Livro 2: Capítulo 01

1277 Words
Por Lirabela  Onde estou? Como cheguei aqui? O vento fresco do Norte soprava sobre meu rosto, jogando meus cabelos para trás, esvoaçando-os. Onde estava aquele garoto de antes? Estive procurando-o durante horas, mas não há pistas. É como se fosse um fantasma. “Por que não sinto o cheiro dele? Não consigo encontrá-lo!” “Porque ele não existe!” — Observador estava insistente. “Você não o viu?” “Quem?” “O menino.” A lembrança de seu rosto estava distorcida, como uma névoa densa. O quão sonolenta eu estava para ter me esquecido? “Não tem nenhum menino! Você está imaginando coisas! Estou com você o tempo inteiro e ninguém entra ou sai do seu quarto sem que eu saiba.” — Ele está aqui, sei que está! “Volte agora!” “Voltar para onde? Já não estou em casa?” “Estou voltando. Você me obrigou a fazer isso!” Meus olhos se elevaram ao alto, procurando-o. Não me abandone, Observador... Você também não! Não consegui enxergar direito. A luz estava muito forte, ofuscando minha visão. Sentei-me onde eu estava, por cima de uma grande rocha, na beira do oceano. As ondas do mar batiam contra ela e suas gotículas espirravam em mim. Respirei fundo e foquei-me em sentir os quatro elementos me rodeando. O calor do Arvi, o frescor do vento, a rocha sobre meus pés conectando-me a terra e a energia da correnteza das águas. A água, em especial, parecia me chamar e fiquei entorpecida, escutando a canção que vinha dela. Querendo identificar melhor o som, joguei-me naquelas águas cristalinas e nadei até que meus pés não tocassem mais a areia. A água estava gelada, e isso ajudou a diminuir a minha circulação, acalmando-me. Mesmo que fosse um sonho, aquilo havia mexido demais comigo, como se eu pudesse trazer meu pai de volta com isso. Fechei meus olhos e deixei meu corpo inerte. Lembranças de um passado amargo tornaram a minha mente, enquanto eu me deixava flutuar nas águas, e o vai e vem suave das ondas parecia querer me colocar para dormir, como os braços de minha mãe, me mexendo de um lado ao outro. Memórias ainda mais distantes começaram a invadir minha mente, e consegui me lembrar daquela cantiga de ninar que envolvia meu sono. Era como o sopro do vento nas folhas, e uma sensação de dor surgia em meu peito enquanto me deixava levar. Mas aquela cantiga se foi embora, e eu não tornei mais a ouvi-la. “Pai, vem me pegar!” Ele estava lá, correndo atrás de mim. Meus passos cada vez maiores, e por causa disso ele se demorava cada vez mais e ia ficando para trás. Agora já não conseguia me alcançar. Ele parou, com o rosto sério e de repente se foi ao vento até as águas, se tornando parte do lago que dá vida à Naim. Fui ficando sonolenta. Como eu conseguia dormir tão fácil? Senti a areia em meus pés e então me sentei, buscando por aquele que me puxara dali. — Lira... — Seus braços quentes me envolveram e anestesiaram aquela sensação r**m. — Por que você fez isso? Encarei seus olhos preocupados, que me vistoriavam por completo e buscavam desesperadamente em mim a resposta para suas perguntas. Eu ainda não conseguia falar, parecia que algo importante de minha alma tinha se desprendido de meu corpo. “Ele te procurava, então o trouxe. Você não está bem!” — Lira, você nos deixou preocupados. Nem imagina como sua mãe está aflita. Estão todos te procurando! — Eu não sei o que deu em mim. — Admiti. — Comecei a percorrer os jardins e quando dei por mim já estava aqui. — Obrigado, Observador! Pode deixar que eu cuido dela agora! — Observador havia descido até a areia da praia e estava parado do meu lado, me olhando de uma forma estranha. Quando foi que ele fez isso? — Vamos? Elliot puxou minha mão como se quisesse me ajudar a ficar de pé. Por algum motivo eu não conseguia reagir. Meu corpo estava tremendamente pesado e eu não conseguia firmar meus pés e pensamentos. Elliot se agachou, pegando-me em seus braços e fechei os olhos, deixando-me levar. — O que aconteceu com você? — Sussurrou, em tom de preocupação. Eu sabia que ele estava correndo. Ouvia o trotar de seus passos e sentia o vento passando em meu corpo me provocando tremores. Sua respiração e coração estavam acelerados. Parecia apressado. Por que eu não conseguia reagir? — Elliot, o que aconteceu? — De quem era essa voz? Acho que eu já tinha ouvido, mas onde? — Eu não sei, Deltran. Chame os outros e digam-lhes que a encontrei. — Vou mandar um dos guardas avisar a Talya também. — Certo, faça isso com urgência! Deltran? Tentei abrir meus olhos. Elliot ainda estava correndo, mas seu semblante não mostrava felicidade. Correr me deixava feliz, então por que ele não estava assim? — Você a encontrou. Que alívio! — Essa voz... Eu sabia de quem era! — Thi... — Não consegui terminar de pronunciar. A verdade é que eu estava gritando por dentro, mas minha voz não saia. — O que aconteceu? — Sua voz já não era mais de alívio. Por que todos pareciam tão desesperados? Comecei a achar que eu devia ficar também. — Eu não sei! Ela parecia desorientada quando a encontrei, e agora parece não responder a nada. “Mas estou te ouvindo! Observador, avisa isso para ele.” Não houve resposta. Ele estava mudo. “Observador, por acaso está me ignorando?” — O que o Observador disse a respeito? Ele deve conseguir entrar na cabeça dela. — Ele diz que não está conseguindo ouvi-la. “Como assim, não? Estou aqui!” À medida que eu tentava processar o que estava acontecendo, comecei a sentir inquietação. Eles ainda estavam correndo, mas para onde? — Minha Lirabela! — Mãe? — Onde a encontrou? Está encharcada! — Ela estava flutuando no oceano, a alguns quilômetros daqui. Observador me levou até ela. — Ayra, traga-me toalhas secas agora! Senti meu corpo pousar sobre algo. Estava macio, mas não tão quente quanto os braços de Elliot. — Em prontidão, Alteza! Estamos aqui! — Quizan... — O que aconteceu com ela? — Era outra voz conhecida, mas quem? Acho que é... — Eu não sei. — A voz de Elliot estava tremulando. Saía abafada e triste. — Às vezes abre os olhos e os fecha em seguida, e às vezes seus lábios se movimentam como se quisesse dizer algo, mas não sai nada. — A culpa é minha, não devia tê-la deixado sozinha nem por um minuto! —Por que minha mãe está se culpando? — O que está acontecendo com ela? — Elliot havia ficado sério. Se algo errado estava acontecendo comigo eu também queria saber. — São os sintomas da marca que estão surgindo. Eles vêm e vão, podendo causar delírios, desorientação, tonturas, torpor e até perda de sentidos. É uma transição complicada, e por isso que desejei tanto reencontrá-la antes que passasse por isso, porque sou a única que sabe como orientá-la nesse momento difícil. Eu a havia colocado em meu próprio quarto justamente para poder ficar de olho nela. Como pude ser tão descuidada? — Ela vai ficar bem? O frio diminuiu. Talvez estivessem me secando. Senti-me novamente envolta por uma sensação quente e sabia que estavam cuidando de mim. Acho que por isso eu não estava tão desesperada. O turbilhão de sentimentos que antes me tomara fora arrancado de mim mais uma vez. Agora senti-a me paralisada não só por fora, como também por dentro.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD