Capítulo 12 - A Presença que Incomoda

1654 Words
Narrado por Lorena A noite chegou com aquela ansiedade que misturava vaidade e dúvida, Raví tinha mais um show pra fazer antes dele voltar pra casa e eu pro meu Pernambuco. Eu ainda estava extasiada com o que fizemos mais cedo no estúdio, eu preferia dormir mais um pouco e aproveitar um pouco mais com ele, porém Raví tinha o compromisso com o show dele. Eu já tinha tomado banho, feito escova no cabelo, passado perfume e hidratado cada parte do meu corpo com cuidado. Queria me sentir bonita, mas acima de tudo... queria me sentir desejada por ele, queria que ele não tirasse os olhos de mim. Sou mulher, apesar de tudo tenho meu ciúmes, afinal eu amo o Raví por mais hipócrita que eu possa parecer ser. Fiz escova no cabelo naquela tarde, não pra mudar quem eu era, nem pra agradar ninguém. Meus cachos eram parte de mim, sempre foram e eu sempre adorei eles. Mas naquele dia eu quis variar, me ver diferente no espelho. Uma escolha minha, meu cabelo, meu corpo, minhas regras. E naquele momento, eu me achava a mais linda de todas. A calça jeans moldava meu corpo do jeitinho que eu gostava, o cropped preto deixava minha cintura em destaque, e por cima eu joguei uma jaqueta marrom de couro que combinava com a minha pele. A maquiagem estava leve, mas linda, com um brilho que destacava meus olhos. E a bolsa? Optei por usar aquela bolsa de marca que o Raví me deu, não sabia quando teria outra oportunidade dessa e quis usá-la. Ela foi um presente, um presente dado por ele. E por mais que eu não fosse a mulher “oficial”... naquele instante, ao menos eu era a escolhida. — Eita porra... — ele soltou assim que me viu saindo do quarto. Encostado na parede do corredor do hotel, o boné cobrindo parte do rosto e o fone em um dos ouvidos. O olhar dele percorreu meu corpo de cima a baixo com um sorriso safado. — Tá me olhando assim por quê? — perguntei, tentando segurar o sorriso, o olhando toda sapeca. — Porque tu tá pronta pra me fazer perder a cabeça e o foco do show de novo. — Ele chegou mais perto, segurou minha cintura me puxando pra ele e sussurrou no meu ouvido bem baixinho. — Essa calça tá pedindo pra ser arrancada Lorena, dá tempo de te dar umas chupadas gostosas ainda. — me arrepiei por inteira ouvindo aquilo, mas tinha que manter a postura. — b***a — ri, empurrando ele de leve. — Não sou b***a, não. b***a é fingir que não sei que vai ficar um monte de homem olhando e cobiçando o que é meu. — Ele me deu um beijo quente onde apertava cada curva do meu corpo como se estivesse guardando a sensação para si, depois colocou os dois fones e desceu pelo corredor na frente, indo direto pro ônibus. Eu fui logo atrás, já sabia como fazer. O segurança do hotel me acompanhou até o veículo e, quando me viu subindo, me ofereceu a mão com gentileza. Sorri de volta e aceitei a ajuda do segurança, subindo com cuidado pra não bater o salto. Foi só pisar no corredor do ônibus que eu senti novamente, os mesmos olhares. Dessa vez não eram só julgadores, eram sussurrantes entre si, desrespeitosos. Um tipo de veneno abafado no ar, eu sabia também que o descontentamento deles não era só por eu ser a outra, acho que havia um pouco de racismo também. — É ela de novo... — ouvi alguém falar em tom baixo, atrás de mim. — A cara nem treme, né? Sabendo que ele tem a Clara em casa. — mais um sussurro. — Clara é muito mais bonita... e presença, né? Olha isso aí… — como eu já imaginava. As palavras não eram direcionadas diretamente a mim, mas elas chegaram. Todas elas, cortantes. Falsamente sussurradas, ditas para machucar e eu me fiz de surda, mesmo que o peito doesse como se tivesse levado um soco atrás de outro eu não ia me deixar abalar. Sentei no banco ao lado de Raví que continuava com os fones nos ouvidos, mexendo no celular. Estava rindo de alguma coisa. Me lançou um sorriso rápido, colocou a mão na minha coxa, mas não tirou os olhos da tela. Ele não ouviu nada, mas eu ouvi tudo e por mais que eu tentasse não pensar, doía. O caminho todo fiquei em silêncio. Olhava pela janela tentando engolir as palavras que se grudaram no meu corpo como tinta fresca. Não era só o julgamento de ser “a outra”, era o tipo de olhar que eu estava recebendo, olhar de comparação. Eles não achavam apenas que eu era errada por estar com ele. Eles achavam que eu era “ inferior demais” pra estar ali. Demais por ser preta. Demais