Alícia Brown.
A noite passa devagar, e o sono não vem. Viro na cama, mesmo assim o conforto dos lençóis não ajuda. Suspiro, jogo mais alguns travesseiros de qualquer jeito e me levanto.
Meu corpo está cansado, mas minha mente se recusa a desligar. O motivo? Ele.
Daniel Castellano.
A imagem dele invadindo o quarto, ignorando meus protestos, me jogando no ombro como se eu não pesasse nada — e depois, me sentando à mesa como se estivesse no controle de tudo — não sai da minha cabeça.
A forma como me olhou. Como tocou meu queixo.
Como se minha resistência fosse apenas um detalhe que ele poderia ignorar.
Fecho os olhos por um instante, tentando afastar a lembrança, mas ela volta com ainda mais força — o som da voz dele ainda ecoa:
“Ou prefere que eu te alimente?”
Arrepio. Não sei se de raiva, de medo… ou de algo que me recuso a admitir.
De pé diante da estante, fecho os olhos e deixo os dedos deslizarem pelas lombadas, como se buscassem algo que nem eu sei o que é. Paro ao acaso, puxo um livro qualquer. Talvez, por alguns instantes, ele consiga me fazer esquecer.
— Orgulho e Preconceito… — murmuro, fazendo uma careta.
Não porque o livro seja r**m, mas porque este definitivamente não é o momento certo para ele.
Coloco o livro de volta no lugar. Talvez mais tarde eu o leia.
Caminho até a varanda, sentindo o vento frio envolver minha pele. Lá embaixo, perto do jardim, está Daniel. Sua postura impecável, como sempre, enquanto fuma calmamente. Ele olha fixamente para algum ponto no jardim, perdido em pensamentos.
Por um instante, apenas o observo. Então, como se sentisse meus olhos sobre ele, Daniel se vira. Seu olhar encontra o meu, e, sem pressa, ele acena.
— Odeio você. — murmuro, mesmo sabendo que ele não pode me ouvir daqui de cima.
Sem esperar uma reação, viro-me e volto para o quarto. Pego Orgulho e Preconceito de volta da estante e me jogo na cama.
Alguns minutos depois eu adormeço.
Acordo com uma batida na porta. Me levanto sonolenta, os olhos semicerrados enquanto tento me acostumar com a claridade.
— Sim? — murmuro ao abrir a porta.
Do outro lado, Daniel me encara com sua expressão sempre controlada.
— Vermelho combina com você. — Ele diz, sutilmente.
Arregalo os olhos, despertando de vez. Num movimento rápido, pego o roupão jogado na poltrona e me cubro, sentindo o calor subir pelo rosto.
— Se arrume, temos visitas. — Ele entra no quarto sem esperar convite e senta na minha cama.
Ainda segurando o roupão fechado contra o corpo, encaro ele, desconfiada.
— Vejo que já se sente confortável no seu quarto. — Ele comenta, olhando ao redor antes de voltar os olhos para mim. — Você sempre usa top e calcinha para dormir?
Meu corpo enrijece com a pergunta. Aperto os lábios, irritada, mas respiro fundo antes de responder.
— Só quando estou sozinha. Com você, eu dormiria vestida de freira.
Cruzo os braços, desafiando-o com o olhar.
Daniel solta um meio sorriso, claramente se divertindo com minha resposta.
— Que desperdício. — Ele diz, levantando-se com calma. — Se apresse, não gosto de esperar.
E, sem mais, sai do quarto.
Tomo meu banho calmamente, sem pressa. Sim, eu sei que ele não gosta de esperar. Mas, desta vez, ele vai ter que esperar.
Depois de me secar, abro o guarda-roupa e analiso as opções. O dia está quente, e eu odeio usar calça jeans. Então, pego o vestido mais fresco que tenho, algo leve o suficiente para me manter confortável, mas sem parecer descuidada.
— Você fez de propósito. — Daniel diz assim que me sento à mesa.
Dou de ombros, fingindo inocência.
— Claro que não, querido. — provoco, um pequeno sorriso brincando nos meus lábios.
Ele não reage, não revira os olhos, não suspira. Apenas se serve de café, com a mesma calma irritante de sempre.
— Você não entendeu... — A voz feminina soa próxima.
Levanto o olhar e vejo uma mulher conversando com um dos funcionários. Seus gestos são elegantes, a postura impecável.
Quando percebe minha presença, ela me encara, parecendo um pouco surpresa.
— Alícia! Estava ansiosa para conhecê-la. — O sorriso dela é caloroso, genuíno. — Sou Agnes, mãe do Daniel.
Seus olhos verdes me encaram com uma gentileza quase desarmante. Os cabelos loiros — já marcados por alguns fios brancos — emolduram o rosto elegante e sereno. Há algo no jeito dela… uma presença tranquila, mas firme. Ela se parece com Daniel.
— O que “você não entendeu”? — Daniel pergunta, sem olhá-la. — E onde está Brianna?
— Não é nada, só quero que troquem aquele tapete horrível da sala de visitas. — Ela responde com naturalidade, mas seus olhos ainda estão fixos em mim, como se me analisasse com certa admiração. — Brianna está louca para conhecê-la. Ah, veja, ela está vindo.
