Às vezes, por medo, acabamos criando uma redoma à nossa volta, com medo de embarcar em uma aventura e nos machucarmos. A vida é feita disso, de se arriscar em coisas que você sabe ou duvida que dê certo no final. Mas o único jeito de saber a resposta é arriscar.
Eu sabia que no final poderia acabar sendo machucada, e me arrepender de ter aceitado conhecer Luke, mas no fundo do meu coração e, pela primeira vez, sentia que ele era confiável. Talvez estivesse apostando mais na sinceridade dele do que apostei em Caleb.
Eu aceitei conhecê-lo, saber mais sobre o mundo dele… não era um relacionamento, não havia nada para ter medo. Ele fazia algumas piadas que às vezes me deixava constrangida, mas sabia que era por brincadeira, e, também por provocação, sem contar que ele não tentava forçar as coisas entre nós dois. Ele sabia respeitar o espaço pessoal das pessoas, por mais que tivesse aquela atitude impulsiva e explosiva.
Voltamos a sair no final de semana. Arielle estaria no noivado da mãe dela. Ele me levou para conhecer lugares na cidade que nem sabia que existiam, e era divertido. Sempre vivi ali a minha vida toda e nunca tive interesse em conhecer outros lugares além dos que frequentava regularmente. Acreditava que, se minha mãe ainda estivesse viva, junto com meu pai, teríamos conhecido vários lugares interessantes.
No final da tarde, voltamos à praia. Eu gostava de ir ali, ficar observando o pôr-do-sol sem preocupações, era confortante.
— Então, você não tem namorada? É estranho pensar em um cara do seu tipo que não saia por aí ficando com alguém — disse.
Não que estivesse achando que ele era um pegador e que saia por aí destruindo corações, mas geralmente caras como ele gostavam de aproveitar, dormir com garotas sem compromisso nenhum e no dia seguinte partir para a próxima. Já ele, parecia ser diferente, ele tinha ignorado as meninas da escola quando elas suspiraram por ele, e desde que o conheci — quando o via — nunca o vi perto de alguma outra garota ou flertando.
— Terminamos há um ano e meio. Peguei ela dormindo com outro cara.
— Ah… — comecei, mas não sabia exatamente o que dizer, ele parecia estar apto a falar. — Ela não te amava?
Que pergunta i****a para fazer a quem foi traído...
— Ela amava o tipo de cara que podia bancar joias e roupas caras. Eu deveria ser para ela mais como um brinquedo mesmo.
— Você a amava?
— Ela era… importante. Algo como o primeiro amor, dizem que nunca esquecemos, e é meio verdade. — Ele pareceu frustrado. — Mesmo que seja com memórias ruins. Isso é uma d***a mesmo.
— Então você não ficou com outras garotas depois dela?
— Já, mas não era namoro, elas sabiam disso. — Ele me observou como se tivesse dito algo errado e logo tratou de acrescentar. — Quer dizer, não que eu não quisesse nada sério, mas me senti muito quebrado, não conseguia confiar nas outras garotas ou nas pessoas da mesma forma. Ficava desconfiando de todo mundo o tempo todo e, era um saco.
— É difícil confiar em alguém de novo depois que outras pessoas nos decepcionam — disse, ele assentiu com a cabeça sem dizer nada. — Qual seu problema com o Harry? Parece ter ficado alterado depois daquilo.
Eu achei que ele fosse ignorar a minha pergunta ou dizer que não era problema meu, mas ele simplesmente respondeu:
— Ele é menor de idade. É como um irmão mais novo. Ele não deveria estar envolvido nesse mundo. Eu não vou deixar que ele tenha o mesmo destino que... — ele parou antes de terminar. Uma sombra n***a passando por seus olhos, trazendo-lhe memórias ruins.
— Não precisa continuar — falei, eu sabia que às vezes certos assuntos eram complicados.
Ele olhou o celular, parecia ter recebido mensagem de alguém, então ele levantou-se e ofereceu a mão para me ajudar.
— Algum problema?
— Dessa vez não! Vai ter uma corrida importante essa noite, e eles precisam de mim lá.
— Então, eu acho melhor você ir.
— Na verdade, eu gostaria que você fosse também. Seja a minha parceira essa noite.
— O quê? Quer dizer, o tipo de corrida que eles levam alguém na garupa? Sem chance. Eu... tenho medo.
— Então apenas assista. Se não for se incomodar com a multidão, é claro.
Estava divida entre o medo e a vontade de voltar para casa, mas pensando no assunto, se voltasse ficaria sozinha por lá, Arielle estava no noivado da família dela e meu pai provavelmente ainda estava no trabalho ou resolvendo outros assuntos.
Eu aceitei ir com ele até lá. Eu poderia ficar em algum canto enquanto ele corria, sabia que poderia ficar aflita, mas isso era o que ele gostava de fazer, mesmo que eu não gostasse um pouco tinha que apoiá-lo.
Chegando lá, já havia varias pessoas no local. Estava mais lotado do que da última vez em que estivemos ali, vários adolescentes, tanto homens quanto mulheres e também alguns homens mais velhos, todos já estavam com suas motos paradas perto do lugar de partida, sobrando somente um lugar. Algumas garotas estavam montadas na garupa, aguardando.
Luke foi até lá enquanto eu o observava, como Derek estava ali por perto decidi ir e ficar perto da pista, assim conseguiria ver Luke correndo e impediria outro constrangimento com Derek.
— Você vem?— perguntou ele me observando.
Algumas pessoas começaram a me encarar e me senti um pouco constrangida, eu sabia que poderia ser perigoso, mas não poderia negar que estava com vontade de sentir a sensação. Mas, além disso, eu tinha que pensar no meu pai, se alguma coisa acontecesse naquela corrida, ele ficaria louco, ele já tinha perdido uma esposa que amava muito, não aguentaria perder a única filha que tinha. E também, eu queria que ele se orgulhasse de mim, e se soubesse sobre isso, seria a última coisa que aconteceria. Ele era importante para mim, não queria de nenhuma forma que ele ficasse bravo comigo.
— É melhor não. — Falei um pouco decepcionada com aminha própria covardia.
Ele assentiu sério enquanto todos ligavam os motores, uma garota saiu da multidão e foi correndo até ele.
— Se você não vai, eu vou. — Ela sorriu enquanto subia na moto e enlaçava os braços em Luke — Luke está acostumado com garotas corajosas.
Não sabia se era impressão minha ou o que, mas o observei se contrair quando a garota o tocou.
— Não tire conclusões, é só uma corrida. — Ele falou, não soube identificar se aquilo foi dirigido a mim ou a garota na garupa, mas, de repente ela ficou séria e disse alguma coisa a ele. Ele pareceu nem notar que ela estava ali, pois não olhou para a garota uma vez desde que ela enlaçou os braços nele.
Ou pelo menos estava ignorando a presença dela
Ela tinha uma aparência jovem, devia ter uns dezenove ou coisa assim. Cabelos pretos com mechas vermelhas que batia até na metade das costas, usava jeans rasgados, botas, regata e uma jaqueta de couro preta.
Eu senti uma pontada de ciúmes e por isso tentei ignorar falhando miseravelmente. A forma que ela o tocava parecia algo íntimo que me fez contrair um pouco e por isso nem pensei no movimento seguinte:
— Não! Eu vou!
Tanto Luke quanto a garota olharam pra mim com uma expressão de espanto, ela parecia estar se divertindo com a situação, pois estava com um sorriso provocativo no rosto como se dissesse que sem chance de eu topar fazer algo como aquilo. Ele me encarou me avaliando, meio preocupação e meio excitação, eu podia ver nos olhos dele que ele estava tão ansioso quanto eu. Os olhos dele encontraram os meus por mais tempo que consegui manter assim; ele estava esperando meu consentimento, sabia que eu estava com mais medo do que estava demonstrando, mas não deixaria que outra garota tomasse o controle da situação — não que eu estivesse só com ciúmes, mas provaria que tinha mais coragem do que demonstrava.
