Por Lirabela
Onde estou? Como cheguei aqui? O vento fresco do Norte soprava sobre meu rosto, jogando meus cabelos para trás, esvoaçando-os. Onde estava aquele garoto de antes? Estive procurando-o durante horas, mas não há pistas. É como se fosse um fantasma.
“Por que não sinto o cheiro dele? Não consigo encontrá-lo!”
“Porque ele não existe!” — Observador estava insistente.
“Você não o viu?”
“Quem?”
“O menino.”
A lembrança de seu rosto estava distorcida, como uma névoa densa. O quão sonolenta eu estava para ter me esquecido?
“Não tem nenhum menino! Você está imaginando coisas! Estou com você o tempo inteiro e ninguém entra ou sai do seu quarto sem que eu saiba.”
— Ele está aqui, sei que está!
“Volte agora!”
“Voltar para onde? Já não estou em casa?”
“Estou voltando. Você me obrigou a fazer isso!”
Meus olhos se elevaram ao alto, procurando-o. Não me abandone, Observador... Você também não! Não consegui enxergar direito. A luz estava muito forte, ofuscando minha visão.
Sentei-me onde eu estava, por cima de uma grande rocha, na beira do oceano. As ondas do mar batiam contra ela e suas gotículas espirravam em mim. Respirei fundo e foquei-me em sentir os quatro elementos me rodeando. O calor do Arvi, o frescor do vento, a rocha sobre meus pés conectando-me a terra e a energia da correnteza das águas.
A água, em especial, parecia me chamar e fiquei entorpecida, escutando a canção que vinha dela. Querendo identificar melhor o som, joguei-me naquelas águas cristalinas e nadei até que meus pés não tocassem mais a areia. A água estava gelada, e isso ajudou a diminuir a minha circulação, acalmando-me.
Mesmo que fosse um sonho, aquilo havia mexido demais comigo, como se eu pudesse trazer meu pai de volta com isso. Fechei meus olhos e deixei meu corpo inerte. Lembranças de um passado amargo tornaram a minha mente, enquanto eu me deixava flutuar nas águas, e o vai e vem suave das ondas parecia querer me colocar para dormir, como os braços de minha mãe, me mexendo de um lado ao outro.
Memórias ainda mais distantes começaram a invadir minha mente, e consegui me lembrar daquela cantiga de ninar que envolvia meu sono. Era como o sopro do vento nas folhas, e uma sensação de dor surgia em meu peito enquanto me deixava levar. Mas aquela cantiga se foi embora, e eu não tornei mais a ouvi-la.
“Pai, vem me pegar!” Ele estava lá, correndo atrás de mim. Meus passos cada vez maiores, e por causa disso ele se demorava cada vez mais e ia ficando para trás. Agora já não conseguia me alcançar. Ele parou, com o rosto sério e de repente se foi ao vento até as águas, se tornando parte do lago que dá vida à Naim. Fui ficando sonolenta. Como eu conseguia dormir tão fácil? Senti a areia em meus pés e então me sentei, buscando por aquele que me puxara dali.
— Lira... — Seus braços quentes me envolveram e anestesiaram aquela sensação r**m. — Por que você fez isso?
Encarei seus olhos preocupados, que me vistoriavam por completo e buscavam desesperadamente em mim a resposta para suas perguntas. Eu ainda não conseguia falar, parecia que algo importante de minha alma tinha se desprendido de meu corpo.
“Ele te procurava, então o trouxe. Você não está bem!”
— Lira, você nos deixou preocupados. Nem imagina como sua mãe está aflita. Estão todos te procurando!
— Eu não sei o que deu em mim. — Admiti. — Comecei a percorrer os jardins e quando dei por mim já estava aqui.
— Obrigado, Observador! Pode deixar que eu cuido dela agora! — Observador havia descido até a areia da praia e estava parado do meu lado, me olhando de uma forma estranha. Quando foi que ele fez isso? — Vamos?
Elliot puxou minha mão como se quisesse me ajudar a ficar de pé. Por algum motivo eu não conseguia reagir. Meu corpo estava tremendamente pesado e eu não conseguia firmar meus pés e pensamentos. Elliot se agachou, pegando-me em seus braços e fechei os olhos, deixando-me levar.
— O que aconteceu com você? — Sussurrou, em tom de preocupação.
Eu sabia que ele estava correndo. Ouvia o trotar de seus passos e sentia o vento passando em meu corpo me provocando tremores. Sua respiração e coração estavam acelerados. Parecia apressado. Por que eu não conseguia reagir?
— Elliot, o que aconteceu? — De quem era essa voz? Acho que eu já tinha ouvido, mas onde?
— Eu não sei, Deltran. Chame os outros e digam-lhes que a encontrei.
— Vou mandar um dos guardas avisar a Talya também.
— Certo, faça isso com urgência!
Deltran? Tentei abrir meus olhos. Elliot ainda estava correndo, mas seu semblante não mostrava felicidade. Correr me deixava feliz, então por que ele não estava assim?
— Você a encontrou. Que alívio! — Essa voz... Eu sabia de quem era!
— Thi... — Não consegui terminar de pronunciar. A verdade é que eu estava gritando por dentro, mas minha voz não saia.
— O que aconteceu? — Sua voz já não era mais de alívio. Por que todos pareciam tão desesperados? Comecei a achar que eu devia ficar também.
— Eu não sei! Ela parecia desorientada quando a encontrei, e agora parece não responder a nada.
“Mas estou te ouvindo! Observador, avisa isso para ele.” Não houve resposta. Ele estava mudo. “Observador, por acaso está me ignorando?”
— O que o Observador disse a respeito? Ele deve conseguir entrar na cabeça dela.
— Ele diz que não está conseguindo ouvi-la.
“Como assim, não? Estou aqui!” À medida que eu tentava processar o que estava acontecendo, comecei a sentir inquietação. Eles ainda estavam correndo, mas para onde?
— Minha Lirabela! — Mãe? — Onde a encontrou? Está encharcada!
— Ela estava flutuando no oceano, a alguns quilômetros daqui. Observador me levou até ela.
— Ayra, traga-me toalhas secas agora!
Senti meu corpo pousar sobre algo. Estava macio, mas não tão quente quanto os braços de Elliot.
— Em prontidão, Alteza! Estamos aqui! — Quizan...
— O que aconteceu com ela? — Era outra voz conhecida, mas quem? Acho que é...
— Eu não sei. — A voz de Elliot estava tremulando. Saía abafada e triste. — Às vezes abre os olhos e os fecha em seguida, e às vezes seus lábios se movimentam como se quisesse dizer algo, mas não sai nada.
— A culpa é minha, não devia tê-la deixado sozinha nem por um minuto! —Por que minha mãe está se culpando?
— O que está acontecendo com ela? — Elliot havia ficado sério. Se algo errado estava acontecendo comigo eu também queria saber.
— São os sintomas da marca que estão surgindo. Eles vêm e vão, podendo causar delírios, desorientação, tonturas, torpor e até perda de sentidos. É uma transição complicada, e por isso que desejei tanto reencontrá-la antes que passasse por isso, porque sou a única que sabe como orientá-la nesse momento difícil. Eu a havia colocado em meu próprio quarto justamente para poder ficar de olho nela. Como pude ser tão descuidada?
— Ela vai ficar bem?
O frio diminuiu. Talvez estivessem me secando. Senti-me novamente envolta por uma sensação quente e sabia que estavam cuidando de mim. Acho que por isso eu não estava tão desesperada. O turbilhão de sentimentos que antes me tomara fora arrancado de mim mais uma vez. Agora senti-a me paralisada não só por fora, como também por dentro.