Olho para a porta de entrada da sala de jantar.
Brianna entra como se estivesse desfilando, com passos firmes e confiantes. Diferente da mãe, que usa um vestido discreto até os joelhos, Brianna escolheu algo mais ousado. Seu vestido para no meio da coxa, destacando suas pernas longas e bronzeadas.
— Alícia! — Brianna me abraça como se me conhecesse há anos.
Fico imóvel, sem retribuir, mas isso não parece incomodá-la.
— Chegamos em uma hora r**m? — Ela pergunta, alternando o olhar entre mim e Daniel. — Podemos voltar mais tarde…
— Não. Não será necessário. — Daniel se levanta, ajeitando a camisa com calma. — Estou indo para o escritório. Se precisar de algo, peça a Maria ou qualquer outro funcionário.
E, sem mais, ele se afasta.
— Soube que se formou em Direito. Como se sente em ter um casamento marcado com o chefe da máfia? —ela pergunta, com um tom leve, quase curioso, enquanto inclina discretamente a cabeça na direção de Daniel, que acaba de desaparecer pela porta da entrada.
Uau. Isso foi… direto.
Brianna não tem a frieza do irmão, mas definitivamente não mede palavras. Ainda assim, sua pergunta não parece ter a intenção de me atacar. Apenas curiosidade sincera.
— Brianna! — Sua mãe a repreende, lançando-lhe um olhar severo. — Não ligue para ela, essa garota nasceu do avesso.
Brianna apenas ri, sem parecer minimamente arrependida.
— Estou estudando Arquitetura. — Diz casualmente, apoiando o cotovelo na mesa. — Se alguém aparecesse no meio da minha festa de formatura e me levasse à força…
— Brianna… — A mãe dela adverte novamente, o tom mais firme.
— Desculpa. — Ela suspira, erguendo as mãos em rendição. Então, volta-se para mim. — Desculpa, Alícia. Você m*l tocou na comida. — Seu olhar analisa meu prato quase intacto. — Se quiser, eu saio para você comer em paz.
Seguro o riso e balanço a cabeça.
— Não. Pode ficar.
Falo com sinceridade. Por um instante, toda essa situação me pareceu… engraçada. Triste, sim, mas engraçada. De alguma forma, Brianna conseguiu me distrair por alguns segundos. E, nesse lugar onde tudo parece sufocante, isso foi um alívio.
Após terminar de comer, sigo Brianna e sua mãe até o jardim. É a primeira vez desde que cheguei que venho aqui.
Inspiro fundo, sentindo o ar fresco preencher meus pulmões. O sol aquece minha pele, e, por um momento, a sensação é confortante.
— Ele não é tão r**m quanto parece… — Agnes me encara com um olhar calmo. — Não digo isso por ser mãe dele, mas Daniel sempre foi um homem justo, companheiro e decidido.
Permaneço em silêncio. Não quero falar sobre Daniel, muito menos com a mãe dele.
Ela parece perceber minha falta de resposta, mas não insiste. Em vez disso, sorri de forma sonhadora.
— Então… eu estava pensando em fazer a festa de casamento aqui, no jardim. — Seu tom é animado, como se falasse de algo leve, bonito. — Será um casamento lindo.
A encaro, incrédula.
Essa mulher é maluca. Todos nessa família são.
— Não, não será um casamento lindo. — Respondo friamente, minha voz firme. — Será um casamento forçado e sem amor.
A encaro sem desviar, sentindo a raiva ferver dentro de mim.
— Eu odeio o seu filho, e odeio essa droga de vida que meus pais me colocaram.
O silêncio que se segue é pesado. Agnes me observa por um momento, sem surpresa, sem indignação. Apenas com aquele mesmo olhar tranquilo, como se já esperasse por essa resposta.
— Agora, se me der licença. — Digo, me retirando o mais rápido possível.
Caminho com passos curtos, mas pesados, como se a qualquer momento pudesse abrir uma cratera no chão. Tudo dentro de mim parece prestes a explodir, e a única coisa que quero agora é distância.
Distância de Brianna.
Distância de Agnes.
E distância de Daniel Castellano.
O homem que destruiu meus sonhos sem ao menos hesitar. Sem se importar com o que eu sentiria.
Tudo por causa de um maldito contrato que assinaram antes mesmo de eu vir ao mundo.
Vejo meu “marido de contrato” parado na escada, me observando com atenção.
Levanto o queixo, mantendo meu olhar firme no dele enquanto subo os degraus, um por um, sem desviar.
— Peça para Maria levar minha comida para o quarto. — Digo ao passar por ele, rápida, mas sem quebrar o contato visual.
— Alícia…
Sinto seu toque firme no meu antebraço, me impedindo de seguir em frente.
Me viro para encará-lo, e ele já está me olhando. Seu semblante frio, a voz firme, sem espaço para discussão.
— Não dificulte as coisas. Estou chegando ao meu limite. — Ele diz, o olhar fixo no meu. — Nesta casa há regras, minhas regras. E agora você as segue.
Então, sem aviso, ele me solta bruscamente, como se meu toque o incomodasse.
Sem mais nenhuma palavra, vira-se e vai embora.