Até mesmo naquela fração de segundos quando ele virou para me olhar, em nenhum momento ele encarou a garota atrás de si. Seu olhar estava direcionado para mim, como se eu fosse a obra de arte mais linda do mundo e ele só conseguisse ter olhos pra mim, de alguma forma me senti meio nua e corei, e foi exatamente aquele olhar dele que me fez ter certeza de que eu queria mesmo ir. Fazia eu me sentir segura.
Eu assenti indo até ele e ele me entregou o capacete.
— Então agora você confia em mim? — Ele riu.
Eu ignorei o que ele disse e subi na moto colocando o capacete.
As motos começaram a ranger quando uma garota jovem de short curto e regata foi para o meio da pista e levantou um lenço branco, a multidão vibrou e meu coração disparou. Eu estava mesmo mais nervosa do que estava demonstrando, eu estava tremendo e minhas mãos suavam, tanto que precisei respirar fundo. Todas aquelas pessoas olhando para gente, tanta gente gritando animada ao mesmo tempo, eu conseguia entender agora a sensação, porque meu coração também começava a vibrar e eu já podia sentir a adrenalina, antes mesmo de as motos começarem a correr.
As motos começaram a ranger mais ainda, ansiosas para saírem do lugar, os competidores encaravam um ao outro antes de voltaram a atenção para a pista.
— É melhor você segurar firme. E aconteça o que acontecer, não me solte.
— Nunca! — Falei e ele riu.
Eu enlacei minhas mãos na cintura dele com toda a força que tinha. Ele não iria se conter, não mesmo, e eu não queria ser a culpada se ele perdesse a corrida, o que sinceramente esperava que não acontecesse, porque querendo eu não eu sentia a emoção daquelas pessoas gritando — algumas chamavam nomes que eu desconhecia e tinha até mesmo torcida para Luke. Meu pai ficaria louco se soubesse que participei de algo assim, mas eu queria, eu realmente queria saber a sensação, mesmo que todas as células do meu corpo me dissessem que era perigoso. Era claro que seria, isso era adrenalina!
Talvez eu tivesse com um pouco de medo por causa de noticias que via na televisão, e o que o povo falava. Era obvio que isso era perigoso e ilegal, eu devia ser a primeira a discordar de tudo isso porque ia contra tudo aquilo que meu pai acreditava e aceitava. Mas se esse era o mundo de Luke, eu deveria aceitá-lo e compreendê-lo, porque quando estamos conhecendo as pessoas não devemos tentar mudar o que ela é, e sim compreender o mundo dela. A não ser que ela estivesse caindo em um abismo de vícios ruins, e, esse não era o caso.
E... eu queria compreendê-lo, queria conhecer as dores e alegrias dele, também sabia que corridas era o que o movia. É exatamente a alegria dele.
No começo, quis afastá-lo, pois sabia que ele poderia ser encrenca, mas a verdade é que eu estava errada sobre ele. Bom... talvez estivesse errada sobre ele, nesse pouco tempo em que estivemos juntos, ele se mostrou mais humano do que Caleb. Ele parecia me entender, e isso era bom.
Era real!
Os competidores deram partida nas motos acelerando e a torcida foi a loucura gritando mais ainda, eu senti uma sensação estranha no estomago, uma mistura de excitação e medo, queria que ele parasse a moto no mesmo segundo, mas também queria que ele acelerasse.
Consegui observar só o suficiente para ver um ou dois competidores passar na frente de Luke, quando ele acelerou tanto, que o vento parecia querer rachar a minha pele e foi então que fechei os olhos.
Não conseguiria dizer se Luke tinha conseguido ultrapassar ou se mais alguém havia passado na frente dele, fiquei com medo de verificar, quando, por fim, olhei e vi como a situação estava: na pista, estava empatado entre Luke, Dony e outro competidor que eu não conhecia, os outros corredores estavam logo atrás, faltando muito pouco para alcançá-los. Eu o observava, meu coração estava disparado e estava empolgada com a corrida. A adrenalina percorrendo cada célula do meu corpo e dentro de mim eu torcendo para que Luke ganhasse.
