A luz fraca da manhã atravessa as cortinas, e eu abro os olhos com dificuldade. Minha cabeça pulsa em um ritmo incômodo—não é uma ressaca devastadora, mas o suficiente para me lembrar de que bebi mais do que deveria depois do jantar.
Passei a noite no escritório, preso entre papéis, contratos e decisões que não podiam esperar. Mas, apesar do trabalho, minha mente continuava voltando para o mesmo ponto: Alícia.
Ela ainda está no quarto. Não porque eu a tranquei, mas porque escolheu não sair.
Solto um suspiro pesado e passo a mão pelo rosto, pegando o celular na mesa de cabeceira. As notificações piscam na tela — e-mails, mensagens, compromissos do dia — mas ignoro todas elas por enquanto.
Ontem a noite, pedi que levassem uma cópia da chave e algo para que ela não dormisse de estômago vazio. Não era gentileza — apenas bom senso. Deixar que ela se sinta prisioneira agora seria um erro estratégico.
Ela precisa entender que está aqui por escolha… mesmo que essa escolha tenha sido forçada.
Não dormirei ao lado dela. Não ainda– não até que se acostume com essa vida.
Na noite passada, preferi permanecer no escritório, mergulhado no trabalho até adormecer ali mesmo, na poltrona.
Ao acordar, pedi que trouxessem o café da manhã e, mais tarde, o almoço para minha sala. Comi entre uma assinatura e outra, enquanto a papelada se acumulava e as decisões do dia se sobrepunham. Era o suficiente para me manter ocupado — ou, no mínimo, distraído o bastante para não pensar nela por tempo demais.
Saiu do escritório ao anoitecer. Quando entro na cozinha, o aroma da comida recém-preparada me atinge, e meu estômago reclama imediatamente. Ignoro a fome por um instante e vou direto ao ponto.
— A senhorita Castellano desceu para comer? — pergunto, mesmo já sabendo a resposta.
Uma das funcionárias interrompe o que está fazendo, hesitando por um breve instante antes de responder:
— Não, senhor. Recusou todas as refeições. Não permitiu que ninguém entrasse no quarto o dia inteiro.
Solto um suspiro lento, arrastado. A mandíbula se contrai, mas não digo nada de imediato.
Foi um erro dar a ela a cópia da chave. Ingenuidade minha acreditar que liberdade faria as coisas parecerem menos forçadas. Alicia preferiu o isolamento ao contato. Preferiu a fome à ideia de me encarar.
— Leve a bandeja mais uma vez — digo, a voz firme. — E avise a senhorita Alicia que, se ela continuar se recusando a comer… eu mesmo subirei para buscá-la à força.
Sozinho à mesa de jantar, como em silêncio. A comida à minha frente foi preparada com precisão, como sempre, mas o sabor me escapa — sem importância, sem gosto.
Meu foco está em outro lugar.
Essa teimosia pode ser orgulho… ou medo. Mas seja o que for, tem um limite. E se Alicia está disposta a me testar, que saiba: eu não recuo fácil.
Corto mais um pedaço da carne, sem pressa, mas com a mente já decidida.
Se ela não abrir aquela porta por vontade própria, vai abrir pela minha.
Alguns minutos se passam antes que Maria, a empregada que mandei levar a comida de Alicia, retorne. Suas mãos seguram a bandeja da mesma forma que a levou: intocada.
Ela para a alguns passos de distância e inclina levemente a cabeça em respeito.
— Ela não quis comer. — Sua voz é neutra, mas carrega uma pontada de hesitação.
Levanto os olhos para a bandeja e depois para Maria, que aguarda, paciente, pedindo permissão silenciosa para continuar.
Coloco os talheres sobre o prato e passo uma mão pelo rosto, contendo um suspiro.
Subo as escadas. Os corredores estão silenciosos. Pego a chave do seu quarto e abro a porta.
Alicia está sentada na cama, as pernas cruzadas, os braços firmemente ao redor do próprio corpo, como se quisesse se proteger. Ela me encara com desafio, mas vejo também o cansaço em seus olhos.
— Você pretende morrer de fome agora?
Alicia não responde. Apenas desvia o olhar, como se minha presença fosse um incômodo que prefere ignorar.
Minha paciência já não existe mais.
— Se não descer agora comigo, vou levá-la à força. — Minha voz sai baixa, controlada, mas com um tom de ameaça.
Ela solta um riso curto e sem humor.
