O consultório da Dra. Arisandi cheirava a chá de jasmim, e uma serenidade artificial, criada com difusores de óleos essenciais, só servia para deixar Sebastián mais nervoso. A sala, decorada em tons neutros e madeira clara, parecia uma caixa de ressonância onde cada mentira ecoava.
Sentados num sofá de veludo cinza, Sebastián e Elizabeth mantinham uma distância respeitosa; um abismo de tecido os separava, como se fossem dois estranhos dividindo um assento no metrô depois de um longo dia de trabalho.
A terapeuta os observava por cima dos óculos de armação fina, segurando um caderno que parecia pesar mais do que o denso silêncio que preenchia a sala. Após alguns segundos de observação clínica, ela quebrou o gelo, na esperança de que um deles começasse. Deu-lhes liberdade para falar, mas ambos estavam paralisados.
— Bem. Começou a médica com uma voz pausada. Aquela voz que convidava à confissão. — Digam-me o que os traz aqui hoje. O que vocês sentem, lá, no fundo, que mudou entre vocês?
— Bem. Começou a médica com uma voz pausada. Aquela voz que convidava à confissão. — Digam-me o que os traz aqui hoje. O que vocês sentem, lá, no fundo, que mudou entre vocês? Sebastián pigarreou, sentindo a gola da camisa apertar de repente, e ajustou o relógio num gesto mecânico de controle. Elizabeth, por sua vez, entrelaçou os dedos com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos, buscando nas próprias mãos o apoio que não encontrava ao lado dele.
— Sentimos uma desconexão. Disse ela finalmente, rompendo a barreira do silêncio com uma honestidade que cortou o ar e a fez sentir-se insegura diante de uma terceira pessoa. — Queremos ficar juntos, doutora, queremos mesmo... mas é como se houvesse uma parede invisível entre nós. Nos vemos, conversamos, mas não conseguimos nos tocar intimamente.
A Dra. Arisandi assentiu lentamente, anotando algo rapidamente antes de lançar uma pergunta direta que fez Sebastián se enrijecer como uma corda prestes a arrebentar.
— Vocês estão entediados com o relacionamento? Ela perguntou, alternando o olhar entre os dois. — Sentem que o desejo simplesmente se dissipou por causa da rotina ou da falta de admiração mútua?
— Não é isso! Sebastian disparou.
A sua resposta foi tão imediata que beirava a defensiva. Ele se virou para Elizabeth, examinando os seus olhos com uma intensidade que parecia genuína e uma sinceridade que o magoava, pois sabia o quanto daquilo era teatro e o quanto era remorso.
— Eu amo a minha esposa. Afirmou, e por um segundo a sua voz vacilou. — Eu a acho incrivelmente atraente. Ela é uma mulher brilhante e linda. O problema não é que eu não a ame… é que às vezes, simplesmente não consigo funcionar. Eu travo. É como se o meu corpo e a minha mente estivessem em lugares diferentes.
A terapeuta voltou a sua atenção para ele, analisando-o com a paciência de um entomologista estudando um espécime complexo.
— Sebastian, o desejo não é algo que acontece espontaneamente; ele é cultivado. Ela observou, apertando a caneta com força e olhando para Sebastian como se estivesse examinando um novo espécime. — O que você faz como marido para manter a chama acesa? Como você nutre esse espaço ínti*mo quando as luzes se apagam?
Sebastian tocou a gola da camisa novamente e afrouxou um pouco a gravata. Era como se a mulher pudesse ver através das suas mentiras, e ele imediatamente se arrependeu de ter concordado em fazer terapia. Essas mulheres eram mais intuitivas do que um detetive. Se ele cometesse um erro, ela diria a Elizabeth que ele tinha uma amante.
— Eu faço o que um homem que adora a sua esposa deve fazer. Ele respondeu, num tom ligeiramente defensivo, quase indignado com a dúvida ou a pergunta. — Nós jantamos nos melhores restaurantes da cidade, eu a elogio constantemente, digo a ela como ela é linda todas as manhãs antes de ela sair da cama, e a amo com todo o meu coração. Tento ser o parceiro que ela merece, emocional e socialmente. Não ignoro os detalhes, doutora.
