Por Elliot
Um cheiro levemente doce e refrescante adentrava por entre as janelas, levado pelo vento e impregnando a pequena sala na qual eu estava sentado, junto com meus homens. Decidimos nos reunir antes da refeição para decidir quando voltaríamos, mas até agora só sabiam falar sobre a cidade, o que ainda queriam fazer e coisas do tipo. Eu mesmo lhes havia dado folga, então tanto faz...
Aquela ansiedade que eu tinha em sair logo do Norte e voltar para casa se foi. Estávamos sendo tratados com extrema cordialidade e respeito, e o mais importante é que eu ainda não estava preparado para deixá-la.
— Acho que mais três dias é tempo suficiente para vocês comprarem tudo o que querem. — Disse Quizan a Deltran e Flayon. — Não há porque estendermos demais nossa permanência aqui. Isso só irá gerar transtornos à rainha.
— Estou de acordo! — Entrei na conversa, manifestando minha opinião. Por mais que eu quisesse ficar, o dever me chamava, além da necessidade de colocar tudo em ordem para poder deixar o cargo e voltar para minha Lirabela de forma definitiva.
— Acho que... — Antes que Lionax terminasse de falar fomos interrompidos pela entrada brusca de Talya, abrindo as portas repentinamente e com força.
— Onde ela está, Elliot? — Seu olhar percorria todo o cômodo e, antes que eu tivesse tempo de perguntar o que estava havendo ela já foi saindo.
— Espere! — Corri atrás dela tentando entender seu desespero. — Está procurando Lirabela?
— Elliot, ela não estava no quarto quando voltei. Precisamos encontrá-la o quanto antes.
— Talvez esteja no jardim com Observador. — Sugeri.
— Espero mesmo que seja isso. Por favor, você precisa me ajudar a achá-la o quanto antes. Ela pode estar correndo perigo.
— Como?
— Não tenho tempo para explicar...
— Homens! — Ordenei-lhes. Rapidamente os nove se colocaram em prontidão. — Vasculhem a área e encontrem-na.
A escolta saiu pelas portas de forma ordenada, já combinando entre si quem iria para onde. Segurei as mãos de Talya, que estavam trêmulas, e a encarei confiadamente:
— Vamos encontrá-la, eu prometo! — Mesmo que fosse apenas um trauma pelo tempo que passara longe de sua filha e o medo de não tornar a vê-la, e mesmo que me soasse exagero, resolvi ajudá-la porque ela seria parte da minha família também, num futuro não tão distante. Vê-la atormentada assim me dava pena.
Foquei a busca em Observador, e não nela, uma vez que estavam sempre juntos. Fui subindo o castelo, até chegar no telhado e busquei nos horizontes algum sinal no céu. Lirabela era corajosa e havia compreendido bem a situação, então não tinha porquê fugir. Não demorei muito em vê-lo, disparando em minha direção. Esperei que descesse até mim, mas ao invés disso ficou dando voltas por cima de minha cabeça, como se estivesse me chamando.
— Me mostre onde ela está!
Ele rapidamente se virou para o mesmo lado de onde veio e comecei a segui-lo, a toda velocidade. Minutos depois, comecei a ouvi-lo, o que significava que ela estava perto.
“Ela está confusa. Precisa de ajuda!”
“Onde ela está?”
“Na água!”
Concentrei a energia através do meu corpo e amplifiquei meus sentidos. Saltei na água e comecei a nadar contra as ondas, assim que a detectei. Como ela havia se afastado tanto da costa? Segurei-a como podia e nadei de volta, puxando-a para areia. Estava trêmula, pálida, e agora, de olhos abertos, encarando-me.
— Lira... — Envolvi-a em meus braços, tentando esquentá-la um pouco. A água estava bem gelada e não sei por quanto tempo ela ficou lá. — Por que você fez isso?
Ela não me respondeu. Comecei a procurar em seu corpo qualquer sinal de que tivesse se machucado, e em sua cabeça algo que revelasse que sofrera alguma pancada ou algo assim. Nada! Contudo, seu olhar estava distante e seu rosto sem expressão.
