Episódio 15

1118 Words
Sete dias depois, o peso do silêncio no consultório parecia radicalmente diferente. Desta vez, o sofá de veludo cinza não lembrava um campo de batalha, mas sim uma espécie de cadeira elétrica. O assento ao lado de Elizabeth estava vazio e, pela primeira vez em muito tempo, ela não sentiu a necessidade de controlar os seus gestos ou medir o tom das suas palavras por medo da reação de Sebastián. Estar sozinha com a médica era como finalmente poder se libertar. A Dra. Arisandi a observou por um instante, percebendo como Elizabeth se permitiu afundar um pouco mais no assento, liberando a tensão na coluna. — Elizabeth, agora que estamos sozinhas, vamos conversar sobre você, fora dessa dinâmica de casal que às vezes nos obriga a representar um papel. Começou a médica, acomodando-se na cadeira e fixando um olhar empático nela. — Há mais alguém na sua vida? Alguma distração, ou uma nova faísca que esteja desviando o seu interesse... — Não, absolutamente ninguém. Respondeu Elizabeth. A sua voz não vacilou. Nasceu de uma certeza absoluta que nublou os seus olhos com a intensidade do sentimento. — Eu amo Sebastián. Apesar deste muro que nos separa e das noites em claro, ele é o homem com quem escolhi construir o meu mundo. Não tenho olhos, não tenho pensamentos, não tenho espaço na minha vida para mais ninguém. A minha lealdade não é uma obrigação, é a minha identidade, e… Sebastián é a minha vida, doutora. — Entendo. E você? Perguntou a terapeuta, inclinando-se para a frente com atenção clínica e voz baixa. — Você desconfia dele em algum canto da sua mente? Elizabeth soltou uma risada baixa e amarga e balançou a cabeça, como se a própria ideia fosse um sacrilégio contra a imagem que tinha do marido. Ela não podia deixar que pensamentos intrusivos vencessem. — Não, doutora. Sebastián nunca me deu nenhum motivo para duvidar dele. Ele sempre foi um homem extremamente fiel, respeitoso, dedicado às suas responsabilidades de uma forma quase devota. Respondeu ela imediatamente. — Ele é impecável nesse aspecto. Ele é um cavalheiro à sua maneira. O problema dele é o estresse, essa obsessão com o sucesso da empresa que o consome... mas nunca a falta de lealdade. Eu confiaria a minha vida a ele sem hesitar. A Dra. Arisandi permaneceu pensativa e silenciosa, juntando as pontas dos dedos enquanto analisava a fé inabalável da mulher à sua frente. Hoje em dia, poucas mulheres se entregam dessa forma. A toxicidade reina suprema. As mulheres abandonam os seus casamentos à menor suspeita. Alguém capaz de lidar com as coisas com a cabeça fria é praticamente inexistente. — Não estou necessariamente sugerindo infidelidade, Elizabeth, mas quero que você considere algo. Disse a médica gentilmente. — Se você sente que já tentou de tudo — e com isso quero dizer lingerie, jogos, comunicação — e nada funciona, talvez o problema não esteja no casamento, mas sim em como fatores externos invadiram a sua psique. Às vezes, o que percebemos como estresse é uma barreira que construímos nós mesmas. — Confio nele completamente. Insistiu Elizabeth, cerrando os punhos no colo num gesto defensivo. — Quero salvar o meu casamento porque não consigo imaginar um futuro sem ele. — Então precisamos agir. Declarou a médica. — Faça a sua parte para reduzir a interferência. Tente viajar menos a trabalho. A distância física costuma ser o prelúdio para a distância emocional. Passe mais tempo com ele, pergunte como ele está se sentindo, não apenas como está a agenda dele. O estresse é um inimigo silencioso, mas é combatido com uma presença que não julga, mas sim apoia. Elizabeth baixou o olhar, absorta no desenho do tapete e nas batidas frenéticas do seu coração. Ela havia pensado em muitas coisas desde a primeira consulta, e uma pergunta que lhe queimava a garganta e lhe roubava o sono veio à tona, carregada de uma vulnerabilidade que fez o seu queixo tremer. — Doutora... estou me humilhando? Ela sussurrou, uma única lágrima escorrendo pela sua bochecha, que ela rapidamente enxugou. — Quer dizer… ao me esforçar tanto para salvar isso, ao comprar lingerie que me faz sentir exposta, ao implorar praticamente por um toque ou um pouco de atenção que ele parece não querer me dar… Estou perdendo a minha dignidade como mulher? Sou patética por ser tão persistente? A expressão da Dra. Arisandi suavizou-se completamente. Ela levantou-se, aproximou-se um pouco e balançou a cabeça firmemente, transmitindo uma certeza quase maternal. — De jeito nenhum, Elizabeth. Ela respondeu. — Escute com atenção: tentar salvar o que você ama nunca é, em hipótese alguma, humilhante. Querer se reconectar com o homem que você ama não é um ato de fraqueza. É ser uma mulher comprometida que honra os seus votos matrimoniais na saúde e na doença, na alegria e na crise. Se todos nós jogássemos tudo fora ao primeiro sinal de dificuldade ou ao primeiro obstáculo, o que seria do mundo? Seria um lugar vazio. Ele fez uma pausa para que Elizabeth processasse a suas palavras antes de continuar. Ela não tolerava a infidelidade, mas também não tolerava a facilidade com que tudo podia ser descartado com base em suposições infundadas. Para alguém decidir romper um compromisso, precisa passar por certas etapas; etapas que ela não havia vivenciado. — Se você não tem dúvidas sobre a integridade dele e ele nunca lhe deu motivos para desconfiar, então você não está se humilhando. Você está defendendo o seu relacionamento. Quando um homem está sob extrema pressão, o seu corpo geralmente é o primeiro a ceder; o estresse crônico bloqueia o desejo, é uma resposta fisiológica, não uma rejeição pessoal a você. O que você está fazendo é lutar pelo seu lar. Não é falta de orgulho, Elizabeth, é excesso de amor e coragem. ‍Elizabeth assentiu com a cabeça, sentindo um peso invisível sair do seu peito ao ser compreendida. Ela se sentiu melhor. Saiu da sala de consulta com o coração renovado, pronta para ser o remédio para o marido. Contudo, enquanto caminhava em direção ao carro, convencida da nobreza da sua luta, Sebastián estava longe dessa convicção. Na solidão do seu escritório, o homem por quem ela estava disposta a sacrificar o seu orgulho acabara de receber uma mensagem de Victoria que dizia: "Te vejo no escritório amanhã cedo. Temos assuntos pendentes que não podem ser resolvidos na terapia."​‌‌​​‌​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​‌‌​​‌​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌​‌
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