Elizabeth soltou um suspiro curto. Era um ar carregado de uma decepção que ela vinha acumulando há meses. Foi um gesto quase inaudível, mas a médica o percebeu imediatamente, parando a caneta no ar. Exatamente como Sebastian disse: são tubarões que sentem o cheiro de sangue, especialmente quando a suspeita é plantada.
— Elizabeth, como você está se sentindo? Ela perguntou, voltando a sua atenção para Elizabeth. — Você sente esses elogios como uma conexão real?
Elizabeth juntou as mãos no colo.
— Viajo muito a trabalho, mas quando estou aqui, tento de tudo. Ela confessou, com a voz trêmula ao revelar a intim*idade do seu quarto a um estranho. — Comprei lingeries que nunca imaginei que usaria, trouxe brinquedos para o quarto, até tentei se*xting e fazer ligações sugestivas para que ele pensasse em mim durante o dia. Sinto como se estivesse tentando acender uma fogueira num quarto sem oxigênio. Nada parece ter um efeito duradouro.
Ela olhou para Sebastián, que baixou o olhar para o chão, incapaz de encará-la enquanto ela relatava as suas tentativas frustradas.
— Começa a funcionar. Continuou Elizabeth, uma mistura de frustração e profunda tristeza nublando os seus olhos, mas impedindo-a de derramar uma lágrima. — Por um instante, parece que voltamos a ser nós mesmos, que o desejo está de volta, que ele finalmente me reconquistou… mas então, Sebastián desaparece. Ele fica frio, se afasta e me deixa sozinha no meio da cama, de costas para mim, se perguntando o que eu fiz de errado e onde errei desta vez.
A Dra. Arisandi permaneceu em silêncio por alguns segundos, observando a tensão nos ombros de Sebastián. Ele parecia esconder um fardo muito maior do que o simples estresse que geralmente usava como escudo. Ela também anotou o que a mulher lhe dissera.
— Sebastián. Perguntou a médica gentilmente. — Elizabeth descreve um afastamento emocional repentino. O que lhe passa pela cabeça nesses momentos? Há algo nela que o faça querer ficar longe?
— Não, absolutamente nada! Ele exclamou, reforçando a mentira com urgência. — Elizabeth é perfeita. É o estresse do trabalho, doutora. Só isso. Tenho casos há meses que me tiram o sono, e responsabilidades no escritório que me consomem a energia. Às vezes, quando chego em casa, a minha mente ainda está nos contratos, nas assinaturas, nos problemas dos clientes. Não tem nada a ver com ela, eu juro. É só que o trabalho me consome.
A médica insistiu.
— O seu trabalho é mais forte do que o seu desejo pela sua esposa? Ela perguntou. Sebastián pressentiu a reviravolta que o afastaria do trabalho.
— É um fardo, uma pressão. Insistiu, sentindo o suor frio nas palmas das mãos e tentando se defender. — Sinto-me mentalmente exausto. Adoro a minha esposa, mas o estresse é uma doença que me paralisa. Só preciso de um tempo para que as coisas no escritório se acalmem.
A terapeuta assentiu e anotou. Os minutos da consulta continuaram a passar em meio a uma troca de justificativas da parte dele e silêncios dolorosos da parte dela. A Dra. Arisandi observava a dinâmica atentamente, percebendo como Sebastián se fechava imediatamente sempre que a conversa abordava algo mais pessoal do que o seu horário de trabalho. Ele escondia algo intenso.
Finalmente, a médica fechou o seu caderno e colocou a caneta sobre a mesa, encerrando a sessão.
— Abordamos alguns pontos muito importantes hoje. Disse ela com voz profissional, porém firme. — No entanto, para aprofundar esses bloqueios e a raiz dessa desconexão, acredito que uma abordagem diferente seja necessária. Para a próxima consulta, gostaria de conversar com cada um de vocês individualmente.
Sebastián e Elizabeth trocaram um olhar, surpresos com a sugestão. Ele sentiu um aperto no estômago ao pensar em ficar sozinho com a terapeuta, sem Elizabeth ali para validar a sua fachada de “marido perfeito”. O que ele diria quando ela o confrontasse?
— Daremos a cada um de vocês espaço para se expressarem sem filtros. Concluiu a médica, levantando-se. — Nos vemos na próxima semana para as consultas individuais e lembrem-se de algo muito importante sobre mim: eu sei quando vocês estão mentindo.