Capítulo 2

1557 Words
Encosto-me na poltrona, girando o copo de uísque entre os dedos. Alícia chegará em breve. Liderar essa família exige sacrifícios — e esse casamento é apenas mais um deles. Desde a morte do meu pai, carrego o peso de manter tudo de pé: os negócios, os aliados, a lealdade daqueles que juraram fidelidade ao nosso nome. Ao meu lado, Juan revisa um relatório em silêncio, atento a cada detalhe. Nossos inimigos estão mais próximos do que nunca, e essa aliança com a família dela é a jogada certa para fortalecer nossas raízes… antes que alguém tente arrancá-las de vez. — Winter disse que sua noiva é bonita. — comenta Juan, largando os papéis. — Bonita e muito gostosa. — Quer servir de alimento para os meus cachorros? — minha voz sai firme, sem espaço para brincadeiras desrespeitosas. Juan ergue as mãos em rendição, mas continua sorrindo, insolente. — Ah, qual é cara. — diz ele, recuando como o covarde que é. — Que tal uma despedida de solteiro? No melhor cabaré da cidade. Você tem que conhecer a Duque, ela é um espetáculo. — Duque é o nome da prostitua?— franzi o cenho, um pouco enojado por Juan achar que posso comer a mesma b****a que seu p*u e de vários outros homens entrou. — Duquesa. Duque, para os íntimos. Solto uma risada baixa, sarcástica. Nada mais íntimo do que se deitar com metade da cidade por dinheiro. Juan realmente se supera. — Dispenso, tenho minha honra e não achei meu p*u no lixo. — Ajusto a gravata com calma, sem desviar o olhar. Ele ri, sem disfarçar o deboche. — Então, só vai ter a festa de casamento? — A mãe dela disse que não era necessário. A filha não vê motivo para comemorar estar ao lado de um homem como eu. — Encho o copo de uísque e tomo um gole, sem pressa. Juan arqueia uma sobrancelha, se encostando na parede com ar cínico. — E você? Vê motivo pra comemorar? Dou uma leve risada, seca. — Eu vejo oportunidade. E isso sempre vale um brinde. Ele assente devagar, com aquele sorriso de quem entende, mas está longe de concordar. — Só toma cuidado pra não brindar com veneno. Essas meninas de rosto bonito e alma rebelde adoram estragar planos bem feitos. — Quem disse que quero que ela obedeça? — olho por cima do copo, a voz baixa, quase entediada. — O jogo fica bem mais interessante quando a peça acha que está jogando também. — Ela tem a língua afiada. Xingou alguns dos seus homens. — Juan ri. — Urso ficou furioso, quase perdeu o controle. Largo os papéis sobre a mesa e caminho até ele. Agarro sua gravata com força e aperto, o suficiente para fazê-lo engasgar. — E você achou engraçado? — murmuro, encarando seus olhos arregalados. — Da próxima vez, controle seus homens… ou eu é que vou perder o controle. Ela é minha responsabilidade. Se alguém ousar tocá-la porque "não se conteve", vai pagar caro por isso. — Solto-o com brutalidade. Juan tosse, tentando recuperar o ar. — Perdão, chefe. Sabemos que o senhor é um homem de palavra. — Ele se esforça para falar. — Vou garantir que Urso e os demais aprendam seu lugar. Massageio as têmporas. Alícia m*l chegou e já está me causando problemas. — Alguém confiscou o celular dela? — pergunto. Não quero nenhuma ligação, nenhuma mensagem, nenhum amigo ou amiga tentando bancar o herói. Isso não é um conto de fadas. Se alguém for e******o o bastante para me confrontar, não hesitarei em enterrar mais um corpo. — Não foi fácil conseguir o celular, mas no fim… ela acabou cedendo. — Como o esperado. Alicia ainda tem muito o que aprender. Ela acredita que tem escolha, que pode escapar. Mas não vai demorar até entender como o mundo realmente funciona. — Peça para Leslie caprichar no jantar de hoje. — Derramo mais uísque no copo. — E vê se usa algo mais formal. Essas suas roupas extravagantes doem nos olhos. — O que tem de errado com minhas roupas? — Juan ajeita a gravata, fingindo ofensa. — São feias. Te pago bem, então se vista de acordo. Ele dá uma risada seca e olha para o próprio terno vinho com estampa discreta. Os anéis nos dedos brilham sob a luz do escritório. — Isso aqui é estilo, irmão. Mas tudo bem, vou tentar não ferir sua sensibilidade com meu bom gosto. Dou uma leve risada, carregada de deboche. Minha família adotou Juan quando ele tinha doze anos, depois que os pais dele morreram, ele veio morar conosco. Desde então, ele se tornou meu melhor amigo e braço direito. Ele me irrita com esse jeito