Capítulo 4

3234 Words
A manhã seguinte não foi diferente de todas as outras. Era quarta-feira, dia quase ensolarado se não fosse pelas nuvens que cobriam o sol. O clima estava bom e estávamos na penúltima aula do dia, de educação física. Tinha acordado de bom humor e estava bem, não deixaria que ninguém estragasse o meu dia. — Eu adoro isso. Se não fosse o professor que me obrigasse a fazer exercício quando não quero, poderia sair saltitando por aí — comentou Ariel enquanto fazia uma flexão. Como não queria que o professor chamasse a minha atenção por estar parada, comecei a acompanhá-la. — Mas você sempre adorou se exercitar — estranhei, e ela fez cara f**a. — Estou quase morrendo, acha que estou com vontade de me m***r antes da hora? — perguntou ela, e o professor parou perto da gente. — Por que as duas princesinhas estão fazendo exercício como se estivessem quase morrendo? Eu e Ariel nos entreolhamos, mas não respondemos nada. — Vocês precisam se movimentar. Do jeito que estão, antes de chegarem à terceira idade não conseguirão nem andar — vociferou o professor, batendo as duas mãos aceleradamente, sinal para que aumentássemos o ritmo. Ele chamou a outra professora que passava por ali e nos ensinou como seria feito. Era algo em dupla, uma dava apoio enquanto a outra se alongava, depois trocavam e assim sucessivamente. Fácil. Quando o professor se afastou, encarei Ariel e ela mexeu o ombro sem falar nada. Achamos que era só isso o que ele queria, mas depois ele voltou com outro aluno e o colocou com Ariel. — Não quero vocês duas juntas. A única coisa que estou vendo de vocês até agora é conversa e nada de movimentos. — Ele olhou em volta para o restante do pessoal da classe. — Vamos, pessoal, isso vale nota. É bom movimentar o esqueleto. Dessa vez quem fechou a cara fui eu. Sempre fizemos par juntas não era justo ele trocar agora. — Luke, pode, por favor, vir até aqui? — chamou o professor, e olhei na direção em que ele estava olhando. Luke estava sentado em um banquinho há alguns metros de distância, segurando uma garrafinha de água. A jaqueta que ele usava estava ao seu lado no banco, e ele usava somente uma camiseta branca, com um jeans preto rasgado e as mesmas botas de antes. Ele sorriu de um jeito cínico quando o professor o chamou, largou a garrafinha de água no banco e veio até nós. — Quero que ajude Verônica no exercício. Será que pode fazer isso? — perguntou o professor, e Luke me olhou como se estivesse avaliando as opções, tipo se iria ou não aceitar a proposta do professor. — Posso fazer isso — respondeu ele por fim. — Será que não podia chamar uma garota? Não estou com vontade de fazer isso com ele — perguntei, e o professor começou a rir como se eu tivesse contado uma piada. — Algum problema com o MacDonell? — Quis saber o professor e balancei a cabeça — Nenhum, mas... Dei de ombros desistindo, não acreditava que ele iria fazer aquilo. — Sem chance! A menos que queira ficar sem nota. Sabe muito bem que quando escolho uma dupla, não troco por nada. — Ele arqueou uma sobrancelha fingindo estar esperando uma resposta Ai, ele tinha acertado justamente onde doía mais. Não podia ficar sem nota, era importante para o meu boletim final. Eu queria que o meu pai se orgulhasse de mim e não que se decepcionasse quando recebesse o boletim no final do semestre. Dessa vez eu é que queria xingar, poderia ser qualquer pessoa no mundo, talvez até mesmo Raquel, mas um garoto? E exatamente o Luke? — Foi o que eu pensei — disse o professor, saindo quando viu que eu não tinha nada para responder. Luke me encarou parecendo achar graça na situação. — Vejo que está feliz em me ver. — Nossa, é isso que você acha? Queria saber qual seria a sua resposta se eu não estivesse com vontade de te ver. — Era para ter soado como algo irônico, mas não achava que tinha causado o efeito desejado. — Você estava linda ontem. É sério? — É sério isso? — perguntei, um pouco constrangida com o flerte fora de hora, só que nenhuma parte de mim estava interessada em ouvir a resposta. Ou pelo menos achava que não. O professor passou perto de nós, nos advertindo, e Luke estendeu os braços para que eu segurasse e começasse o exercício. Hesitei para tocar nele, mas sabia que se não fizesse ficaria sem nota. Eu estava enganada quando achei que nada poderia estragar o meu dia. Ele estava começando a ficar nublado, muito nublado. Segurei o braço de Luke e comecei a fazer o exercício tentando ignorar o olhar perfurador