com medo de perder o pouco de segurança que havia encontrado.
Aproximei-me lentamente.
— Você tem medo do Conselho Tutelar?
Ela assentiu.
— Eles vão me tirar de vocês.
— Por que você acha isso?
— Porque todo mundo fala que criança que foge de casa vai parar lá.
Sentei no chão, mantendo distância.
— Olha para mim.
Ela me olhou.
— Nós não vamos simplesmente entregar você para qualquer pessoa.
— Promete?
— Prometo que não vamos fazer nada escondido de você.
Ela começou a chorar.
— Eu não quero ir para outro lugar.
— Eu sei.
— Eu já perdi meu pai.
Aquela frase me destruiu.
— Eu não quero perder vocês também.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Depois estendi minha mão.
— Você não precisa decidir nada agora.
Ela olhou para minha mão.
Demorou alguns segundos.
Então caminhou devagar até mim.
Quando chegou perto, eu a abracei.
Ela começou a chorar desesperadamente.
— Eu achei que vocês iam me mandar embora.
— Não.
— Eu achei que iam me levar para longe.
— Não queremos fazer isso.
— Eu estou com medo.
— Eu sei.
Apertei-a contra mim.
— Mas fugir sozinha é perigoso.
Ela assentiu.
— Eu sei.
⸻
Voltamos para casa.
Durante todo o caminho, Alessandra permaneceu em silêncio.
Quando chegamos, ela sentou no sofá.
Eu preparei um copo de água.
— Bebe um pouco.
Ela segurou o copo com as duas mãos.
— Desculpa.
Sentei ao lado dela.
— Você não precisa pedir desculpas por estar com medo.
— Eu achei que vocês iam me abandonar.
— Não vamos.
Meu marido sentou do outro lado.
— Mas precisamos conversar sobre o que aconteceu.
Alessandra ficou tensa novamente.
— Eu não vou voltar para o morro.
— Ninguém está mandando você voltar.
— Promete?
— Prometo — ele respondeu.
Ela respirou aliviada.
Eu segurei sua mão.
— Mas precisamos procurar ajuda para cuidar de você.
Ela olhou para mim.
— Que ajuda?
— Pessoas que possam garantir que você esteja segura, que possa estudar e que tenha seus direitos protegidos.
— O Conselho?
— Talvez precisemos conversar com eles.
Ela imediatamente puxou a mão.
— Não!
— Alessandra…
— Eu não quero!
Começou a chorar.
— Eu não quero que me tirem daqui!
Eu a abracei.
— Escuta. Ninguém está dizendo que você vai ser levada embora.
Ela continuou chorando.
— Eu só quero ficar aqui.
— Então vamos conversar sobre isso com calma.
Ela respirou fundo.
— Vocês vão ficar comigo?
— Vamos.
— Mesmo se eu falar tudo?
— Mesmo assim.
Ela encostou a cabeça no meu ombro.
— Eu tenho medo.
— Eu sei.
Fiquei fazendo carinho em seus cabelos.
Naquele momento, percebi que cuidar de Alessandra seria muito mais difícil do que simplesmente oferecer um quarto e comida.
Ela precisava aprender novamente a confiar.
Precisava entender que nem todo adulto iria abandoná-la.
E, principalmente, precisava sentir que não seria arrancada de um lugar seguro novamente.
⸻
Mais tarde, enquanto Alessandra dormia no sofá, conversei com meu marido na cozinha.
— Ela está traumatizada.
— Eu percebi.
— Qualquer conversa sobre autoridades faz ela entrar em pânico.
— Precisamos ter cuidado.
— Muito cuidado.
Olhei para o corredor.
— Ela já perdeu o pai.
— E fugiu da madrasta.
— Agora tem medo de perder a gente.
Meu marido ficou em silêncio.
— Nós precisamos fazer tudo corretamente — ele disse.
Assenti.
— Mas sem assustá-la.
— Sim.
⸻
No fim da tarde, Alessandra acordou.
Ela veio até a cozinha ainda sonolenta.
— Helena?
— Oi.
— Eu posso ficar?
Parei o que estava fazendo.
— Ficar onde?
— Aqui.
Sorri.
— Pode.
Ela se aproximou e me abraçou.
— Obrigada.
Abracei aquela menina com força.
— Você não precisa agradecer.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
Depois perguntou:
— Você acha que meu pai ficaria bravo comigo?
Meu coração apertou.
— Por você ter ido embora?
Ela assentiu.
— Não.
— Como você sabe?
— Porque ele amava você.
Ela olhou para a fotografia.
— Ele sempre dizia que eu era a princesa dele.
— Então tenho certeza de que ele gostaria que você estivesse segura.
Ela sorriu pela primeira vez naquele dia.
Pequeno.
Mas verdadeiro.
⸻
Naquela noite, antes de dormir, Alessandra veio até mim.
— Helena?
— Sim?
— Eu posso deixar a porta aberta?
— Claro.
— Eu tenho medo de dormir sozinha.
— Então deixe aberta.
Ela entrou no quarto.
Eu fiquei parada no corredor observando.
— Boa noite, Alessandra.
— Boa noite.
— Dorme bem.
Ela sorriu.
— Você também.
Fechei a luz do corredor, mas deixei a porta aberta.
Naquela noite, eu entendi que encontrar Alessandra tinha sido apenas o começo.
Ela ainda fugiria muitas vezes dentro da própria cabeça.
Mesmo quando estivesse segura, uma parte dela continuaria procurando uma saída.
Porque o medo não desaparece apenas porque encontramos um lugar seguro.
É preciso tempo.
Paciência.
Amor.
E confiança.
E eu estava disposta a dar tudo isso a ela.
Porque, naquele momento, Alessandra não era apenas uma menina que havíamos encontrado em uma praça.
Ela já fazia parte da nossa família.
E eu não permitiria que ela enfrentasse o mundo sozinha novamente.