Capítulo 3

2981 Words
À noite, me arrumei para ir com Arielle ao cinema. Ainda era terça-feira o cinema não ficava tão cheio, o que pra mim estava ótimo. Como não me preocupava muito sobre roupas e sapatos, coloquei um vestido preto rendado com uma faixa na cintura da mesma cor; não iria colocar salto, porque não aguentaria ficar andando à noite com isso. Não era muito acostumada, então optei por usar um coturno preto. O cabelo, deixei solto como sempre. Iria ser somente eu e Arielle, duas amigas normais saindo para ir ao cinema, o resto do mundo não me importava. Sinceramente, pouca coisa realmente me importava, contanto que meu pai e minha melhor amiga estivessem bem, o resto eu poderia acabar lidando com o tempo. Foi uma coisa que tive que aprender com o tempo para me tornar mais forte. Quando você começa a se preocupar demais com que os outros vão pensar e deixa de fazer as coisas da sua forma por causa disso, percebe que começa a perder muita coisa, e no final das contas acaba se arrependendo por isso. Percebi que não queria viver minha vida presa ao passado. Havia superado a morte da minha mãe – ainda doía, claro, mas não era isso o que ainda me machucava e me fazia ser mais retraída. O problema ainda era ele. Depois de pegar meu celular e deixar um bilhete para o meu pai dizendo que iria sair com Arielle, a encontrei em sua casa. Ela usava um vestido azul curto na altura do joelho, e estava usando salto alto. O cabelo dela estava todo cacheado e era evidente o babyliss, já que seu cabelo natural era liso. Ela usava um gloss rosa na boca. — Estou começando a me sentir sem graça! Achei que iríamos somente ao cinema. — Falei, e ela sorriu ajeitando uma mecha do cabelo que estava caída sobre o rosto. — E vamos somente ao cinema. Mas não saio de casa sem estar preparada, nunca sabemos o que a noite nos reserva. — Estou parecendo uma caipira enquanto você parece que acabou de sair de uma sessão de fotos — brinquei e ela sorriu. Ela sabia que eu não me importava realmente com essas coisas. — Você está linda também. Então, vamos, antes que comece a sessão das nove do filme. Como nenhuma de nós ainda tem dezoito anos e não podemos dirigir, pegamos um táxi e fomos para lá. Em dias da semana, exceto sexta-feira, o cinema não ficava tão cheio, poucas pessoas frequentavam. Uma porque a maioria devia ter trabalho, faculdade ou escola, e outra porque não eram ótimos dias para sair e curtir para quem gostava disso. Além, é claro, que a maioria do pessoal preferia os clubes de dança que havia pela cidade. Já sexta-feira, sábado e domingo eram os dias em que mais lotava, e as pessoas ficavam animadas, afinal, todo mundo queria curtir um pouco mais o final de semana. Chegamos por lá cerca das 20h30, não tinham muitas pessoas por ali como havia pensado, mas tinha uma fila com cerca de dez pessoas esperando para comprar ingressos para o mesmo filme que iríamos ver. — Está vendo? Eu disse que qualquer um gostaria de ver gatinhos no cinema. — disse Ariel apontando para a fila. — Não é só por isso que as pessoas vão ao cinema, geralmente pode ser porque tem um bom roteiro, porque é adaptação de alguma coisa, entre outras coisas. — Me defendi enquanto ela fazia cara f**a. — Por isso também — falou novamente com aquele meio sorriso. — Eu vou comprar alguma coisa para a gente comer e você compra os ingressos. — Ok! Eu vou querer somente pipoca, não quero beber refrigerante e ter que sair no meio do filme para ir ao banheiro — disse, entregando o dinheiro a ela e pegando a parte dela do ingresso. Mesmo sendo melhores amigas, sempre que saíamos cada uma pagava a sua parte, era algo que tínhamos combinado. Era exceção somente quando alguma não tinha dinheiro, esquecesse em casa, ou por acaso uma aceitasse de boa vontade a ajuda da outra. Tivemos muitos problemas com ambas querendo pagar a conta no dia e então chegamos à essa conclusão juntas, assim nenhuma se sentia m*l por pagar a parte da outra. Fiquei na fila esperando a minha vez. Odiava o fato de ter que ficar plantada esperando, era algo que me deixava nervosa, mas como não tinha escolha, só me restava esperar. — Espero que