— Lira, você nos deixou preocupados. Nem imagina como sua mãe está aflita. Estão todos te procurando!
— Eu não sei o que deu em mim. — Finalmente falou algo, mas sua voz tremulava, e parecia não conseguir se focar em mim. Observador desceu e se colocou ao lado dela, mas ela não virou o rosto nem respondeu aos puxões que ele dava em seu cabelo molhado. — Comecei a percorrer os jardins e quando dei por mim já estava aqui.
— Obrigado, Observador! Pode deixar que eu cuido dela agora! — Ela virou de leve o rosto para sua águia e ele parou de puxar o cabelo dela, mas não se deu por convencido. Precisávamos voltar logo e percebendo isso, ele parou de encará-la e alçou voo, mas os olhos dela permaneceram fixos no mesmo lugar, como se o Observador ainda estivesse lá. — Vamos?
Seu rosto não se mexeu um milímetro e seu corpo não respondia aos meus sinais. Parecia sem vida e comecei a entrar em desespero. Agachei-me pegando-a em meus braços e concentrei energia em meu corpo para ganhar velocidade e poder esquentá-la o máximo que eu podia.
“Não consigo ouvi-la mais!” Observador estava angustiado e eu mais ainda, a ponto de não conseguir mais pensar direito. Fui respondendo categoricamente a todos que entravam em meu caminho. Se havia alguém que sabia de algo e podia ajudar, esse alguém era a própria Talya, e agora toda aquela aflição de instantes atrás já não me soava exagero.
Sentei Lirabela por cima de uma poltrona enquanto procurava em seu rosto algum sinal de que pudesse voltar para mim. Continuava tremendo muito e apressei-me em procurar algo ao redor que pudesse ser de ajuda para secá-la e aquecê-la. Talya também viu essa necessidade e rapidamente mandou providenciar.
Estávamos cada vez mais rodeados de pessoas e de perguntas que eu não sabia responder. Meu coração, tomado por angústia apenas aliviou no momento em que Lirabela retornou para meus braços, enquanto eu a envolvia em toalhas secas.
— O que está acontecendo com ela? — Olhei diretamente para Talya. Se ela estava escondendo algo era melhor revelar agora ou eu não responderia mais pelos meus atos.
— São os sintomas da marca que estão aparecendo. Eles vêm e vão, podendo causar delírios, desorientação, tonturas, torpor e perda de sentidos. É uma transição complicada, e por isso que desejei tanto reencontrá-la antes que passasse por isso, porque sou a única que sabe como orientá-la nesse momento difícil. Eu a havia colocado em meu próprio quarto justamente para poder ficar de olho nela. Como pude ser tão descuidada?
— Ela vai ficar bem? — Questionei-a, ainda não satisfeito com a explicação. Talya colocou um cobertor grosso sobre ela e a embrulhei com ele, concentrando energia através de todo o meu corpo para esquentá-la. Aos poucos sua bochecha começou a ficar mais rosada de novo e foi parando de tremer.
— Na próxima semana a tendência é isso se intensificar, então para evitar que ela se coloque numa situação complicada e saia ferida, teremos que ficar de olho. Os altos e baixos vão acontecer, até que a marca surja.
— Por que não nos contou isso antes? Por que não me falou dos sintomas? —Sei que minha voz saiu mais como uma acusação do que uma pergunta. Apertei Lirabela com mais força e encarei Talya com irritação.
— É que está tudo tão novo e tão confuso. Está muito difícil processar tudo o que está acontecendo. Eu já providenciei ajuda desde o primeiro dia que soube que ela é minha filha, mas não estou tendo tempo para lidar com tudo que preciso. São muitas coisas ao mesmo tempo, Elliot, tente me entender. Está difícil!
— Que ajuda? — Qualquer coisa, desde que Lirabela fique bem!
— Devemos aguardá-la ainda. Me entregue ela, por favor. Preciso trocar suas roupas molhadas.
— Eu não vou deixá-la! — Falei entredentes. — Lirabela fica comigo!
— Alteza... — Quizan se colocou ao meu lado em reverência. — A rainha, melhor que ninguém, sabe o que Lirabela está passando. Escute-a.