Capítulo 5

4498 Words
Eu e Ariel não fizemos nada de muito importante no sábado e domingo, exceto escolher roupas, algo que ela estava precisando para o noivado. No sábado fui a casa dela para ajudá-la a escolher um vestido para uma festa de família, mas nenhum dos que ela tinha a agradou muito, então combinamos de procurar alguma coisa nas lojas na segunda, quando as lojas abririam de novo. A mãe dela iria fazer uma festa de noivado e queria que Ariel estivesse presente, então ela acabou me convidando, mas recusei o pedido. Era um momento de família, eu não queria atrapalhar. Isso seria no próximo sábado, então não seria nada que atrapalhasse a nossa programação para aquela semana. Aproveitei o final de semana para passar com meu pai já que era folga dele, cozinhei alguma coisa, assistimos algum filme na televisão e conversamos um pouco, era o momento em que conseguíamos passar juntos. — Sabe o que me irrita mais? Eu não consigo suportar isso. Está certo que a culpa foi do meu pai de ter largado a minha mãe, só eu sei o quanto ela sofreu, mas ainda não estou pronta para chamar aquele cara de pai — disse Ariel enquanto estávamos na última aula do dia, na segunda-feira. — Achei que você o considerasse um cara legal. — Até considero, sério — falou com as sobrancelhas unidas, o que demonstrava que estava indignada. — Mas chamar outra pessoa de pai é praticamente impossível, ele vai ser o meu padrasto agora. Vou estar naquele noivado sozinha. Você é uma traidora, sabia disso, né? — Eu não podia ficar na festa de noivado da sua mãe e seu padrasto. É algo familiar. — Você faz parte da minha família — retrucou ela — e desde quando se importa com esses detalhes? — É uma festa de casamento da sua mãe, além disso, não me sentiria confortável. — Então quer dizer que se seu pai casasse de novo, para você estaria tudo bem? — perguntou ela me olhando de forma curiosa. Pra ser bem sincera, sim. Eu gostaria que meu pai se relacionasse com alguém de novo, alguém que o fizesse se distrair um pouco e sair de casa ao invés de passar todas as folgas em casa assistindo jogos e comendo pizza, alguém que o fizesse sorrir sinceramente de novo. Não era traição. Sabia como qualquer outra pessoa que os conheceu o quanto eles se amavam, a minha mãe era a mulher da vida do meu pai, nunca existiu outra e até o ultimo momento eles se amaram muito e isso durou até mesmo depois da morte dela. Era difícil pensar nisso, eu ter que aceitar outra pessoa ou até mesmo chamá-la de mãe, mas era uma escolha do meu pai e não minha, se ele a amasse muito e ela fizesse bem a ele eu apoiaria incondicionalmente. Estava na hora de ele seguir em frente. — Ele passou quase onze anos pensando nela, sei que ele a amava mais que tudo. Mas já passou muito tempo, ele precisa seguir em frente, e se ele decidisse isso por si só, eu não me importaria. Meu pai merece ser feliz. Passou metade da vida dele cuidando dele mim, agora ele precisa de um tempo só para ele. — Então a resposta é sim. — A resposta seria sim se ela for boa o suficiente para ele. — Porque eu não consigo aceitar numa boa? — perguntou ela parecendo estar triste consigo mesma. — Eu devia estar com raiva do meu pai, ele que a fez sofrer. Também acho que ela merece ser feliz, mas casar agora parece tão repentino… — Então conversa com ela, explica o que você está sentindo — disse. — Ela deve entender. — E estragar o noivado deles? Sem chance. — Você que sabe, foi só uma sugestão, não quero me intrometer em um assunto tão pessoal. Ela deu de ombros concordando, apesar de eu ter certeza que ela não conversaria com eles depois. ☼ À tarde encontrei-me com Ariel para irmos procurar o vestido para festa de noivado no qual ela ainda estava muito insatisfeita, sobre a conversa com a mãe dela, realmente não tinha colado, ela pulou para trás e guardou para si, apesar dos pesares eu achava que no fundo ela não era contra, o problema é que agora a mãe dela ocuparia mais o tempo com esse cara do que com a filha e isso na cabeça dela a incomodava bastante. Passamos em cinco lojas diferentes e nenhum dos vestidos pareceu agradar