Os funcionários, acostumados com o passo rápido e jovial dos sócios, pareciam se fundir às paredes naquele dia, evitando contato visual com Nathan. Ele não estava andando. Avançava como uma força da natureza, com uma pasta debaixo do braço que pesava mais do que o piso de mármore do prédio. Ao chegar ao escritório de Sebastian, não houve formalidades nem cumprimentos. A porta bateu contra a parede com um estrondo que anunciou o fim de uma era de camaradagem.
Sebastian estava desleixado na sua poltrona de couro, a mesma onde, dias antes, havia profanado o seu casamento. Quando ergueu os olhos, eles estavam vermelhos não só pela falta de sono, mas também ardiam de fúria primitiva. Ele viu Nathan, elegante, vibrante e sentiu, mais uma vez, o desgosto de que aquele era o advogado de Elizabeth.
— Não quero te ver, Nathan. Cuspiu Sebastian, a voz deslizando como uma serpente pela mesa. — E não se acomode muito perto de Elizabeth. Este é um momento difícil no nosso casamento, uma pausa para reflexão, um colapso nervoso causado pelo seu estúp*ido desejo de interferir. Vou reconquistá-la porque ela é louca por mim. Ela é minha esposa, ela me pertence por lei, por história e por amor, entende? Ela é minha!
Nathan não respondeu. Ele conhecia a agonia de um homem se afogando, e este era um deles. Era o mesmo desespero que via em seus clientes quando estavam perdendo a cabeça e o controle das suas vidas. Sebastian devia saber que advogados farejavam o sangue da suas presas como tubarões, e Sebastian estava sangrando até a morte.
— Como você pôde fazer isso comigo, Nathan? Ele continuou, baixando a voz para um tom de reprovação. — Pensei que você estivesse me protegendo, não esperando o momento perfeito para me apunhalar pelas costas. Você a trouxe ao meu escritório de propósito, não foi? Você sabia que eu estava com Victoria, sabia que Elizabeth entraria e veria tudo. Você a empurrou para o abismo! Você é um traidor, Nathan. Usou a minha confiança para entrar na minha casa e agora quer usar a dor dela para mantê-la aqui.
Nathan não recuou um centímetro. Permaneceu ereto, a sua calma em nítido contraste com o desespero de Sebastian. Olhou para ele por um longo segundo, com uma expressão que misturava decepção e repulsa.
— Traidor? Perguntou Nathan, com a voz carregada de desafio. — Você está enganado, Sebastian. Eu não a levei para o abismo. Eu segurei a lanterna para que ela visse que você a jogou lá meses atrás. Você diz que ela lhe pertence? Elizabeth não é um ativo desta empresa, não é uma propriedade da qual você pode se desfazer como bem entender.
Nathan caminhou em direção à mesa, a sua presença preenchendo o ambiente. Era grande, musculoso, másculo e protetor.
— Traidor? Perguntou Nathan, com a voz carregada de desafio. — Você me culpa por tê-la deixado entrar, mas não se culpa por ter outra mulher na sua mesa enquanto a sua esposa chorava na terapia por causa de uma solidão que você mesmo criou. Você me chama de traidor porque eu estava lá por ela, quando o verdadeiro ato de traição aconteceu cada vez que você olhou para ela nos olhos e mentiu para salvar as aparências. Você não a perdeu porque eu interferi, Sebastián. Você a perdeu porque foi tão covarde que pensou que poderia ter tudo: o prestígio do casamento e a sujeira da mentira.
Nathan bateu a pasta azul na mesa, cortando o ar.
— Assine isso. Ele exigiu, profissional e elegante. — Se você realmente a amou, pare de tentar possuí-la como um troféu e tenha a decência de libertá-la. Porque se você decidir lutar, eu lhe garanto, você não estará enfrentando um sócio. Estará enfrentando um homem que não permitirá que você o toque novamente.
— Não vou assinar nada! Nada! Sebastian gritou, batendo com o punho na mesa, fazendo o papel tilintar. — Vou contestar cada cláusula. Vou arrastar isso por dez anos, se for preciso. Vou estrangulá-la financeiramente, vou levá-la à falência até que ela volte para mim. Até que ela me perdoe e veja que eu a amo de verdade.
— Você está tão enganado. Sussurrou Nathan. — Ela é tudo o que você nunca será. Ela é corajosa, ela tem integridade. Ontem, enquanto você se humilhava, dando desculpas patéticas, ela teve a coragem de queimar o seu passado no jardim. Ela não precisa de você, Sebastian. Você é quem está apavorado porque sabe que, sem ela para projetar a imagem de um homem respeitável, você é apenas um adúltero qualquer em ternos caros.
— Saia do meu escritório! Gritou Sebastian, apontando para a saída com um dedo que tremia de puro ódio, sem querer ouvir mais nada dele. — A partir deste momento, você é meu inimigo. Vou destruí-lo. Vou usar todos os meus contatos, todos os juízes que nos devem favores, todos os seus segredos sujos para cassar sua licença. Vou deixá-lo na rua, implorando por um caso. Você escolheu o lado errado, Nathaniel! Você escolheu uma mulher desprezada em vez do homem que o enriqueceu!
Nathan olhou para ele com pena.
— Eu não escolhi você porque não há mais nada para escolher, Sebastian. Tudo o que restou é uma casca cheia de ego. A minha lealdade era ao homem que eu pensava que você fosse. Esse homem está morto. Disse ele, respirando fundo antes de sair. — Aproveite a sua solidão, parceiro.
Nathan virou-se e saiu, passando por Victoria na porta. Ela sorriu presunçosamente, regozijando-se com o desastre. Nathan passou por ela sem sequer reconhecer a sua existência, como se ela fosse uma mancha no vidro que logo seria apagada.
Victoria entrou e trancou a porta para não ser incomodada. O clique da fechadura ecoou no escritório como um veredicto, o fim definitivo da vida que Sebastian conhecia. Ela se aproximou dele. Ele respirava pesadamente, o olhar desfocado, as mãos enterradas nos cabelos. Ele não parecia o advogado implacável que costumava ser. Parecia um homem à beira do colapso.