que ele me lançava. Eu queria fugir dali e ficar longe dele, mas o professor não deixava. — Posso saber o que de tão interessante você viu em mim? Sinto que seu olhar vai perfurar meu crânio se continuar assim. — Achei você interessante. É serio? De novo? — Serio isso? Não tem nada melhor para dizer? — Como o quê, por exemplo? — perguntou ele e meu queixo caiu. — Eu é que devia perguntar isso — disse, ainda concentrada no exercício. — É você quem fica me encarando. — É interessante como você parece querer ignorar tudo a sua volta, isso me chama a atenção em você. Parei e dessa vez quem estava encarando alguém era eu. — Digamos que eu não me importo com coisas irrelevantes. — Não adianta você tentar esquecer o que aconteceu no passado, por mais que você tente fugir das lembranças, elas continuam perseguindo você. Fiquei parada, encarando-o. Poderia tentar achar uma resposta convincente, mas ambos sabíamos que seria mentira. Não tinha mesmo como esquecer o passado, por mais que tentássemos, ele ficava nos perseguindo e nos sufocando. Isso era terrível e inevitável. O fato de ele falar disso como se conhecesse já deixava claro que ele passou por uma situação difícil no passado e que agora não conseguia esquecer e seguir em frente, como eu. Por mais que acordasse todos os dias com um sorriso no rosto, talvez nunca fosse esquecer toda a dor que o Caleb me fez passar; isso estaria comigo para o resto da minha vida, ou até que chegasse uma hora em que eu iria conseguir seguir em frente. Nem sabia ou tinha esperança que essa hora chegasse. O professor passou perto da gente, novamente advertindo, por mais que não quisesse, ofereci minha mão para ajudar Luke. Se é que ele precisava. — Não preciso, já me exercitei hoje. — Pelo menos fiz a minha parte — Defendi-me. Ele saiu, voltando para o lugar onde estava antes. O professor liberou os últimos cinco minutos que faltavam para que os alunos descansassem, e eu fiquei sentada em um dos bancos com Ariel enquanto tomava um pouco de água. — Tantas pessoas para o professor escolher e ele te coloca justamente com o Luke — comentou Ariel parecendo indignada. — O que é que ele estava falando? — Alguma coisa sobre passado, não foi algo bem claro, então não sei como te explicar. Além de o fato de que sempre quando vamos conversar a conversa é enigmática e estranha, pensei — Aposto que ele tem um passado obscuro. Deve ser por isso. — Sinceramente não me importo. O exercício já acabou, agora não temos nenhum assunto para tratar com o outro. — E eu quero descansar, estou só o caco. Pode ter certeza que vou chegar toda dolorida aqui na escola amanhã. — Você ainda não se acostumou com isso? — Eu gosto dos exercícios, sério. Me ajuda a ter uma vida mais saudável. Só que agora estou em um processo de fazer algo sem ter realmente vontade. Tipo a vez em que seu pai te mandou para um curso de autodefesa. Esse acontecimento foi logo depois de toda a confusão com o Caleb. Meu pai me mandou para um curso de autodefesa, como para evitar situações de risco e saber se proteger diante de um ataque físico. No começo eu odiava ter que ir, mas com o tempo me acostumei e até que estava gostando. Agora saberia me defender em alguma situação perigosa. Ou pelo menos era o que eu achava. Algum tempo depois tentei me aventurar nas aulas de Muay Thai, mas não durei muito tempo. Nessa época Arielle se sacrificou e foi comigo para o curso, assim tiramos certificado de conclusão juntas, depois disso quando ela estava querendo fazer academia ou outra loucura que ela inventasse, como uma forma de retribuição eu me ofereci para ir também. Estávamos nisso juntas. Mas eu sabia que ela se sentia bem com o corpo dela do jeito que era, além de fazer exercícios etc., e também porque ela não conseguia abrir mão de comer besteiras de vez em sempre. Depois que fiz o jantar fiquei conversando com Ariel pelo celular, precisávamos ir até a biblioteca da cidade para concluir uma pesquisa para ser entregue na segunda-feira da semana seguinte, e tínhamos somente sexta e sábado para concluir, pois aos domingos era fechado. Na sexta-feira, fomos até lá mais à tarde, o melhor horário. Eu tinha que concordar com Arielle, os professores estavam realmente querendo nos m***r; eram provas, trabalho, pesquisa, redação… quase tudo ao mesmo tempo, e eu tinha que me esforçar para ir bem, queria ser o motivo de orgulho do meu pai. Passamos o resto da tarde pesquisando coisas que nem eu e nem ela tinha interesse em