muito, então decidimos passar em uma loja no centro da cidade. Era um dos lugares que eu não gostava muito de ir, e que meu pai me proibiria de ir, caso soubesse. Aquele lado da cidade era mais perigoso. Havia assaltos constantes por ali, sem contar as corridas clandestinas de motos. A qualquer hora que alguém passasse por ali, se fosse para o lado mais fechado da cidade, encontraria aqueles bad-boys fazendo corridas – ou como Ariel tinha dito, fazendo apostas, o que dava no mesmo, já que o resultado era um só: corridas. — Eu me sacrifico por você, você se sacrifica por mim, isso vai acabar nos matando. — Ela falou e começou a rir, não dava para discordar. — É para isso que as amigas servem. — Achei que elas serviam para nos consolar quando estamos tristes, mentir que estamos bonitas, falar de caras idiotas que quebram os nossos corações, esses tipos de coisas. — Para isso também, pode incluir o pacote inteiro. É tipo um kit de primeiros socorros, o que você precisar vai estar incluso ali dentro. Entramos em uma das lojas quando vi uma moto familiar estacionada a um quarteirão dali, logo me veio a mente a imagem de Luke, era exatamente o tipo de moto que ele pilotava, ele devia estar por ali. O que pra mim não era surpresa, sabia que ele frequentava esse lado da cidade. Além disso, eu nem deveria estar pensando em Luke, tinha ido até ali para outra coisa e me distrair pensando nele não era uma opção. Nem se quer sabia porque pensei nele. Observei Arielle passar pelos corredores varias vezes escolhendo roupas entre as araras, pegava uma ou outra e devolvia, para não ficar parada observando fui fazer o mesmo, olhando, sem interesse as roupas que estavam por ali. Por fim, ela parou na minha frente, escolhera três vestidos diferentes: um era um tomara que caia longo e vermelho escuro, o outro era um vestido mullet bege e o último era um azul de um ombro só e curto. Devido à ocasião acabei achando que a primeira opção seria a melhor. — O vermelho escuro ficará lindo em você. — Acha esse bege muito vulgar? — Acho! Ele é longo atrás e curto na frente, não acho que combinaria para a ocasião. Se quiser causar uma boa impressão para o seu padrasto, é melhor escolher o primeiro. — Então acho que vou de bege mesmo — disse ela com um sorriso maléfico. — Estou brincando, vou na primeira opção. Estávamos saindo da loja quando Ariel recebeu uma ligação. Era sua mãe, tinha alguma coisa para conversar com ela sobre os preparativos do noivado e queria que ela fosse lá. Como eu ainda queria comprar alguns livros, iria procurar em alguma loja e depois iria para casa. — Tem certeza que vai ficar bem? — perguntou ela parecendo preocupada. — Podemos pegar um táxi e ir para casa juntas. — Eu estou em dependência de livros, preciso de algo para ler ou vou ficar doida. Ficarei bem, não se preocupe. —Tá… — disse ela com certa relutância mantendo os olhos em mim. — É sério! Se eu precisar de alguma coisa eu te ligo. Ela foi em direção à saída carregando as sacolas com o vestido e um calçado que comprou para combinar. Achei uma livraria perto, então aproveitei para comprar alguma coisa. Enquanto saia da loja peguei meu celular para chamar um táxi. Todas as outras lojas ainda estavam abertas, o que significava que ainda era seguro ficar por ali. Enquanto as lojas estivessem abertas vários guardas estariam por perto, após o fechamento os vigias noturnos assumiam, o que não significava exatamente segurança total, já que quase sempre eles ficaram perambulando pelos corredores. — Esse é um caso sério de perseguição. Ah, não! — E por que eu seguiria uma pessoa como você? — retruquei e Luke sorriu. Ele estava parado a alguns centímetros de mim com uma expressão divertida no rosto. Ainda usava jaqueta e botas, o que era bem a cara dele. — Você poderia explicar isso, considerando que esse lado da cidade é praticamente a minha área. — A sua área? Desde quando? — Desde quando eu nasci. Conheço esse lado da cidade da mesma forma que conheço a palma da minha mão. — Ele deu um meio sorriso, o olhar estava focado em outro lugar além dali, mas não consegui identificar onde. — Não