não esteja me seguindo. Caso contrário, terei que chamar a polícia. — Soou uma voz atrás de mim. Virei o suficiente para ver quem era, apesar de já ter o nome do indivíduo na minha mente, reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Luke. — O… O quê? — perguntei surpresa e ele me encarou de cima a baixo. — Não estou seguindo você. — Não é o que parece — respondeu com um ar de divertimento. — Até parece que eu seguiria você. Eu nem te conheço — disse. Ele me olhou meio surpreso e percebi que teria que corrigir o que eu disse. — Eu não te seguiria nem se eu te conhecesse… Quer dizer, eu não sigo ninguém. Ele me encarou parecendo estar se divertindo com a minha confusão. — Escolha interessante. Fica bem em você. Dessa vez ele estava olhando diretamente para os meus pés. Não me senti nem um pouco ofendida ou desconfortável, eu gostava de usar coturno, era confortável. Eu odiava usar salto, não combinava comigo. Isso não queria dizer que eu nunca tenha usado, já usei várias vezes na minha vida, em festas de aniversário tanto minha quanto de Ariel, e algumas poucas vezes para sair. — Eu me sinto confortável com eles. Não que eu precisasse me explicar... — Você é bem diferente das outras garotas. Gostei, ruivinha — falou, apontando para cada garota que estava por ali, mostrando-me o salto alto que elas usavam. Exceto por outras duas garotas por ali, eu era a única usando coturno ou sapato. Ruivinha? — Eu levarei isso como elogio — disse e ele sorriu. — Não me importo em ser diferente. — Não disse que não gostei. Ser diferente é bom — Falou enquanto ainda me observava, ficava meio desconfortável quando ele me encarava daquela forma sem pudor nenhum, parecia que queria desvendar minha mente, desnudar minha alma e em alguns momentos sentia que ele estava conseguindo por dizer coisas que realmente eu estava pensando e ou passando. O engraçado é que eu também não conseguia desviar o olhar, a não ser claro, quando ele dizia algo repentino como nesse momento e me fizesse corar. Eu não sabia onde ele estava querendo chegar com aquela conversa, mas não iria cair, já tinha passado por essa antes e agora sabia muito bem como me defender, então ignorei qualquer outro pensamento. — O que faz por aqui? — perguntei , pra mudar de assunto. — Estou com uma pessoa — respondeu, olhando em volta como se estivesse procurando essa tal pessoa. — Então, porque está aqui falando comigo? Sabia que é falta de educação deixar os outros esperando? — Já parou para pensar que talvez eu não seja educado? — Perguntou com aquele meio sorriso debochado. O encarei, tentando adivinhar se estava de deboche novamente, sendo irônico ou se realmente estava falando a verdade. Pela expressão serena, diria que seria a última opção. A fila continuou andando até chegar a minha vez. Comprei dois ingressos e esperei em um canto por Ariel. Vi quando Luke comprou um ingresso e saiu em direção oposta. Logo em seguida, uma garota parou à sua frente, pegou o ingresso com ele, disse alguma coisa, e então ele foi em direção à saída. Ariel chegou com o braço cheio de coisas e eu a encarei de forma apreensiva. — Decidiu comprar tudo o que tinha no estoque? — perguntei ajudando-a a levar algumas coisas. Ela havia comprado dois sacos de pipoca médios, refrigerante, chocolate, entre outras coisas que eu não conseguia identificar só por olhar. — Eu fico com fome com facilidade — disse, comendo um pouco de pipoca. —Minha fome é grande, e até o filme acabar, preciso de algo para manter minhas mãos ocupadas. Sabe que fico nervosa com facilidade também. Além do mais, o dinheiro é meu e compro o que eu quiser. Quem quiser reparar que repare, não irei perder nada com isso. Concordei com a cabeça enquanto ia para a sala do filme, como estávamos um pouco adiantadas e o filme só começava as nove, poucas pessoas ainda tinham chegado, então felizmente conseguimos ficar no fundo da sala. Algum tempo depois, a sala já estava quase cheia, o filme já estava na metade. De vez em quando olhava para Arielle e a via suspirando pelos carinhas bonitinhos do filme. Ela devia estar gostando, pois sua pipoca estava quase intocada. Tirando