Capítulo 3

1570 Words
SÔNIA Acordei naquela manhã com uma sensação diferente. Não era tristeza. Também não era medo. Era silêncio. Um silêncio que, pela primeira vez, não me incomodava. Abri os olhos e fiquei alguns segundos olhando para o teto. Roberto não estava mais ali. Alessandra também não. Levantei-me e caminhei pelo corredor. Parei diante do quarto da menina. Abri a porta. A cama estava vazia. Olhei para o armário. Algumas roupas tinham desaparecido. Abri a gaveta. Vazia. Fiquei parada por alguns segundos. Então entendi. — Ela foi embora. Disse aquilo quase em um sussurro. E, ao contrário do que qualquer pessoa poderia imaginar, não senti desespero. Não senti culpa. Não senti vontade de sair correndo atrás dela. Senti alívio. Finalmente. Alessandra tinha ido embora. Aquela menina sempre tinha sido um problema. Desde o começo, Roberto fazia tudo por ela. “Minha princesa.” “Minha filha.” “Alessandra precisa disso.” “Alessandra precisa daquilo.” Tudo naquela casa girava em torno daquela criança. Mesmo depois da morte dele, ela continuava ali. O tempo todo. Olhando para mim. Me lembrando de Roberto. Me lembrando de tudo que eu queria esquecer. Agora ela tinha ido. E eu estava livre. Olhei para a cama vazia e sorri de leve. — Você mesma resolveu meu problema. Não me importava para onde ela tinha ido. Talvez tivesse procurado algum amigo. Talvez alguém a tivesse acolhido. Talvez estivesse voltando para algum parente. Eu não sabia. E, naquele momento, não queria saber. Peguei meu celular. Eu sabia exatamente para quem ligar. Marcos. Ele atendeu depois de alguns toques. — Alô? — Ela foi embora. Houve silêncio. — Quem? — Alessandra. — Como assim? — Sumiu. — Você está brincando? — Não. — Sônia, ela tem dez anos. — Eu sei muito bem quantos anos ela tem. Minha voz saiu fria. — E você não vai atrás dela? Ri sem humor. — Por quê? — Porque ela é uma criança! — E não é minha filha. Do outro lado, ele ficou em silêncio. Eu me sentei na cama. — Ela ouviu nossa conversa ontem. — Tem certeza? — Tenho. — Então ela sabe? — Sabe o suficiente. Marcos respirou fundo. — Isso pode ser um problema. — Não se ela estiver longe. — Você deveria procurar. — Eu não vou. — Sônia… — Eu disse que não vou. Desliguei. Fiquei olhando para o celular. Eu não tinha medo de Alessandra. Ela era apenas uma criança. Uma criança que não sabia de nada. Uma criança que não tinha provas de coisa alguma. E, quanto mais longe estivesse, melhor. ⸻ Fui até a cozinha. Preparei um café. Pela primeira vez em muito tempo, consegui tomar uma xícara sem ouvir passos, perguntas ou reclamações. A casa estava silenciosa. Perfeita. Olhei para a cadeira onde Roberto costumava sentar. — Finalmente. Sorri. Eu não precisava mais fingir. Não precisava mais esconder mensagens. Não precisava esperar Alessandra aparecer no corredor. Não precisava ouvir aquela menina perguntando pelo pai. Peguei o celular novamente. Enviei uma mensagem para Marcos. “Vem para cá.” Ele respondeu quase imediatamente. “Tem certeza?” “Agora.” Eu queria que ele estivesse naquela casa. Queria que aquela vida começasse de verdade. ⸻ Quando Marcos chegou, abri a porta sem hesitar. Ele entrou. Olhou para os lados. — Então ela realmente foi embora. — Foi. — E você não está preocupada? — Não. Ele me encarou. — Você é fria. — Talvez. Caminhei até a cozinha. — Café? Ele riu. — Você está falando sério? — Muito. Marcos se aproximou. — E se ela contar para alguém? Parei. Olhei para ele. — Ela tem dez anos. Quem vai acreditar nela? Ele não respondeu. — Além disso — continuei —, ninguém sabe de nós. — Ela sabe. — Saber não é provar. Marcos ficou me olhando. Eu gostava daquele olhar. Era o olhar de alguém que sabia que eu tinha razão. — Você pensou em tudo — ele disse. — Eu precisei pensar. Ele se aproximou. — Então agora podemos ficar juntos. Olhei para ele. — Agora podemos. Ele segurou minha cintura. Por alguns segundos, esqueci completamente Roberto. Esqueci a menina. Esqueci o passado. Mas então ouvi uma lembrança dentro da minha cabeça. A voz de Alessandra. “Meu pai confiava em você.” Afastei aquele pensamento. Não queria pensar nela. Não naquele momento. — Ela escolheu ir embora — falei. Marcos concordou. — E agora a casa é nossa. Olhei ao redor. Ele tinha razão. A casa estava silenciosa. Sem criança. Sem perguntas. Sem problemas. Era exatamente o que eu queria. ⸻ Mais tarde, uma vizinha apareceu na porta. — Sônia, você viu Alessandra? — Não. — Ela não dormiu em casa? — Não. A mulher ficou surpresa. — Como assim? Dei de ombros. — Ela saiu. — Sozinha? — Pelo visto. — Você não está procurando? Olhei para ela. — Ela sabe onde mora. A mulher ficou sem reação. — Mas ela é uma criança. — E também é uma criança que decidiu sair de casa. Fechei a porta. Não queria mais ouvir aquele assunto. Voltei para dentro. Marcos estava sentado no sofá. — Quem era? — Uma vizinha. — Perguntou por ela? — Sim. — E o que você disse? — A verdade. Ele sorriu. — Você é perigosa. — Eu apenas não gosto de perder tempo. Sentei ao lado dele. — Agora quero começar minha vida. Marcos passou o braço pelo meu ombro. — Vai começar. Olhei para a casa. Eu tinha certeza de que aquele era o começo de uma nova fase. Naquele momento, eu não me importava com mais nada e nem ninguém. ⸻ HELENA Eu estava voltando para casa com meu marido quando passamos por uma praça. Já estava escurecendo. Foi quando percebi uma menina sentada sozinha em um banco. Ela estava abraçada a uma fotografia. — Amor… Meu marido olhou para mim. — O que foi? — Aquela menina. Ele olhou. — Ela está sozinha? — Está. Nós nos aproximamos. Eu tentei sorrir. — Oi, querida. Ela levantou os olhos. Eu imediatamente percebi que alguma coisa estava errada. Ela parecia cansada. Assustada. E muito pequena. — Você está esperando alguém? Ela respondeu: — Meu pai. — Ele vem buscar você? Ela abaixou a cabeça. — Não. — Por quê? Ela apertou a fotografia. — Porque ele morreu. Meu coração apertou. Olhei para a fotografia. Era um homem sorrindo com uma menina pequena no colo. — É seu pai? Ela assentiu. — Qual é seu nome? — Alessandra. — Quantos anos você tem? — Dez. Meu marido olhou para mim. Nós dois ficamos em silêncio. Dez anos. Sozinha. Na capital. Sem ninguém. — Onde está sua mãe? — perguntei. — Eu não tenho mãe. — E algum familiar? Ela balançou a cabeça. — Só minha madrasta. — E onde ela está? Alessandra olhou para o chão. — No morro. — Você fugiu? Ela ficou em silêncio. Depois respondeu: — Eu fui embora. — Sozinha? Ela assentiu. — Por quê? Os olhos dela começaram a encher de lágrimas. — Eu vi minha madrasta com outro homem. Meu marido ficou sério. — E você ficou com medo? — Meu pai morreu e ela já estava com outro homem. Ela apertou a fotografia contra o peito. — Eu não queria ficar naquela casa. Eu senti uma dor enorme. Olhei para aquela menina e pensei em como alguém podia deixar uma criança chegar àquele estado. — Você está com fome? Ela hesitou. — Estou. Meu marido se abaixou. — Vamos fazer uma coisa? Ela olhou para ele. — Você vem com a gente. Ela recuou. — Eu não quero voltar. — Você não vai voltar. Ela olhou para mim. — Promete? Segurei sua mão. — Prometo. ⸻ Levamos Alessandra para nossa casa. Preparei comida. Ela comeu em silêncio. Depois pediu mais. Eu coloquei mais comida no prato. — Pode comer. Ela me olhou como se não estivesse acostumada a ouvir aquilo. — Obrigada. Meu marido permaneceu em silêncio. Eu sabia que ele estava tão abalado quanto eu. Depois do jantar, mostrei o quarto. — Você pode dormir aqui. Ela olhou para a cama. — Só hoje? — Não. — Então quando eu vou embora? — Quando você quiser. Ela me olhou. — Vocês não vão me mandar embora? — Não. Foi quando ela começou a chorar. Eu a abracei. Ela segurou minha roupa com força. — Eu quero meu pai. Fechei os olhos. — Eu sei. — Ele era bom. — Eu acredito. — Ele me chamava de princesa. Sorri. — Então você devia ser muito importante para ele. Ela assentiu. — Eu era. Aquela resposta partiu meu coração. Ela tinha certeza de que era importante para o pai. E era. Eu tinha certeza. ⸻ Naquela noite, depois que Alessandra dormiu, fui até a sala. Meu marido estava sentado no sofá. — Nós precisamos fazer alguma coisa — falei. — Eu sei. — Amanhã vamos procurar ajuda. — Sim. Olhei para o corredor. — Mas hoje ela precisa descansar. Ele concordou. Voltei ao quarto. Alessandra dormia abraçada à fotografia. Fiquei alguns segundos olhando para ela. Uma criança de dez anos. Sozinha. Longe de casa. Sem pai. Sem mãe. E sem saber o que aconteceria no dia seguinte. Aproximei-me e ajeitei o cobertor. — Você não está mais sozinha — sussurrei. Ela continuou dormindo e eu fui para o meu quarto descansará depois desse longo dia .
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