saber. Era alguma coisa muito antiga sobre história, meu cérebro parecia travar tentando enfiar dentro dele algum assunto que não tinha interesse. Eu quase agradeci aos céus quando finalmente tínhamos concluído. — Sabe do que eu preciso agora? Um cachorro-quente — disse Ariel. — Por que é que você faz academia se depois se entope de porcarias? — perguntei rindo enquanto ela deu de ombros distraidamente. — Eu faço para me manter saudável, para fazer pelo menos algum tipo de exercício. Estou bem com o meu corpo, muito obrigada. Eram mais de seis horas quando saímos da biblioteca, não havia muitas lanchonetes ali por perto, então se quiséssemos um, teríamos que tentar achar um carrinho ambulante. — Graças aos céus. Ali está um — Animou-se Ariel, dando pulinhos de alegria e apontando para o homem do carrinho. Como havia algumas pessoas na fila, eu e ela ficamos esperando. Eu odiava esse lado da cidade, era sempre movimentado e uma pessoa que eu não gostava de pensar, antes morava por ali. Desde a última vez em que o vi, fiquei sabendo que ele tinha mudado de cidade, eu não tinha certeza e preferia que continuasse assim, eu não o queria de volta na minha vida. Se tinha terminado dessa forma, era porque não era para dar certo. Sim, eu sou o tipo de pessoa que acredita em destino, apesar de tudo. Todas as coisas devem acontecer por algum motivo, e nossas escolhas influenciam nisso. Assim que chegou a nossa vez, fizemos o pedido e esperamos o homem terminar. Fiquei olhando em volta com uma sensação r**m; queria ter tirado isso da minha cabeça, mas era como se alguma coisa me atraísse para olhar. Voltei minha atenção para um hotel do outro lado da rua, onde havia algumas pessoas saindo, e um carro muito familiar parado lá perto. De repente alguém saiu vestindo uma calça jeans preta com uma camiseta escura, o cabelo desgrenhado e castanho… Caleb. — Meu deus! — disse virando-me para Ariel quando percebi que estava apertando a minha mão. — E-Eu... — V, o que foi? Você está bem? — perguntou ela parecendo assustada. — E-eu vi, eu o vi. Ele estava lá — apontei para o hotel, mas já não tinha ninguém lá. — Quem você viu? — perguntou ela parecendo confusa, encarando o lugar que antes eu achei ter visto Caleb. Não havia ninguém por lá, entrando, saindo ou perto do hotel. — Eu vi o Caleb — gaguejei, minhas mãos estavam tremendo e eu sabia que a minha respiração estava irregular. — Ele… Ele estava lá. — Você sabe que é impressão sua, né? Não tem ninguém lá. O Caleb foi embora daqui desde o ano passado, eu vi com os meus próprios olhos. Ele não frequentaria um lugar como aquele. — Eu tenho certeza que era ele. Eu vi o carro do pai dele. — Do mesmo jeito que tinha certeza quando achou que viu ele na escola no começo do ano? Isso é coisa da sua cabeça, não é real, você sabe. Ela tinha razão, eu estava fazendo tempestade num copo d'água. Caleb não voltaria, ele nunca gostou dessa cidade, do bairro e nem das pessoas, ele estava louco para sair daqui e não voltaria nem se tivesse conseguido. Eu tinha imaginado agora, da mesma forma que tinha imaginado antes. Fiquei atordoada com a situação, não iria negar, mas pelo bem de Ariel e do meu pai – que estava fazendo de tudo para que eu ficasse bem – eu precisava superar isso. Ficar lembrando e trazendo o passado de volta só me fazia m*l, detonava cada parte de mim que ainda estava intacta. Eu iria seguir em frente, iria esquecê-lo, por mais que doesse. Ele era minha kriptonita — me fazia muito m*l — e por isso devia mantê-lo longe. Quando voltei para casa com Ariel, meu pai ainda não tinha chegado devia ter acontecido algum imprevisto que o fez ficar até mais tarde. Ele sempre tinha folga alternadas por causa do trabalho intenso, trabalha um dia, folgava outros e assim sucessivamente. Aproveitei que estava sozinha e comecei a fazer o jantar pra ele, não estava com fome então faria o suficiente só para ele. Enquanto esperava a comida ficar pronta, fiquei no sofá assistindo alguma coisa que passava na televisão, Ariel ficava a cada cinco minutos mandando mensagens perguntando se eu estava bem, o que poderia fazer no sábado e domingo, que horas eu iria para casa dela na próxima semana para a sessão Supernatural, qual cor de esmalte ela devia usar, e etc. Eu já estava acostumada com isso, então as respostas eram quase padrão, “estou bem”, “ainda não sei a resposta”, “talvez, à 09h00”, “a que você goste mais” e assim seguia. Os pais de Ariel também trabalhavam muito, a