consigo imaginar o que um cara como você faz em um lugar como esse. Não sabia que curtia fazer compras. — Parece que você sabe ser bem humorada quando quer. — Ele riu e tive que me lembrar de não encarar, porque quando ele sorria daquela forma me fazia querer rir também, não sabia exatamente o motivo. Só sabia que era um sorriso caloroso e eu gostava disso. Desviei o olhar enfiando os livros dentro da minha bolsa, eu realmente não estava interessada em saber o que ele estava fazendo por aqui, queria ir embora antes que meu pai começasse a se preocupar. Dei um passo em direção à saída ao mesmo tempo em que escutei um homem gritar. Parei bruscamente, olhando em volta, era o segurança ele veio correndo em nossa direção, balançando o braço e gritando euforicamente. — Vocês de novo aqui seus baderneiros, eu vou te pegar. Hoje você não me escapa. Ele parou ao meu lado e puxou meu braço com o olhar preso em Luke, eu entrei em pânico automaticamente, meu coração disparou com as mãos daquele homem em mim, enquanto o mesmo chamava os outros seguranças e apontava para Luke. — Me solta! — Tentei puxar meu braço, mas ele apertou mais ainda. — Vocês estão juntos nessa, né? Acham que vão fazer bagunça hoje? Comecei a sentir falta de ar e fiz a primeira coisa que me veio a mente, dei um soco no homem que ficou confuso. Luke começou a rir e puxou meu braço me arrastando para longe ao mesmo tempo em que surgiram mais seguranças. — O que você pensa que está fazendo? — A menos que queira ficar e arranjar encrenca aconselho a me seguir. Os guardas estavam correndo atrás da gente, no caso, atrás de Luke. Eu não sabia por que estava correndo com ele e nem por que os guardas estavam atrás da gente, mas alguma coisa me dizia que aqueles guardas deveriam conhecer muito bem Luke. Eu provavelmente perdi a sanidade, era a única explicação pra isso, eu não fiz nada de errado para estar correndo de seguranças. Eu podia sentir a adrenalina no meu corpo, de primeira estava relutante em sair por ai correndo com ele, mas agora até que não via a situação de uma forma tão r**m, desde quando nasci nunca tinha feito algo tão louco como aquilo. E nem sabia por que estava nessa com ele, o problema era que uma parte dentro de mim estava gostando disso. Adrenalina era viciante sim. — Toma! — disse ele, entregando-me o capacete da moto. — Espera! Não vou subir nisso com você. Nem sei por que estamos fugindo, não fizemos nada. — Depois eu explico — disse ele olhando em direção aos guardas. —Vai precisar confiar em mim. — Nunca! — eu disse pegando o capacete — Se você correr muito eu te mato. Ele sorriu e pelo sorriso deduzi que era bem essa a intenção. Eu estava começando a me arrepender de ter entrado nessa com ele, desde o primeiro dia em que o vi sabia que ele era sinônimo de encrenca. E era por isso que estava o ignorando até aquele momento. — Se não quiser cair, aconselho a segurar firme. Apertei meus braços ao redor da cintura dele ao mesmo tempo em que ele deu partida na moto. Estava com medo e insegura, porque estava com ele? Tudo que eu queria era evitá-lo e agora estávamos correndo dos guardas de uma loja por que… Eu nem sabia o motivo. Ele acelerou, o que pra mim pareceu, muito mais rápido que o normal. Okay, talvez eu não soubesse julgar o normal já que nunca havia subido em uma moto antes que o piloto corria tanto, mas para mim estava muito rápido já que o vento ricocheteava no meu rosto fazendo-me ficar com muito frio. Ele pilotava uma moto diferente daquela que costumava ir para a escola. Não sabia para onde ele estava me levando e desejei não saber a resposta. Queria que ele parasse a moto, eu chamaria um táxi e iria para casa, estava assustada, mas ao mesmo tempo tinha sido uma experiência interessante. E, no fundo, bem no fundo, queria saber para onde me levaria. No meio do caminho ele reduziu a velocidade, estávamos saindo da área mais perigosa da cidade e entrando em uma área que eu desconhecia. Eu não sabia quais eram as intenções de Luke, mas não queria descobrir. — Está bem. Agora você pode parar a moto, eu quero ir para casa. — Relaxa, não vou