por ser fora do padrão. Demais pro lugar onde alguns deles decidiram que eu nunca pertenceria. Chegamos ao local do show. Raví foi direto pro camarim, eu até ia com ele, mas vi um pessoal indo e achei melhor ficar num cantinho para não chamar a atenção das outras pessoas pra mim. O show foi lindo, como sempre. Ele encantava, dominava o palco, fazia piadas, dançava, cantava com aquele molejo que arrancava suspiros das fãs. Mas dessa vez eu não consegui curtir, não do mesmo jeito de sempre. Pela primeira vez desde que tudo começou, eu me senti... uma pedra no sapato dele. Voltei pro hotel com o coração apertado, o sorriso fraco e a bolsa de marca pesando no meu colo. Era bonita, sim. Era cara, mas parecia só mais uma prova que ajudava os outros a me incriminar, a incrimar a nossa relação. Já no quarto, depois do banho, me sentei na beira da cama enquanto ele terminava de secar o cabelo com a toalha. — O show foi bom, né? — ele perguntou, jogando a toalha no canto e vindo até mim de cueca, ainda estava meio molhado. — Foi. Você sempre arrasa. O público ama. — tentei lhe dar um sorriso para o animar mas falhei. — E tu? Voltou tão quieta depois do show. — ele beijou minha bochecha e se sentou ao meu lado. Demorei alguns segundos pensando se realmente deveria falar, se realmente valia a pena, mas resolvi soltar o que estava sentindo. — Às vezes eu sinto que sou só um segredo m*l contado, que sou uma má pessoa por estar com você já que você é comprometido oficialmente, mesmo que seu relacionamento não esteja mais indo bem. — Pelo menos é isso que ele me falava. Ele me encarou com as sobrancelhas franzidas, como se não esperasse aquilo, o sorriso no seu rosto foi sumindo aos poucos. — Como assim? — — Que eu tô aqui... tô com você. Mas ninguém pode saber de verdade. Ninguém pode ver. E quem vê... Deve fingir que não viu enquanto cochicha às escondidas. Me julga, me compara. — — Ô, Lorena... esse mundo é assim mesmo. Tudo por menos que seja é motivo pra falar e tu sabe disso. — — Sei, mas não significa que não machuca, que eu não sinto nada. — Raví se ajoelhou na minha frente e segurou minhas mãos. — Eu nunca te obriguei a estar aqui. — era melhor ele ter ficado calado, aquela frase me deixou ainda pior. — Eu sei, mas mesmo assim eu fico. — de fato a culpa era minha por aceitar fazer parte daquilo, por aceitar me submeter aquele circo todo. — Porque tu quer. Porque a gente tem uma coisa boa. — — Eu só queria que essa coisa boa não me fizesse sentir... Inferior. — Ele respirou fundo, como quem se cansa de explicar um jogo sujo que nem ele mesmo entende direito, como se nem ele tivesse mais paciência para esse assunto. — Tu acha que eu não tenho que aguentar também? Tu acha que não falam de mim, das escolhas que faço ou das vezes que não posto com a Clara por não estar viajando com ela ? Afinal eu tenho contrato assinado pra isso, pra mostrar nós dois. Me sinto pisando em ovos porque a qualquer momento alguém pode vazar sobre eu e você. Eu sou cobrado o tempo inteiro e nem por isso tô assim, tento dar meu máximo quando estamos juntos para aproveitar mais nossos momentos. — — Mas você é homem, rico, famoso. E ela é a namorada perfeita pros olhos do mundo, mesmo que a gente vaze, você vai conseguir se levantar a corda vai pesar é pro meu lado. — Ele ficou em silêncio. A verdade é que ele sabia que eu estava certa. — Não quero que tu fique assim, Lorena. Tu é forte, linda, rocheda e eu não deixaria ninguém te tocar ou te machucar. Vou sempre te proteger. — — Mas eles já tão me ferindo com os olhos, os sussurros, os comentários… — — Então deixa eu te proteger aqui, ó. — Ele me puxou pra cima da cama, deitou comigo e me abraçou forte por trás. — Deixa eu cuidar de tu desse jeito. Porque lá fora tem um monte de merda que eu não consigo evitar, mas aqui... aqui tu é só minha e eu sou só teu. — Fiquei quieta, sentindo o braço dele apertar ao redor do meu corpo. Eu queria acreditar que aquele quarto era um abrigo, mas já tava começando a entender que, na verdade… era só um esconderijo. E eu era a parte da vida dele que precisava ficar escondida e assim deveria ser, se eu quiser ficar com ele devo aceitar tudo calada e fingir que nada me atinge. E por amar ele fechei meus olhos, aceitei seu colo porque por mais que doesse ali, com ele, era o lugar que eu queria ficar.
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