Episódio 16

1450 Words
O restaurante Gilded Lily era o epítome do luxo nova-iorquino: tetos de pé-direito duplo com molduras folheadas a ouro que pareciam observar os clientes como divindades silenciosas, lustres de cristal que lançavam uma luz âmbar suave sobre os seus rostos e um pianista tocando melodias melancólicas num canto escuro. O ar, denso e sofisticado, cheirava a perfume, couro novo e uma redução de vinho tinto que se misturava ao murmúrio polido da elite de Manhattan. Sebastian e Elizabeth compartilhavam uma mesa num canto isolado, envoltos numa bolha de isolamento que parecia mais uma prisão do que um refúgio. Ela usava um vestido de seda esmeralda que realçava a sua elegância natural, mas seus ombros estavam ligeiramente caídos, carregando o peso de uma reconciliação que parecia falsa, quase ensaiada, tudo em nome da reconstrução do relacionamento. Apesar da promessa de Sebastian de encontrar soluções, a atmosfera era de uma trégua frágil, uma espécie de teatro silencioso onde o tilintar dos talheres contra a porcelana soava como uma acusação de traição. — Como foi com a terapeuta? Perguntou Sebastian. Elizabeth engoliu em seco. — Foi ótima. Sinto que estamos progredindo, não acha? Sebastian estava prestes a mentir para ela quando uma figura familiar quebrou o silêncio do seu restaurante na noite de sexta-feira. Nathaniel atravessou a mesa com a desenvoltura de quem era dono do lugar, de braço dado com uma modelo loira de vestido justo. Ao avistar a mesa, os olhos de Nathan brilharam com um brilho genuíno e, sem hesitar, ele se aproximou, deixando a sua acompanhante para trás. — Que coincidência absolutamente linda! Exclamou Nathan, sua voz vibrante dissipando instantaneamente a tensão na mesa. Ele ignorou completamente Sebastian, a sua atenção fixa em Elizabeth com uma intensidade que a fez endireitar a postura. Ele a viu tão linda que o seu coração se partiu. — Eli, juro que te vi da entrada. Não precisei procurar a mesa, apenas segui a luz que você irradia. Você é... simplesmente espetacular. É um crime este lugar ser tão escuro, porque quando você está aqui, rouba a cena das lâmpadas. Nathan inclinou-se e pegou a mão de Elizabeth para beijá-la. Não foi um cumprimento educado ou rápido. Ele lhe deu um longo beijo nos nós dos dedos enquanto a segurava com uma firmeza que beirava a ousadia, forçando-a a manter contato visual. Elizabeth sentiu um calor repentino que nada tinha a ver com o vinho. — Oi, Nathan. Ela respondeu, soltando uma risadinha divertida, o primeiro som genuíno que saiu da sua boca em toda a noite. — Que gentil, como sempre. O que você está fazendo aqui? Está aqui para fechar um negócio ou partir um coração? — Procurando um pouco de beleza, embora eu veja que você já a roubou de toda a sala. Respondeu Nathan com uma admiração que não fez nenhum esforço para esconder. Contudo, ao observar com mais atenção, o seu olhar experiente detectou a fissura nos seus olhos. Percebeu que o brilho nos olhos de Elizabeth era vítreo, uma faísca que não chegava a ser de felicidade genuína. Havia uma sombra sob a maquiagem, como uma tristeza oculta que apertava o seu peito e a fazia apertar a mão com mais força. Sebastian, que segurava a taça de vinho com tanta força que os seus nós dos dedos estavam brancos, encarou o parceiro com um olhar gélido. A fúria do ciúme queimava na sua garganta. Não porque amasse Elizabeth loucamente, mas por causa daquele senso de posse que Nathan desafiava a cada palavra e a cada gesto. — Nathaniel, vejo que você não consegue passar por uma mesa sem interromper o jantar de todos. Murmurou Sebastian, com a voz afiada como uma navalha. — Espero que volte para a sua mesa. — Ah, qual é, Sebas. Não seja tão possessivo, embora eu entenda perfeitamente; com uma mulher dessas ao meu lado, eu também não gostaria que ninguém chegasse a menos de um quilômetro de distância. Retrucou Nathan com total audácia, finalmente olhando para o parceiro com um sorriso zombeteiro que dizia tudo. Elizabeth olhou para a mulher que se aproximava, e Nathan a segurou pela cintura, do jeito que Sebastian não a segurava mais. Ela sentiu uma pontada de ciúme