— Eu não duvido disso. — responde friamente, ainda sem me olhar.
Isso me irrita mais do que deveria.
Me aproximo sem cautela, ignorando qualquer espaço que ela queira manter entre nós. Levanto seu queixo com firmeza, forçando-a a me encarar. Seus malditos olhos azuis estão nublados, mas continuam desafiadores.
— Você está pálida. — observo, sem desviar o olhar. — É, vou levá-la à força.
Não espero sua resposta. Simplesmente a seguro e a jogo sobre meu ombro como se não pesasse nada.
— Me ponha no chão, seu cretino! — Alicia grita, se debatendo enquanto soca minhas costas.
Reviro os olhos. Ela realmente acha que isso vai me fazer soltá-la?
— Quieta. — ordeno, e, sem aviso, planto a mão firme na sua b***a. O tapa ecoa pelo quarto.
Ela se enrijece no mesmo instante, surpresa com o gesto, e, por um breve momento, para de me bater.
— Assim está melhor.
Um sorriso satisfeito surge em meus lábios enquanto desço as escadas com ela ainda nos ombros.
Puxo uma cadeira e coloco Alicia ali, sem muita delicadeza. Ela resmunga, assustada, mas não tem escolha.
Cruzo os braços e me inclino ligeiramente sobre a mesa, mantendo meu olhar firme no dela.
— Só sairá dessa mesa quando comer tudo que estiver no seu prato. — minha voz sai baixa, mas carregada de autoridade.
Ela me encara com ódio, mas não diz nada. Faço um gesto com a mão.
— Maria, traga a bandeja da senhorita Alicia à mesa.
Não demora muito para que Maria apareça, colocando à frente dela o mesmo prato que rejeitou mais cedo. A comida ainda está quente, o cheiro delicioso, mas Alicia mantém a expressão fechada.
Me sento na cadeira ao lado, observando-a sem pressa.
— Agora coma.
Ela não move um músculo.
Levanto uma sobrancelha.
— Ou prefere que eu te alimente?
No mesmo instante, Alicia pega o garfo e coloca a primeira garfada na boca.
Observo em silêncio quando sua expressão muda sutilmente—um vislumbre de satisfação escapa antes que ela volte a se fechar. Mas eu vi.
Sem dizer nada, ela continua comendo, me ignorando completamente. Garfada após garfada, limpa o prato com rapidez. Ela estava faminta.
Cruzo os braços, um meio sorriso surgindo no canto dos lábios.
— Parece que finalmente tomou juízo.
— Não comemore. — ela resmunga, empurrando o prato vazio para longe enquanto se prepara para levantar.
Mas antes que consiga, seguro sua mão, forçando-a a se sentar novamente.
Seus olhos se arregalam por um instante, surpresa pelo toque inesperado. Sua pele está fria contra a minha, e por um segundo, não a solto.
Ignoro o choque sutil que percorre meus dedos e apenas a encaro.
— Terminei de comer. Agora me deixe ir. — sua voz sai firme, mas posso notar a tensão ali.
Aperto levemente sua mão antes de soltá-la.
— Não tão rápido, Alicia. Ainda não terminamos aqui.
— O que você quer?
— Sente-se.
Minha voz sai firme, sem espaço para discussão. Alicia hesita por um segundo, mas acaba cedendo, sentando-se novamente.
Cruzo os braços e mantenho meu olhar fixo no dela. Ela não se intimida.
— Você precisa entender uma coisa. Aqui, nessa casa, todos seguem ordens. Ordens dadas por mim. — minha voz é baixa, mas carrega peso suficiente para que minhas palavras fiquem gravadas.
Ela aperta os lábios, desafiadora, mas não desvia o olhar.
— Quero que deixe seus caprichos de lado e entenda uma coisa de uma vez por todas: isso não tem escapatória.
Me inclino levemente sobre a mesa, reduzindo a distância entre nós.
— Você é minha mulher agora. Goste ou não.
Não espero sua resposta. Sei que, se abrir a boca, algo atrevido sairá. E, francamente, não estou com paciência para mais provocações.
Me afasto, pegando a chave do bolso e girando entre os dedos.
— Nessa noite, ainda não dormirei em seu quarto. — digo, sem desviar o olhar. —Mas em breve.
Deixo as palavras no ar, carregadas de significado, antes de virar as costas e sair, certo de que elas ficarão ecoando em sua mente.