atacar você ou coisa parecida — disse ele, em tom de deboche, estava tirando uma com a minha cara. Não me importei. Ele parou a moto em um uma área aberta. Pelo som que ouvia, percebi que estávamos perto de uma praia. Conseguia escutar o barulho das ondas, e nada mais. Desci da moto, entreguei o capacete para ele e sentei em uma mureta cercando a praia. Era pôr-do-sol e era lindo, observar tudo sentada onde estava era uma sensação incrível, que trouxe paz ao meu coração, me fazia pensar em coisas boas, memórias boas, mas não deixaria que Luke abaixasse minhas defesas, eu ainda não confiava nele. — Posso saber por que aqueles guardas estavam correndo atrás de você? — perguntei. Ele colocou os capacetes em cima da moto e se sentou ao meu lado na mureta. — Digamos que eles me conhecem muito bem. — Não me diga que andou assaltando as lojas... — brinquei, ele riu. — Nem perto disso, é mais por brigas e coisas do tipo. Pode me considerar temperamental. Às vezes os meninos fazem bagunça naquela área. E o que foi daquele golpe? — Ele sorriu, com uma sobrancelha arqueada. — Vem me dizer que nunca ouviu falar de garotas que fazem aulas de autodefesa? Eu sei me defender, quer dizer, agora eu sei. — Estou vendo! — disse ele, olhando em direção à praia. — Foi algo bem arriscado. — Não voltarei a repetir esse ato impensado, foi automático. Foi loucura. — Sempre dizem que de gênio e louco todo mundo tem um pouco, — Ele me observou — pelo que parece você tem os dois. Eu ri — Acredite. Eu jamais faria isso em outra ocasião, foi automático mesmo, eu não deveria ter reagido daquele jeito, poderia ter acabado m*l. Ele assentiu enquanto virava seu olhar para o meio sol que estava quase sumindo no horizonte, ele respirou fundo enquanto passava uma mão pelos cabelos arrumando-os, notei o quanto isso o fazia parecer mais sexy, quer dizer, aquele olhar sério dele e totalmente concentrado, o maxilar bem desenhado, tudo nele, de alguma forma demonstrava rebeldia. Parei os pensamentos, não deveria estar pensando esse tipo de coisa. — Você costuma trazer todas as garotas aqui? – Brinquei. Ele riu — Não! Só as que têm um sorriso lindo assim capaz de levar qualquer homem a loucura. — Eu desviei o olhar, constrangida — Eu estou brincando, não costumo trazer ninguém aqui. Continuei minha atenção no horizonte, observando o pôr-do-sol em silêncio com ele, preferia não fazer mais perguntas que pudessem me constranger de novo, mandei uma mensagem para o meu pai dizendo que chegaria tarde, antes que ele começasse a se preocupar comigo. — Eu preciso ir embora. Não devia estar aqui, não deveria confiar em você. — Não estou tentando ocupar seu tempo ou conseguir sua confiança. Pode ir embora a hora que quiser. — Eu não entendo por que você é assim… fica me dizendo que não deveria guardar tudo para mim, pois uma hora vou acabar explodindo, mas quem faz isso é você. — Faça o que eu digo, não faça o que eu faço — disse ele sem me olhar, e novamente notei aquele ressentimento. — Você tem razão, eu não sou uma pessoa confiável. — Não disse que não é uma pessoa confiável, disse que não confio em você. — É a mesma coisa. — Confiança se conquista, não ganha! Não que eu ache que alguém conseguiria… — Está me dizendo que não consegue confiar em ninguém? — perguntou ele com uma sobrancelha arqueada, parecia estar interessado na conversa. Ele me olhava de forma intensa, esperando uma resposta, tive que desviar o olhar. — Eu já passei por isso antes, agora sei das defesas que preciso. — Falei, meio insegura. — Um coração quebrado e outro completamente destruído. — Riu em tom de escárnio e novamente voltou com aquele tom de ironia — Perfeito! — Não é tão fácil quanto parece ser. — É verdade, nunca é tão fácil quanto parece ser. Por que a nossa conversa era tão complicada? E nem era tão direta, eu não sabia dos problemas dele e nem o que o levou a ser como era. Assim como ele não sabia dos meus problemas. Não precisávamos ficar discutindo sobre algo que incomodava ambos. Sem contar que nem conversávamos diretamente, era mais algo como indireta, e isso me incomodava. Não era o tipo