— EU ODEIO TERÇA-FEIRA. É oficial! — resmungou Arielle enquanto seguíamos para o refeitório.
Era intervalo, e terça-feira o pessoal da escola servia macarronada, o que Arielle não gostava, pois dizia que eles não sabiam fazer, que era grudento demais entre outras coisas. Eu sempre tomava café-da-manhã antes de sair de casa, então nessa hora ainda nem estava com fome, mas como ela sempre se atrasava, nem sempre ela conseguia comer alguma coisa antes de sair.
— Olha! — disse, apontando para a cantina à frente dela — Você pode comprar alguma coisa ali.
— Eles vendem mais doces. Eu não quero doce, quero café descente. Já posso sentir minha cabeça doendo.
— Está fazendo drama. Tenho quase certeza que eles devem ter alguma coisa saudável.
— Não quero que seja saudável, quero que seja bom. Eu estou com fome.
Puxei Ariel pelo braço, indo até a cantina com ela, provavelmente teria alguma coisa que ela pudesse comer, já que a macarronada não era uma opção. Esperamos algumas pessoas na fila até que chegou a nossa vez.
— Posso ajudá-las? — perguntou a moça do outro lado
— Minha amiga precisa de algo para beber. Ou comer tudo depende.
— Hoje eu quero comer algo que me fará arrepender depois. — Falou, de uma forma dramática como se sua vida dependesse de comer aquilo.
Sai da fila, já que estava chegando algumas pessoas, e esperei por ela em um canto. Raquel estava do outro lado do refeitório com as amigas, conversando alguma coisa e nos encarando.
Ao sairmos dali fomos procurar uma mesa vazia para sentarmos. Luke passou por mim, quase esbarrando, e seguiu em outra direção. Ele sentou em um banco falando com alguém ao celular.
— Para alguém que teve uma aventura na praia ontem, parece que ele nem sabe quem é você hoje.
— Acha que estou inventando?
— Acho que você teve um sonho muito sinistro com o senhor-você-sabe-quem. — disse ela enquanto mordia um pedaço do salgado. — Ótimo. Até que enfim algo que preste neste refeitório.
— Eu não sonhei com isso. Foi real.
— Eu sei. É que parece muito surrealista vindo de você. Não me leve a m*l, mas sou uma das pessoas que sabe o quanto certo garoto te fez m*l. Eu e o seu pai. A última coisa que você precisa agora é alguém como ele.
— Essa conversa já está revirando meu estomago. Eu não quero conversar sobre isso. Não estou procurando alguém. Fim.
— Eu entendi. Ponto.
Ficamos em silêncio enquanto ela comia, eu me recusei a pensar sobre isso, ele era um buraco que tinha que ficar para trás e parecia que a cada momento que eu tentava dar um passo, eu tropeçava nele e caia de cara no chão. Eu me recusaria a viver uma vida lastimável só por causa de um garoto. Recusaria.
Raquel passou por nós juntamente com Lucianna:
— Cuidado, se continuar comendo desse jeito sua barriga vai inchar de tanta comida.
— Sua cara é que vai inchar se continuar na minha frente — retrucou Ariel sem olhar para ela.
— Deveria pensar as amizades, foguinho. — Ela atacou
— Deveria cuidar da sua vida. — Arielle mostrou língua.
Ela fez uma cara estranha e saiu com Lucianna em direção ao banheiro. As provocações de Raquel não passavam disso, provocações. Ela fazia isso para chamar a atenção, Ariel sabia disso, mas sempre tinha que retrucar com algo parecido. Nunca me deixei levar pelos “insultos” dela, se é que poderia chamar assim, porque sabia que ela fazia isso só para chamar a atenção, então era uma coisa que pra mim passava despercebido.
Após o sinal, voltamos para a sala de aula, eu ignorei todo o resto a minha volta e concentrei somente no que importava naquele momento: a aula.
As aulas passaram rápido, assim como o dia calmo. Raquel estava com Lucianna quieta no seu lugar, comentando alguma coisa — que sem dúvidas deveria ter relação com a moda — Drake estava do outro lado da sala conversando com algum amigo. Às vezes ele olhava para mim e Ariel e depois desviava o olhar constrangido.
Era aula dupla de Arte, a penúltima do dia, nessa aula a professora passava alguma coisa, explicava e depois tinha o resto do tempo para criar alguma coisa ou fazer uma redação.
Eu estava sem criatividade então optei por deixar a parte de criação para depois. Concentrei em fazer uma redação sobre a aula. Assim seria mais fácil sem contar que não ficaria sem nota.
— Certo! O tempo de vocês acabou. Os que terminaram tudo têm o tempo livre para conversarem, mas sem bagunça. Se não terminou, terminem até o final dessa aula.
Olhei para a professora, surpresa, não devia ter passado muito tempo até ela ter dado a tarefa, não podia ter terminado tão cedo. Olhei o relógio na parede, passava um pouco das onze horas.
— Parece que está sem tempo, assim como eu — disse Ariel, me cutucando e rindo
— Preciso terminar isso. Não quero um ponto a menos no boletim, meu pai tem que...