mãe era mais protetora, mas ambos ficavam fora por um longo tempo, então, como nós não tínhamos irmãos e mais ninguém na casa para nos distrairmos, ficávamos trocando mensagens à noite, quando não tínhamos nada para fazer. Agora a mãe dela estava namorando outro homem – o marido dela pediu divorcio porque estava ficando com outra pessoa. Durante dois anos a mãe de Ariel ficou sofrendo, até finalmente seguir em frente. Agora ela tinha encontrado alguém que correspondesse seus sentimentos. Coloquei a massa do bolo no forno e subi para pegar um livro e continuar minha leitura. Iria descer para olhar o bolo em alguns minutos, então não haveria problemas. Já tinha lido praticamente todos os livros que comprei nas últimas semanas – ajudava a manter minha mente ocupada, me levava para outro mundo que, julgando, às vezes era bem melhor que o meu. Eu gostava disso, lembrava às vezes em que minha mãe sentava ao lado da minha cama e lia para eu dormir; ela lia com uma voz calma e serena, sempre achava que ela era a princesa encantada das histórias, e ela sempre sorria pra mim e me dava um beijo na testa enquanto esperava que eu dormisse. Essa era uma coisa que eu gostava nela, e era uma das minhas lembranças de infância. Também tive certeza dos detalhes porque meu pai tinha o vídeo de quando ela leu para mim a primeira vez. Aquela imagem jamais sairia das minhas lembranças. Saindo do meu “mundo encantando”, senti um cheiro estranho, olhei no relógio ao lado da cama e vi que tinha passado da hora de tirar o bolo do forno. Devia ter queimado. — Minha nossa! — exclamei enquanto corria para a cozinha. Desci as escadas correndo e já podia ver a fumaça vindo da cozinha. Eu tinha esquecido! Se meu pai visse aquela situação ficaria furioso. Ele sempre me advertia para tomar cuidado com fogo e coisas desse tipo, ele tinha perdido uma pessoa que amava dessa forma e não podia perder outra. Quando entrei na cozinha o vi desligando o fogo, tirando o bolo todo queimado e jogando dentro da pia. Quando me viu ele me olhou de forma apreensiva, e parecia estar muito bravo. A porta da sala ainda estava escancarada. — Ops! — É! Ops! — bufou ele, me encarando e, pela expressão, eu ia levar uma bronca. — Onde é que você estava com a cabeça, Verônica? — Eu… sinto muito. Não foi minha intenção. — É assim que acontecem as coisas. Não foi sua intenção, eu sei que não foi. Você precisa tomar cuidado com isso, quantas vezes eu já te disse? Você está querendo me m***r de susto? — Eu sinto muito. Eu juro que não vai se repetir. Ele passou uma mão no cabelo, parecendo cansado e assustado. Eu sabia que ele estava preocupado comigo, e com razão, eu tinha errado e assumiria meus erros. — Olha… você é importante demais pra mim. Eu não posso perder você também — disse ele. — Todos os dias em que saio para trabalhar, não há um segundo em que não me preocupo com a sua segurança. Mas saio feliz, porque sei que você é responsável e que conseguirá lidar com as coisas sozinha. — Isso não vai se repetir! Eu prometo. — Só prometer não é o suficiente. Você tem que tomar mais cuidado. Eu só tenho você, e se te perder eu perco tudo. Eu me sentia da mesma forma que ele. Ele era a única pessoa da minha família ainda aqui. Arielle fazia parte, é claro, mas não é como se fossemos irmãs de sangue e, por mais que nossa amizade fosse tão grande, jamais substituiria um sentimento familiar. Então eu compreendia. — Pai, eu sei disso. Essa é a primeira vez que acontece isso e prometo que também será a última. Eu subi para ler alguma coisa enquanto o bolo ficava pronto, mas comecei a lembrar sobre a mamãe… Quando ela lia pra mim. Ele me observou, pensativo. Sentíamos falta dela e isso nunca mudaria, mas as lembranças boas não deviam ser guardadas, e sim lembradas. — Ela adorava isso. Para você, ela era uma rainha e, para ela, você era a princesinha. Não havia uma noite em que ela não ficasse feliz em ler para você. — Eu sei. — Pelo que parece essa época do ano é difícil tanto para mim quanto para você. Mas tenho certeza que ela gostaria de nos ver felizes. Esperamos a fumaça dispersar da cozinha e ficamos sentados do lado de fora da casa. Enquanto isso, olhamos para o céu e nos perdemos em memórias sobre ela. O resto da noite fiquei por ali enquanto ele jantava. Diferente de outros pais, mesmo que ele se incomodasse, às vezes falava sobre a minha mãe para mim, e era outra coisa que eu admirava nele.
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