Capítulo 3

1321 Words
A mansão Castellano era exatamente como imaginei: imensa, impecável, fria. Mármore por todos os lados, corredores silenciosos, uma verdadeira masmorra de marfim. Daniel Castellano descia os degraus com calma, sem desviar os olhos de mim. A postura impecável, o terno alinhado, os cabelos negros bem penteados — tudo nele parecia calculado. Mas era o olhar acinzentado, firme e penetrante, que realmente se impunha. Ele não precisava dizer uma palavra para deixar claro quem mandava ali. — Espero que tenha aproveitado sua última noite de liberdade. — Ele disse, ao se aproximar. Levantei a cabeça para olhá-lo, e algo em mim se contraiu. Perto dele, me sentia pequena, como se o espaço ao meu redor diminuísse. Cruzei os braços, tentando manter a postura firme, mas minha respiração ficou ligeiramente mais pesada. — Digo o mesmo, não irei facilitar as coisas para o senhor. — Minha voz saiu mais controlada do que eu sentia, mas havia um nó na garganta. Eu não queria mostrar que estava nervosa, especialmente por causa dele. — Eu gosto de ordem. — Ele deu um passo à frente, sem desviar o olhar. — E de saber que as coisas funcionam como devem. Sustentei o olhar. Testá-lo não seria divertido. Seria perigoso. — Vai tentar me domesticar? Ele me encarou por um instante antes de se virar, encerrando a conversa. — Vou garantir que cumpra seu papel, querida. Querida… Daniel apenas deu de ombros antes de se afastar, abrindo caminho sem dizer uma palavra. Alguns funcionários surgiram para cuidar das minhas bagagens, enquanto uma mulher de meia-idade, fez questão de me conduzir por cada cômodo da mansão Castellano. A construção era antiga, mas bem preservada. Paredes de pedra clara contrastavam com grandes janelas de vidro, permitindo que a luz filtrasse suavemente pelos corredores. O piso de madeira polida refletia o brilho discreto dos lustres modernos, que substituíam os antigos candelabros. Os móveis mesclavam peças clássicas, como poltronas de couro e mesas de carvalho, com elementos contemporâneos de linhas retas e materiais metálicos. Câmeras estavam espalhadas por todos os lugares. — Cuidado com os cães do inferno lá fora — disse ela, rindo baixo enquanto abria a porta de vidro que levava à varanda. — Cães do inferno? — Sim, é como ele os chama. Lá fora, o jardim era vasto e bem cuidado, mas terminava abruptamente em uma área de mata escura. Perto dos portões de ferro, havia três cachorros da raça rottweiler. Engoli em seco. — E então… o que achou do seu quarto? — A voz de Daniel surge atrás de mim. — Prefiro o meu. — respondo sem me virar, fria. — Imagino. Mas é melhor se acostumar. A partir de agora, este é o nosso quarto. — Nosso quarto? — Viro lentamente, incrédula. — Eu não vou dormir com você. — E por quê não? — Porque você é um estranho. — disparo, sem hesitar. — Sou seu marido. — Ele rebate com a mesma calma cortante de antes. Me viro por completo, os olhos cravados nos dele. Daniel está encostado no batente da porta, mãos nos bolsos, expressão impassível. Inabalável, como sempre. — Você me forçou a isso. Me arrastou pra esse casamento sem o meu consentimento. — A raiva transborda na minha voz, quente, crua. — Não me venha agora com essa pose de marido. Ele me encara em silêncio por um momento, como se medisse cada palavra antes de lançar o próximo golpe. — Querida, seus pais já consentiram por você. Antes mesmo de você nascer. — Sua voz é calma, fria. — O contrato foi assinado há 25 anos. Você pertence à família Castellano agora. Sinto minha pele formigar. A palavra “pertence” ecoa na minha cabeça como uma sentença. Meus pais me venderam antes mesmo que eu soubesse falar. Antes mesmo que eu existisse como pessoa. Fecho as mãos em punhos. Sem pensar duas vezes, agarro o abajur da mesa de cabeceira e o arremesso com toda a força em direção a Daniel. Ele