— Ficar orgulhoso de você! — completou — Já ouvi isso umas mil vezes só no começo desse ano.
— É verdade. — disse, voltando minha atenção para a folha.
Drake passou pelas mesas, recolhendo de quem já tinha terminado.
— Sobre aquele dia... desculpe. Eu estava estressada. Não devia ter descontado em você — disse eu, estava sendo sincera.
Ele era uma pessoa legal, até, não queria que ele achasse que tinha motivos para ficar constrangido por tudo aquilo, eu me exaltei e precisava me desculpar.
— Não tem problema. Acho que passei dos limites também.
— Momento de perdão. Certo! — resmungou Ariel, se remexendo na cadeira. — Eu não tive a intenção de jogar aquele liquido na sua cara. Foi... Exagerado. Mas se fizer de novo, saiba que não me arrependerei de fazer de novo.
Eu a encarei, me segurando para não rir. Não acreditava que ela estava pedindo desculpas a alguém que não fosse eu, ela era orgulhosa demais para isso. Não chegou a ser um pedido de desculpas, mas era o máximo que ela conseguia.
— Acho melhor aceitar. É o máximo que ela consegue chegar a um pedido de desculpas.
— Eu acho que não deveria ter culpado você, o erro foi meu. — disse ele sorrindo e continuando andando.
Ariel corou.
Quando ela viu que eu estava olhando, disfarçou, continuando o que estava fazendo.
Eu voltei minha atenção para a redação, tinha que terminar explicando o que tinha entendido sobre a aula, isso não seria um problema já que tinha decidido me concentrar, só precisava de mais alguns minutos...
Alguma coisa bateu nas minhas costas e atingiu o chão, parando perto do meu pé. Virei, olhando em direção a Raquel quando percebi que o papel não vinha dela.
Era de Luke.
Ele fez sinal para que eu abrisse, voltei a olhar para frente e encarei a professora, ela estava concentrada explicando alguma coisa para outra aluna.
Abri o papel.
Terminamos m*l na noite anterior,
Acho que devemos recomeçar.
Eu virei olhando para ele e fazendo cara de desentendida, não acreditava que aquele bilhete vinha dele. Era uma pegadinha? Porque não tinha graça nenhuma. Isso não importava muito. Respondi o bilhete logo abaixo daquilo que ele tinha escrito:
Eu não quis te ofender, não foi intencional.
Amassei o papel e joguei na direção dele, que o pegou antes que atingisse a mesa.
Arielle me encarou de boca aberta, parecia não estar acreditando no que via.
— Ele estava pedindo desculpas por ontem. Recomeçar, algo assim. Eu só respondi que não tive intenção de ofendê-lo.
Um minuto depois o papel estava de volta à minha mesa.
Eu sei disso.
Eu estava prestes a responder quando a professora interrompeu:
— Acho que já posso pegar a sua redação, senhorita Sinckler.
Ah, não! Isso não.
— Desculpe… Eu não… Terminei.
— Você teve a aula toda para fazer.
— Não tem que culpar ela. Passou a metade da aula passando lição e a outra explicando, e deu mais alguns míseros minutos para fazer uma redação de mais de quinze linhas. Se tiver que culpar alguém, culpe a senhora mesmo.
Eu encarei Ariel, surpresa. A culpa era minha, ela não precisava se meter em encrenca por minha culpa.
— Ela não teve intenção de dizer isso, professora Lucia — disse eu.
— Na verdade, eu estava perguntando uma coisa para ela sobre a aula. A parte de criação, sabe, eu achei que fosse permitido. Se tiver que culpar alguém acho que deve ser eu — disse Luke.
Dessa vez eu o encarei. Ele estava mesmo me ajudando? Não era possível.
— Ah! Sobre isso não tem problema. Mas se tiver alguma dúvida, pode perguntar a mim. — A professora me observou. — Ajudar um amigo nunca é demais. Vou te dar mais alguns minutos, é bom que termine nesse tempo.
Sorri, tentando lançar um olhar de obrigada a ele, e voltei a atenção para a redação. Ariel pisou no meu pé, tentando chamar minha atenção.
— O que foi isso?
— Isso o quê?
— Isso! Eu acabei de ver mesmo o Luke te ajudando? Isso é brincadeira, certo?
— É só isso.
— Eu vi o jeito que ele estava olhando para você! — Acusou ela, sorri e voltei minha atenção para o que já deveria estar fazendo.
Terminei a redação e entreguei para a professora. Na saída, esperei no estacionamento por Luke. Ariel estava me encarando como se tivesse vendo um espírito, mas pedi para que ela esperasse, pois tinha que agradecer formalmente pela ajuda que ele tinha me dado com a professora.
Ele saiu um minuto depois, indo até a moto, novamente era a Harley Devidson, ele segurou o capacete e esperou:
— Oi.
— Oi — respondeu ele.
— Queria agradecer por me ajudar hoje. Na verdade, queria pedir desculpas por ontem. Eu fui muito egoísta.
— Aquilo foi um m*l-entendido. Esqueça — Falou, colocando o capacete.