de pessoa que gostava de ficar fazendo joguinhos e jogando indiretas, se tinha uma coisa para dizer, dizia logo. Ficamos em silêncio enquanto o sol terminava de se esconder no horizonte. Ter saído correndo daquela forma, aceitar carona de Luke – que deveria ser um estranho, e ainda por cima fazia corridas – e estar a essa hora com ele, sabe se lá onde, na beira da praia, era a coisa mais louca que já tinha feito desde que nasci. Minha vida não se baseava em adrenalina. Eu era calma, gostava de ler, passar um tempo em casa e curtir algum tempo com Arielle, não gostava de discussões ou brigas, ir à festas e shows… era o tipo de pessoa que preferia ficar em casa, na minha. Não que eu não quisesse ter uma alma aventureira, poderia ser bom deixar de andar sempre no mesmo caminho e fazer algo diferente. Mas sempre tive medo de arriscar. Eu nunca tinha estado em uma moto que o motorista pilotasse acima da velocidade normal. Eu gostava de levar a vida numa boa, pois assim traria menos preocupação para o meu pai. Mas não podia negar o quanto aquela sensação tinha sido boa. O quanto, finalmente tinha me sentido realmente viva, o vento no rosto, no cabelo, a adrenalina fazendo meu coração pulsar mais rápido, era o mais perto que tinha chegado de realmente aproveitar. De viver de verdade. — Obrigada por hoje! — consegui finalmente dizer — Foi... Interessante. — Deve ter sido a primeira vez que uma garota como você faz algo assim. Pude perceber pela expressão que você fez quando viu a moto. — Ele riu enquanto passava uma mão pelos cabelos bagunçados. — Talvez eu não goste tanto de corridas como você. Mas não vou negar que foi um pouco… — Hesitante? — perguntou ele — Interessante! — Só isso? — Ele perguntou e eu sorri — Podia jurar que você quis até abrir os braços quando estava na moto. Eu ri e também não respondi. Não porque não queria, mas porque não sabia ao certo. Corridas de moto eram perigosas, poderiam m***r pessoas a qualquer momento, eu não ficava muito feliz pensando sobre isso. Se não tinha uma resposta certa, era melhor nem responder. Peguei meu celular na intenção de chamar um táxi, quando vi que ele ainda estava me encarando, deveria estar esperando uma resposta. — Eu acho perigoso. É isso. Pode te dar adrenalina, pode fazer sua alma se sentir livre, mas continua sendo perigoso. Alguém pode acabar morrendo por isso. — Justamente quando achei que fosse diferente — disse ele, não parecia estar falando comigo, mas respondi mesmo assim. — Agora sou igual a todo mundo porque penso assim? Quer que eu diga que corridas não são perigosas? — Não foi isso o que eu quis dizer — disse ele levantando-se da mureta e indo até a moto. — A questão é que você precisa aproveitar enquanto ainda vive. Se privar das coisas boas ou “perigosas” só porque as pessoas dizem que não deve, não é o certo. Só se vive uma vez e tem que aproveitar cada momento como se fosse o último. — Ninguém colocou isso na minha cabeça. — Defendi-me, meio ofendida. — Eu... entendo. — Falou enquanto colocava o capacete — Uma carona? — Não! Eu chamo um táxi. Achei que no momento que dissesse aquilo ele daria partida na moto e me deixaria para trás, mas incrivelmente ele esperou até que o táxi chegasse. Senti-me grata por isso, ele tinha me levado até ali, eu não conhecia aquela área da cidade – sem contar que estava tarde. Eu devia tê-lo atingido em algum lugar quando disse que corridas poderia m***r alguém, mas realmente não era minha intenção. Mesmo não o conhecendo eu acreditava que ele não era perigoso, caso contrário eu nem sabia o que poderia ter acontecido no exato momento em que subi em sua moto. Em casa, meu pai estava deitado no sofá assistindo TV. Dessa vez estava acordado, eu guardei as coisas no meu quarto e desci. — Já comeu alguma coisa? Pensei em fazer o jantar para a gente. — Estava esperando você chegar. Onde esteve? — Estava comprando alguns livros novos. Antes disso ajudei Ariel a escolher um vestido para o noivado da mãe dela. Fui para cozinha preparar alguma coisa para comermos. Passamos o resto da noite jantando e colocando em dia os acontecimentos; decidi