desvia com um simples passo para o lado, sem pressa, sem surpresa. O objeto atinge a parede com um estrondo seco antes de cair no tapete. Mas que porra.. Eu deveria ter aceitado as aulas de tiro ao alvo que meu pai tanto insistiu para que eu fizesse. Ele ergue uma sobrancelha, analisando minha reação como se eu fosse uma criança birrenta quebrando um brinquedo. — Isso foi desnecessário. Minha respiração está pesada, mas ele continua parado ali, firme, inabalável. Mantendo a postura, me aproximo de Daniel. Ele não recua. Seus olhos vidrados em mim analisam cada movimento. Minha intenção é clara: a chave na fechadura. Mas antes que eu possa alcançá-la, ele se move com rapidez, fechando os dedos ao redor do metal frio e retirando-a do meu alcance. Meu coração dispara. — Tarde demais. — Ele diz, girando a chave entre os dedos, um brilho satisfeito nos olhos. Droga. — É admirável sua ousadia. — Daniel segura meu queixo com firmeza, os dedos pressionando minha pele, me forçando a encará-lo. Prendo a respiração. — Você não tem noção do que sou capaz, não é? — Posso imaginar. — respondo sem baixar a guarda, sustentando o olhar com a mesma intensidade. O silêncio entre nós é carregado. Posso sentir seu perfume misturado ao leve aroma de bebida. Seu toque não vacila, e por um instante, a tensão se torna palpável. Ele esboça um pequeno sorriso. — Espero que tenha aproveitado os aperitivos da sua festa de formatura. — Ele solta meu queixo lentamente, como se saboreasse o momento. Com a chave em mãos, caminha até o limiar da porta. Não tira os olhos de mim, seu olhar é uma mistura de superioridade e divertimento. — Como castigo, hoje você fica sem jantar. A porta se fecha atrás dele, e o som do trinco girando me faz sentir um aperto no peito. Deito-me na cama sem conseguir conter o choro. Fico ali por horas, encarando o teto, perdida em pensamentos que só tornam tudo mais sufocante. Imagino uma vida diferente—uma vida onde eu tivesse escolha, onde meus pais não tivessem trocado meu futuro por um contrato. Onde eu não estivesse presa nesse quarto, nessa casa, com esse homem que já o desprezo. Levanto-me da cama e vou até o banheiro. O espaço é amplo, iluminado, com detalhes sofisticados e luxuosos. Aqui tem tudo que preciso—escova, babyliss e os melhores cremes para cabelo e corpo, todos de marcas caras, perfeitamente organizados sobre a pia de mármore. Tiro a maquiagem borrada com um demaquilante, sentindo a pele finalmente limpa. Para evitar que meus olhos fiquem inchados no dia seguinte, jogo um pouco de água gelada no rosto, o choque refrescante me trazendo de volta à realidade. A c***l realidade. Quando saio do banheiro, paro por um instante. Sobre a mesa ao lado da cama, uma bandeja cuidadosamente arrumada me espera — um sanduíche, uma fruta e um copo de suco. Ao lado, uma chave reserva, deixada ali de forma quase simbólica. Pego o sanduíche, mesmo sem fome. Como por impulso, mais pelo silêncio do que pela necessidade. Ando pelo quarto enquanto mastigo devagar, os olhos vasculhando cada canto. Os móveis são impecáveis. O ambiente é grande, frio, organizado demais — como se ninguém realmente vivesse ali. Passo os dedos por uma cômoda polida, observo as molduras nas paredes, o peso calculado das cortinas. Nada está fora do lugar. Nada tem personalidade. Me aproximo da estante de livros. Os títulos estão organizados por autor, alguns em edições antigas e impecáveis. Paro ali, por alguns segundos, analisando as lombadas, tentando adivinhar se ele realmente os lê — ou se são só parte da decoração perfeita que essa casa representa. Não toco em nada. Não por respeito, mas por pura indiferença. Volto a andar, ainda com o sanduíche na mão, tentando ignorar o fato de que, por mais confortável que tudo pareça… nada ali me pertence.
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