a parte de eles terem que ficar se exibindo demais e arrancando suspiros das mulheres da sala, o filme até que era legal. Não que eu não gostasse disso, mas acabava tirando todo o foco do filme. A garota que estava falando com Luke antes, agora estava sentada algumas cadeiras à nossa frente. Ela parecia ter uns quatorze ou quinze anos, devia ser uma irmã ou algo do tipo. Ela tinha o cabelo castanho, batendo na metade das costas e era bonitinha. Parecia ser simpática. Depois do filme, ao sairmos, me desfiz do pacote de pipoca. Não havia comido muito, por isso ainda restou alguma coisa. Como ainda estava com fome, pensei em chamar Ariel para ir a algum lugar, só que não tinha certeza se caberia mais alguma coisa no estômago dela. — Comeu tudo o que você comprou? — perguntei, na mesma hora em que a vi jogando os chocolates e outras coisas dentro da bolsa. — Esquece! — O filme conseguiu me distrair, então nem me lembrei que queria comer. Está pensando em ir a algum lugar? Ela me observou enquanto fechava a bolsa. — Também não comi muito da pipoca, estava pensando em irmos a um restaurante, lanchonete ou sorveteria. Algo assim. — Preciso de algo gelado — falou ela. Com isso ela queria dizer que preferia a sorveteria. — O que você e o Luke estavam conversando àquela hora? Achei que você o chutaria de lá nos primeiros segundos do primeiro tempo. Além disso, o que ele estava fazendo aqui? — Acho que comprando ingressos para alguém. Ele estava falando sobre os meus sapatos e sobre como tenho um gosto diferente. — Estranho isso. — Por quê? — É meio de semana, querida. Geralmente gente como ele estaria em algum racha pela cidade. Acho que ele foi obrigado a comprar ingressos para a garota, deve ser namorada dele. — Ela parecia ter uns quinze anos — falei, e Ariel pareceu surpresa. — Então, ou ele gosta de garotas mais novas, ou ela é a irmã dele. Qualquer que sejam as opções, eu não me importo. — Certo! Agora, vamos mudar de assunto? Não estou a fim de falar sobre garotos. — Desculpe. Não foi minha intenção. Saindo do cinema, me deparei com Luke do lado de fora, sentado em sua moto e conversando com alguém no celular. A garota de antes apareceu e ele a entregou um capacete. — Espero que essa seja a última vez que ele pede algo assim. Não tenho a obrigação de cuidar de você. — Não é porque você o odeia que precisa descontar em mim, Luke. Eu pedi para que ele me trouxesse, não você. — Não estou descontando em você e não me importo em tê-la trazido aqui. É que tenho algo importante para fazer essa noite — falou, enquanto dava partida na moto e a garota subia — Além disso, você sabe que ele só me chama pra me provocar. Ariel me encarou e eu conhecia aquele olhar — Eu disse, não disse? Esse “algo importante” deve ser corrida clandestina. E aquela obviamente deve ser uma irmã. Ela me olhou com cara de quem acaba de solucionar um quiz. Eu dei de ombros. — Achei que não iríamos mais falar de garotos. — Perdão. Você sabe que eu adoro me gabar quando tenho razão. Prometo que, pelo resto da noite, não falaremos mais sobre garotos ou qualquer coisa que os inclua. Saindo dali fomos para a sorveteria e, como o prometido, Ariel não tocou em assunto nenhum que incluísse o s**o masculino. Passamos as últimas horas conversando sobre várias coisas sem importância. O legal da gente é que conseguíamos nos distrair facilmente e qualquer assunto que tocávamos conseguíamos sustentá-lo por horas, falando de vários tipos de coisas. Voltando para casa, meu pai estava deitado no sofá da sala com a TV ligada, pelo que conhecia dele, devia estar me esperando e acabou pegando no sono. Ele sempre ficava preocupado quando eu chegava tarde e não ligava para avisar antes. Desliguei a televisão e o chamei, ele acordou meio confuso ao me ver. — Desculpa não ter ligado, achei que o bilhete fosse suficiente. — Mas não é — retrucou, passando uma mão no cabelo e olhando em volta. — Sabe que me preocupo com você… achei que tivesse acontecido alguma coisa. Sempre que vai demorar você avisa antes. — Sei disso. É que depois do filme passei em uma sorveteria com Ariel e ficamos conversando. Não tínhamos planejado