da mulher, mas a afastou. — Apresentações rápidas, esta é Chloe. Chloe, este é o homem mais sortudo do mundo. Disse ele, apontando para Sebastian com puro sarcasmo. — E a sua brilhante esposa, a verdadeira razão pela qual este restaurante tem alguma classe. — Prazer em conhecê-la. Murmurou Chloe com uma voz oca, sentindo-se um acessório desnecessário em meio à intensidade da cena. Elizabeth olhou para a modelo com uma curiosidade melancólica, imaginando se aquela garota também despertava nos homens a chama que ela sentia ter perdido. Depois de algumas palavras de Chloe, Nathan preparou-se para sair, mas antes de soltar a mão de Elizabeth, inclinou-se para mais perto, baixando a voz para que só ela pudesse perceber a sua sinceridade. — Não deixe essa luz se apagar, Eli. O mundo está muito cinza sem ela. Disse ele, lançando-lhe um olhar intenso. — Te vejo na firma, parceiro. Tente fazer jus à sua empresa, se puder. Nathan saiu, deixando para trás um rastro de carisma e uma mesa que agora parecia mais fria do que antes. Sebastian engoliu o seu vinho de uma vez, o rosto endurecido por uma raiva contida, enquanto Elizabeth encarava o seu reflexo na colher de prata, sentindo-se mais sozinha do que nunca. Quando se retiraram para sua própria mesa após a reunião, Eli observou o casal partir. — Eu não sabia que o Nathan tinha namorada. Ela comentou, tentando quebrar o gelo. — Eles ficam bem juntos. Ela é linda, tem um certo frescor… Não sei, eles parecem combinar. Estão juntos há muito tempo? Sebastian soltou uma risada seca e sarcástica enquanto cortava a carne. O rangido da faca contra a porcelana o irritou. — Namorada? Não me faça rir, Elizabeth. O Nathan não sabe o que essa palavra significa. Aquela garota é só um caso passageiro. Amanhã será outra com a mesma cor de cabelo. Ele não se compromete com ninguém. A ideia de casamento o horroriza. Ele só gosta de pular de uma mulher para outra, buscando o prazer do momento. — Bem, ele pareceu muito atencioso com ela. Insistiu Elizabeth, sentindo uma pontada de inveja pela forma como ele havia tocado o seu cóccix. — Pelo menos ele parece gostar da companhia dela. Às vezes, o prazer do momento é mais sincero do que um compromisso vazio, não acha? Sebastian bateu os talheres na mesa e a encarou. Os seus olhos estavam vermelhos de uma fúria fria. — O que você chama de atenção, eu chamo de espetáculo. Disse ele, sério, irritado e furioso. — Nathan é um predador, Elizabeth. Ele coleciona mulheres como troféus de caça para alimentar o seu ego. Não se deixe enganar por seus modos cavalheirescos. Ele usa essa lábia barata com todas as mulheres. É patético ver um homem da idade dele se comportando como um adolescente cheio de hormônios. — Eu não o achei patético. Retrucou Elizabeth, mantendo a voz baixa. — Achei que ele soubesse como fazer uma mulher se sentir especial. Nathan tem um carisma difícil de ignorar. Mesmo com a acompanhante presente, ele fez questão de ser gentil comigo. — Gentil! Sebastian inclinou-se para a frente, sibilando. — Ele foi insolente. Apalpou a sua mão bem na minha frente, e você ficou lá parada, sorrindo como uma idi*ota. Não elogie o carisma dele, Elizabeth. Aquele homem não respeita nada — nem as suas esposas, nem seus sócios, e certamente não os limites do casamento de outro homem. Elizabeth baixou o olhar para o prato. As palavras de Sebastian sobre a suposta falta de moral de Nathan a fizeram lembrar da solidão que sentia no seu casamento. Ela teria preferido a honestidade de um encontro casual mil vezes ao desprezo de um marido que não a enxergava. Enquanto isso, na sua mesa, Nathaniel não tocou em nada. Ignorou os comentários vazios de Chloe e observou Elizabeth à distância. Percebeu como ela forçou um sorriso e como a sua postura se tornou cada vez mais defensiva. O seu instinto estava certo; seu espírito parecia quebrado, extinto. Nathan tomou um gole da sua bebida e suspeitou que o culpado estivesse sentado bem em frente a ela. ‍​‌‌​​‌​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​‌‌​​‌​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌​‌‌‍
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