Estava prestes a perguntar qual tinha sido a do bilhete, mas ele falou de uma maneira tão fria que parecia que nem tinha feito nada. Eu não me importava se ele estava ou não querendo recomeçar, só estava sendo educada, pedindo desculpas e dizendo obrigada. Uma hora ele parecia estar com raiva, na outra não, uma hora estava todo educado pedindo desculpas e depois agindo de maneira fria.
Realmente, eu nunca iria conseguir entender a mente dos garotos.
Nem se eu quisesse.
O que, obviamente, não queria.
Sai dali ao mesmo tempo em que ele deu partida na moto. Voltei para o lado de Ariel e começamos a caminhar em sentido à saída.
— Eu espero que você me explique, pois não estou entendendo nada.
— No bilhete, ele estava dizendo que começamos m*l e então deveríamos recomeçar. Eu respondi dizendo que sentia muito, pois não queria ofendê-lo ontem. Depois aconteceu toda a cena com a professora que você viu e fui até ele para agradecê-lo. Mas ele agiu de uma maneira fria, como se o bilhete não tivesse significado nada. O que eu não me importo. Pelo menos fiz a minha parte.
Ela balançou a cabeça positivamente sem dizer nada. Não sabia o que ela estaria pensando, mas essa era a verdade.
A semana passou normalmente. Luke não voltou a falar nada e não seria eu a pessoa que diria alguma coisa. Na quinta-feira deixei as coisas arrumadas para ir para casa de Ariel no dia seguinte.
Como toda a semana tinha passado de maneira calma, pensei que na sexta-feira seria a mesma coisa, mas já começou de maneira agitada. Mais uma vez Arielle demorou se arrumando, e tivemos que pegar carona com a mãe dela, caso contrário não daria tempo. Na chegada, batemos de frente com Raquel e as duas começaram a discutir, alguma coisa sobre Arielle ter quebrado a unha dela.
Na sala de aula, também, todos estavam animados. Era sexta-feira, o dia que todos curtiam, pois teriam liberdade o final de semana inteiro.
— Seria bom que todos terminassem logo — dizia a professora Lenne. — Não temos o dia todo.
— Sabe o que seria bom? Menos trabalho — comentou Drake e algumas pessoas começaram a rir, outras concordaram.
— Sabe o que vai ser ótimo? Ver o boletim de vocês no final do bimestre.
— Credo! Se não sabe brincar, não brinca — Drake riu, sentando de volta na cadeira.
Depois de terminar a tarefa, procurei na minha bolsa pelo livro “o símbolo perdido”, estava quase terminando de ler e como tinha alguns minutos antes de a aula acabar, decidi gastar o resto do tempo lendo.
Mexi na minha mochila procurando o livro, mas não achava. Olhei de baixo da mesa, mas não achei nada.
— Você viu meu livro? Eu não encontro.
— O que você estava lendo ontem? Além de ontem mesmo, eu não vi.
Espera! Eu estava lendo o livro ontem também, eu devia ter esquecido na sala de aula ou perdido em algum lugar. O que era estranho, eu não costumava deixar minhas coisas para trás.
— Deixa isso pra lá, V. Talvez esteja na sua casa. Você mesmo me disse que às vezes lê a noite.
Se eu tivesse perdido na escola, à essa altura alguém teria encontrado e devolvido. Então deveria mesmo estar em casa…
Assim eu esperava.
Saindo da escola, Luke passou por nós, freando bruscamente à nossa frente, aquilo tinha sido proposital, disso eu tinha certeza.
— Tem um minuto?
— Não! Estamos de saída — disse Ariel, enfiando a mão no meu braço e me puxando.
— Eu estava falado com a Moranguinho aqui.
Moranguinho? Ele tinha acabado de me chamar de Moranguinho?
— Você quer mesmo falar com ele? Ele, Luke MacDonell. Um homem. HOMEM. Quer que eu repita de novo ou está…
— Entendi! — disse — O que você quer?
Arielle nos encarou, mas por fim desistiu e se afastou, ainda observando.
Eu fiquei parada esperando que ele falasse, não fazia ideia do que ele queria, e ela estava certa. Ele era um homem, geralmente eu preferia evitar o s**o masculino, e não ficar de conversa na saída da escola.
Quando ele enfiou a mão na bolsa e tirou de lá um livro, meu coração disparou. Era o livro que eu tinha perdido.
— Deve ter esquecido isso ontem — Falou, e piscou para mim.
— Obrigada! — disse na intenção de pegar o livro, mas ele desviou. — Ah, mesmo? O que você quer?
— Eu só quero entregar seu livro.
— Por que não fez isso ontem? Você disse que…
— Eu não tive vontade.
Dei de ombros, não sabia se ficava irritada ou se não valia a pena, como assim não tinha vontade? O livro é meu! Não tinha o porquê de ele não querer me devolver.
— Passou pela sua cabeça que o livro é meu? Ele deveria estar comigo.
Ele sorriu da mesma forma provocadora em que fez no primeiro dia em que o vi. Luke pegou a minha mão e colocou o livro, deu partida na moto e simplesmente saiu sem dizer mais nada.