insolente, mas sei que, se o inferno abrisse as portas, Juan estaria ao meu lado. Ele ajeita a gravata e lança um último olhar provocativo antes de sair. Reviro os olhos e termino meu uísque. Algumas coisas nunca mudam. Encosto-me na cadeira, girando o copo com a bebida na mão, observando o líquido âmbar sem realmente vê-lo. A pilha de documentos à minha frente ainda exige minha atenção, mas minha mente está em outro lugar. Desde que meu pai se foi, tudo ficou sobre os meus ombros—os negócios, a reputação, o peso de um nome que não permite falhas. Liderar essa família não é uma escolha, é uma obrigação. Cada decisão, cada movimento é um risco, e o erro nunca é uma opção. O nome da família carrega um peso que vai além do ouro e da influência; é um fardo diário. Eu não sou apenas responsável pelos meus próprios passos, mas pelos de todos ao meu redor. E, se falhar, isso significará a queda de todos. Solto um suspiro e passo a mão pelo rosto. Será que o velho faria diferente? Será que aprovaria minhas decisões? Perguntas inúteis. Ele se foi, e eu sou o único que restou para manter tudo de pé. Levo o copo aos lábios e termino o uísque de um gole só. O gosto amargo desce queimando, mas não traz respostas. Apenas me lembra que em breve irei dividir todas as manhãs e noites com uma mulher que me odeia. Sorrio, um sorriso frio, quase divertido. Estou ansioso para conhecer minha futura esposa e sua língua afiada. Gosto de desafios, e não vejo a hora de ensinar o seu lugar. Afinal, ninguém entra na minha vida sem aprender as regras. E Alicia, querendo ou não, terá que se acostumar com isso. Ainda no escritório escuto o som dos pneus no cascalho da entrada. Coloco o copo vazio sobre a mesa e caminho até a janela. O carro preto para diante da escadaria principal, e o motorista sai primeiro para abrir a porta traseira. Alicia desce com movimentos calculados, como se carregasse uma armadura invisível. O vestido claro contrasta com a expressão fechada. Os cabelos loiros caem sobre os ombros, e por um momento, percebo o brilho sutil da luz refletindo neles. Ela ergue o queixo, os olhos varrem a fachada da mansão, avaliando cada detalhe, como se estivesse prestes a entrar em território inimigo. Interessante. Mesmo à distância, noto a tensão em seus ombros, a rigidez no modo como segura a bolsa. Está se preparando para uma guerra. Um sorriso curto surge nos meus lábios. Então, como se sentisse meu olhar, Alicia ergue os olhos na minha direção. Por um instante, o tempo parece desacelerar. A luz da entrada ilumina seu rosto, destacando os traços delicados e a pele macia. Os olhos azuis —cheios de desafio—seguram os meus sem hesitação. Não há medo, apenas uma firmeza irritante, como se estivesse deixando claro que não pretende se dobrar. Pego o celular no bolso e disco para Harold Brown. Ele atende no primeiro toque, como se já estivesse esperando por isso. — Ela chegou — digo, sem rodeios. Do outro lado, um suspiro aliviado. — E como ela está? Lanço um último olhar para Alicia, que permanece imóvel na entrada, observando tudo ao redor com atenção. Mas, no fim, seus olhos voltam para mim. E permanecem ali. — Intacta. — Faço uma pausa. — Bonita. E com uma arrogância que talvez você devesse ter me avisado. O silêncio do outro lado se alonga por um momento, antes que ele diga, num tom tenso: — Espero que você cumpra o que prometeu. — E espero que ela saiba o que custou estar aqui. — Encerro a chamada antes que ele possa responder. Guardo o celular e me viro para um dos meus homens, que aguarda discretamente próximo à porta. — James, quero um relatório completo sobre Alicia Brown — ordeno, sem tirar os olhos dela. — Família, histórico, rotina, até os silêncios. Entregue antes do amanhecer. — Sim, senhor — ele responde com firmeza e sai imediatamente. Alicia permanece imóvel no saguão, os braços cruzados, o queixo erguido. Está claramente irritada, talvez indignada com o lugar, com a situação — ou comigo. Mas não está assustada. Não desmorona, não implora, não pergunta nada. Qualquer outra, nessa hora, estaria aos prantos. Ela não. Ela me olha como se já tivesse decidido que não vai ceder. Como se soubesse exatamente quem é, mesmo em território inimigo. E isso… me intriga. Viro-me e sigo para o escritório, mas levo o peso daquele olhar comigo.
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