Sebastian passou a noite em claro, ruminando uma estratégia na penumbra de um hotel barato, convencido de que o seu poder de persuasão seria suficiente para reconquistar o coração de Elizabeth. Contudo, ele não contava com o fato de que o amor, quando traído de forma tão cru*el, não se transforma necessariamente em ódio, mas sim numa barreira protetora necessária.
Victoria ligou para ele a noite toda, chegando a enviar mensagens eróti*cas, tocando-se enquanto pensava nele, mas Sebastian só ligou para Elizabeth até desligar o telefone. Furioso ao descobrir que ela estava com Nathan, chorando no seu ombro, ele fez Sebastian quebrar o telefone contra o espelho do quarto do hotel e puxou os seus cabelos com força, até doer. Ele se recusava a deixar Elizabeth ir. Ela não podia deixá-lo. Tantos anos de felicidade, de prazer, de casamento. Ela não podia jogar tudo para o infe*rno por causa de uma infidelidade estúp*ida.
Com olheiras profundas e vestindo as mesmas roupas do dia anterior, ele pegou as chaves do carro e voltou para casa antes do amanhecer. Ele havia comprado flores, chocolates e até mesmo levado aquele café com leite que ela tanto gostava de compartilhar com ele no escritório.
Chegou à casa assim que o sol começava a despontar no asfalto. Ao parar o carro e sair com as rosas e os chocolates, um cheiro forte e acre o atingiu. Cheirava a madeira queimada. Franziu a testa, saindo do carro com uma urgência que pesava no seu peito, mas ao se virar para o jardim, parou abruptamente, com o rosto contorcido em puro horror. Havia um incêndio, um incêndio enorme.
No meio do gramado, uma fogueira crepitava ferozmente. Sebastian observou o fogo subir. Não era madeira que alimentava as chamas. Eram seus ternos de seda, os seus sapatos e aquelas camisas brancas que Elizabeth costumava passar com uma dedicação que ele jamais mereceu. Elizabeth havia colocado tudo para ele pegar, mas como deixara as sacolas pretas do lado de fora, quando Nathan saiu, em vez de chorar, ela terminou de esvaziar o armário dele para queimar tudo. Chega de camisas brancas para passar, chega de sapatos para engraxar. Chega de gravatas com cheiro daquela vad*ia da Victoria. Chega!
Elizabeth estava diante da fogueira. Embora a sua postura fosse firme, suas mãos, unidas à frente do corpo, revelavam um leve tremor. Ela segurava uma das camisas favoritas de Sebastian e, ao vê-lo chegar, jogou a peça no fogo, que a consumiu em segundos. O brilho das chamas iluminou o seu rosto, onde a tristeza lutava contra a determinação.
— Mas o que você fez?! Sebastian rugiu, correndo em direção ao fogo para ver a suas roupas carbonizarem da mesma forma que o seu casamento havia sido consumido pelas chamas. — Você está louca?! São minhas roupas, minhas coisas!
Sebastian procurou por seus pertences, mas ela apenas observava a camisa queimar. Não havia lágrimas nos seus olhos, apenas ressentimento.
— Suas coisas... Você se importa mais com roupas do que com o meu coração?
Sebastian estava no piloto automático. Ele tinha roupas que haviam sido desenhadas exclusivamente para ele. Roupas que ela comprara para ele, roupas que ela limpara com esmero das manchas de vinho das comemorações. Não eram apenas as roupas que estavam queimando, eram as lembranças.
— Elizabeth, pare! Ele gritou, alarmado. — Você não pode fazer isso.
Elizabeth não piscou, e as chamas se refletiam nos seus olhos.
— Você não deveria ter me traído, e você não se importou.
Sebastian a observou procurar instintivamente por outra das suas camisas, aquela que ele lhe dera no segundo aniversário de casamento, aquela que ele raramente usava para não estragar. Elizabeth reconheceu a peça, e quando finalmente encontrou o seu olhar, ergueu a camisa com a mão fechada.
— Você tem ideia do quanto eu te amei, Sebastian? Ela perguntou, com ódio transbordando das suas palavras. — Você tem ideia do que fez comigo?
Elizabeth encarou a camisa.
— Isso é só uma roupa. Você pode comprar cem camisas idênticas, até mesmo combiná-las, mas o que você fez comigo não tem volta. Sussurrou ela enquanto o fogo crepitava. — Você me queimou viva.
E ela jogou a peça de roupa nas chamas. Sebastian estendeu os braços em direção ao fogo, querendo recuperar algo que não tinha mais salvação.
— Pare, pare! Você está agindo como uma louca.
Elizabeth olhou para ele novamente. Os seus olhos não estavam vazios, mas cheios de uma imensa angústia espiritual. Ela não chorava mais, mas na sua voz, podia-se ouvir o eco de uma ferida que levaria anos para cicatrizar.
— Louca? Ela repetiu, a voz rouca de doçura, com uma sensação de queimação na garganta. — Eu fui louca por acreditar em você. Fui louca por tentar salvar um homem que me abandonou muito antes de eu sequer perceber. Isso não é loucura, Sebastian, é o fim.
Ela deu um passo em direção a ele e, por um instante, o calor do fogo pareceu se fundir com a intensidade do seu olhar sofrido.
— O que você vê queimando aí é o último vestígio da sua presença na minha vida. Ela sussurrou, gélida. — Não é ódio, Sebastian… é só que não sobrou nada de você neste lugar que não me dê náuseas.
Sebastian não suportou o peso e a dureza do olhar dela.
— Liz, por favor! Ele implorou, caindo de joelhos na grama, a fumaça manchando o seu rosto e as mãos sujas de cinzas por tentar salvá-la. — Vamos encontrar uma solução. Podemos voltar à terapia, sair desta cidade, recomeçar... Eu te amo, Elizabeth, juro pela minha vida! Não consigo viver sem você.
Elizabeth soltou um longo suspiro que pareceu arrancar os últimos vestígios do seu casamento do seu peito. Ela se inclinou para ele, não com a fúria vulcânica de antes, mas com uma decepção tão profunda e definitiva que a feriu mais do que qualquer grito.