isso antes. — Achei que aquele i****a estivesse voltado… — começou ele e parou. — Desculpe, eu sei o quanto ele te fez m*l, mas não paro de pensar um minuto que ele vai voltar. E eu prometo, se ele aparecer por aqui de novo eu o mando para a cadeia. — Não tem que ficar se preocupando com isso — falei. — Não acho que ele vá voltar. — Tentei dizer isso com determinação, como se realmente tivesse certeza, mas, na verdade nem eu mesma estava convencida disso. — Deixei o jantar na geladeira para você, se ainda estiver com fome pode esquentar no micro-ondas ou fazer alguma coisa você mesma. — Estou sem fome. Como disse, eu e Arielle passamos na sorveteria. — Estou indo dormir, então — falou, deixando transparecer na voz o ar cansado. E eu realmente sabia o quanto ele estava cansado. Após tomar novamente um banho, fiquei algumas horas deitada e continuando a minha leitura de “O símbolo perdido”. Estava sem sono e não tinha nada para fazer nessa hora da noite, exceto ler. Poderia ficar navegando na internet, isso poderia me distrair, mas no momento não conseguia pensar em nada para fazer lá. Peguei o meu celular e mandei uma mensagem para Arielle: Ainda está acordada? Ela respondeu: Acha mesmo que vou conseguir dormir depois de ter comido tanto? Não tenho nada para fazer e ainda estou sem sono Ela: A culpa é sua que não quis ir para outro lugar. #Chatiada Meu pai ficaria preocupado. Sabe muito bem como é Então, ela mandou: Eu sei disso, mas sabe que depois de tudo o que aconteceu ele quer que vc seja feliz :) Mas, eu sou feliz, tenho a melhor amiga do mundo juntamente com o melhor pai do mundo. Não tem como isso ficar melhor S2 Apesar de ter dito aquilo, uma parte de minha discordava, amava os dois porque eles eram a minha família, mas depois de tudo o que Caleb fez, era como se um buraco n***o tivesse sido aberto no meu coração, arrastando junto a ele toda a felicidade que eu conseguia ter. Não era só por isso, eu já estava sofrendo com a morte da minha mãe, e logo depois disso, teve todo aquele problema com Caleb, era demais pra mim e não sabia se conseguiria suportar se perdesse mais alguém importante na minha vida. Fico feliz com isso, mas sou sua melhor amiga e tenho que ser sincera com você. Precisa esquecer logo aquele i****a e continuar a sua vida. Sei que se preocupa comigo, o problema não continua sendo ele... Continua sim Não estou pronta para me envolver com alguém. Enquanto isso eu quero continuar pensando sobre o meu futuro Terminar a escola e o que farei na faculdade. Isso era mais uma coisa que nos fazia ser tão unidas: ela sabia quando eu precisava de espaço e não tentava ficar invadindo. Não vou insistir Okay? Essa parte não era mentira. Nenhuma parte de mim ainda estava pronta para me envolver com outra pessoa, para me apaixonar. Eu não conseguia mais confiar nas pessoas da mesma forma que confiava antes. Sempre desconfiava delas, enquanto mantivesse a cabeça ocupada poderia continuar seguindo em frente e tentando ignorar o buraco n***o no meu coração. Pensando sobre a escola, sobre a faculdade, minha amiga e meu pai, isso no momento era a coisa mais importante na minha vida. Eu confiei demais em alguém e me decepcionei demais por isso. Quero seguir um caminho como os dos meus pais, salvar vidas e ajudar pessoas, mas ainda não tenho algo em mente do que vou fazer, poderia optar por ser uma médica ou algo do tipo, mas não conseguia me ver em um hospital quase 24 horas por dia. Eu meio que tinha e ainda tenho medo de lá, é algo como trauma, foi um choque pra mim quando recebi a noticia da morte dela. Desde aquele dia, sempre que precisei ir a hospitais me sentia ainda pior do que já estava, eu associava as duas coisas. Fiquei mais alguns minutos conversando com Ariel e depois me despedi, estava começando a ficar com sono e não queria deixar minha amiga no celular conversando sozinha. Se fizesse isso, na manhã seguinte ela ficaria chateada e deixaria de conversar comigo, e voltaria só quando estivéssemos saindo da escola. Já havia passado por isso antes e não iria querer correr o risco novamente.
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