deixar de fora a parte em que sai correndo de uma loja com Luke porque soquei um cara e os seguranças não iam com a cara dele, depois subir na moto desse mesmo estranho, fui para um lugar que não conhecia e ficar conversando, sentada em uma mureta ao pôr-do-sol. Sem contar que meu pai tinha a mesma opinião que Ariel em relação a caras assim. Eram todos encrenqueiros, baderneiros e sem mesmo um pouco de cuidado com a própria vida, claro que eu não tinha um pensamento tão fechado, mas tinha motivos para evitar pessoas assim. No meu quarto, quando estava prestes a mandar uma mensagem para Arielle, o celular tocou. Era ela mesmo. — Chegou em casa? Ah, é claro né, onde mais você estaria?! Finalmente! Então, eu estava me perguntando se você... — Na verdade eu fui a outro lugar. — Confessei, interrompendo-a Ela parou de falar por um minuto e depois continuou: — Então, eu estava me perguntando se você vai vir pra cá no mesmo dia de sempre... — Eii, eu disse que eu fui para outro lugar. — E eu escutei. A livraria, não é? Nem adianta tentar me enganar porque outro lugar além desse tenho certeza que você não foi.— ela parou em dúvida — Não é? — É... não! Pude notar o tom de interrogação do outro lado da linha. Ela me conhecia bem e não iria deixar nada passar. — O quê? Olha se for uma pegadinha pode parar. Você é péssima fazendo isso, Verônica. — É sério, Arielle. — Tá bom. Conta tudo. — Falou mostrando empolgação do outro lado da linha — Desembucha. — Eu estava saindo da livraria quando o Luke apareceu e o guarda correu na nossa direção, ele me segurou com força e eu congelei e o soquei. — Minha nossa! Você está bem? — Estou. O que quero dizer é que, os seguranças começaram a correr em nossa direção e ele saiu correndo, me levando junto. Houve uma longa pausa e hesitação até ela responder alguma coisa. — Espera! Não consigo processar a informação. Você estava com o Luke? Quer dizer, ele estava perto de você? Ele está bem? — Ela perguntou em um tom de deboche — Sem graça! Ele apenas me ajudou. Eu ri do comentário dela. — Ele é perigoso — interrompeu, pela voz no celular parecia estar apreensiva. — Ele não é perigoso. Ele me ajudou. — Então por que os guardas foram atrás dele? Aposto que ele roubava lojas ali. Podia até mesmo imaginar a cara de suspense que ela fez, pois já sabia a opinião formada que ela tinha de Luke, mesmo sem conhecê-lo. — Ele arrumou briga, é isso. — Eu não entendo, como ele estava por lá? Não me parece que ele gosta muito de fazer compras. — Deveria estar esperando algum amigo ou coisa do tipo. — E o que aconteceu depois disso? Deu um chute nele? Chamou a policia? Desembucha. — Não! Fomos até a praia. O outro lado do telefone ficou mudo, eu não sabia o que ela estava fazendo ou se simplesmente a ligação tinha caído. Notei que era uma risada abafada, ela estava rindo, com toda certeza abafando o riso em alguma almofada. — Essa foi muito boa. Realmente. Uma das melhores piadas que você, Verônica Sinckler poderia contar. — Eu estou falando sério! — disse, sentindo-me ofendida, mas me divertindo com o tom de voz dela. Era óbvio que ela não iria acreditar, eu sempre evitava os garotos, agora contava que tinha estado em uma praia com um deles… — Não acredito em você! — Foi só isso. Fomos até a praia e ficamos lá até o pôr-do-sol, tudo terminou com uma discussão sobre alguma coisa das corridas clandestinas. Acho que o deixei com raiva ou alguma coisa assim. — Só isso? — Esperava mais alguma coisa? — Um soco, um t**a. Sei lá. — Falou, ainda rindo — É difícil acreditar nisso. — Foi só isso. Não é como se tivéssemos nos tornado amigos. Esquece isso. Deixa no passado. — Deixa mesmo, se seu pai descobrir que esteve em uma moto com um desconhecido e ainda por cima foi para praia… É possível ele m***r o cara. — Esquece isso. — Repeti. —Vou para sua casa na sexta-feira. — Certo! Esperarei. Desliguei tirando da minha bolsa os livros que havia comprado e comecei a ler. Seria o suficiente para me distrair até que pegasse no sono e esquecesse de uma vez essa história louca.
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