Depois de algum tempo vi Dony ao lado de Luke tentando ultrapassá-lo, ele acelerou passando de raspão perto de Luke, o que fez com que ele perdesse o controle da moto e quase caíssemos. Luke acelerou novamente e parou com a moto na frente dele, impedindo-o de continuar a corrida. Os outros participantes ultrapassaram e Dony desceu da moto, seguido de Luke que desceu depois de mim tirando o capacete e eu afastei rapidamente sentindo vertigem.
Eu fiquei encarando a pista onde eles estavam. As outras garotas desceram e se afastaram enquanto algumas pessoas se aproximavam em grupos.
— Cara, qual é o seu problema? — disse Dony parecendo enfurecido, ele foi até Luke e deu um soco nele.
Luke revidou e os dois começaram a brigar.
— Qual o seu problema? Tem sempre que ficar roubando? Não consegue vencer direito?
— Até parece que existe regras nisso. Eu venço da maneira que eu quero.
— Ou seja, trapaceando.
Dony estava com muita raiva, o rosto dele e o de Luke estava machucado, se não estivesse errada poderiam até estar sangrando, eu não conseguia entender porque ninguém parava os dois, porque estavam deixando que eles fizessem aquilo um com outro. Mas pela expressão no rosto das pessoas conseguia notar que não era a primeira vez que eles viam uma cena daquela, deveria ser algo frequente por ali. Assim como a briga do outro dia.
Eu me aproximei deles tomando cuidado para não chegar perto demais.
— Porque vocês não param com isso? Parecem duas crianças. — Vociferei, tinha certeza que a multidão estava me encarando, mas tentei ignorar os olhares.
Dony começou a rir e limpou com as costas da mão o sangue que escorria da mandíbula dele.
— Agora arrumou outra pessoa para tomar conta? Essa daqui deve ser mais fácil, né? Ela não parece nem um pouco com aquele i****a suicida do seu irmão. Foi bem feito ele ter morrido naquela corrida. Assim talvez você tenha aprendido a dar valor ao que importa.
Ninguém merecia ouvir isso. Era c***l.
Eu parei entre eles sem nem ao menos pensar no que estava fazendo, com a raiva fervendo dentro de mim, e, então, dei um t**a em Dony, ele me encarou chocado e furioso e avançou. Duas pessoas seguraram o braço dele e Luke me puxou para trás.
— Você não vai tocar nela.
— Está querendo machucar uma garota agora, Dony? O que você está pensando? Não fazemos isso. — Censurou Derek.
— Escuta aqui... — começou ele, com raiva, tentando se livrar dos braços de Derek e o outro homem.
— Escuta aqui você, não tem o direito de brincar com os sentimentos das pessoas dessa forma. Isso é desumano. Não importa o que tenha acontecido no passado, você não tem esse direito. Eu duvido muito que iria gostar se alguém te provocasse sobre alguém importante que você perdeu.
Dony me encarava como se quisesse me m***r, Luke segurou no meu braço mantendo o olhar em Dony e me puxou dali.
— Isso vai ter volta. Pode ter certeza, ruiva.
— Não precisava ter feito isso, eu podia resolver. Você praticamente se tornou um alvo — Luke anunciou, nervoso. Depois respirou fundo — Foi estupidez, mas também muito corajoso.
— Eu sei. — respondi
Ele me puxou dali sem olhar na minha cara e podia sentir pela tensão nele o quanto ele estava com raiva, as veias no braço dele saltavam e o peito dele subia e descia euforicamente como se ele tivesse acabado de correr uma maratona.
Ele estava machucado e escorria sangue da boca dele, meu estomago se contorceu, eu não conseguia aceitar que duas pessoas simplesmente estivessem batendo uma na outra e uma multidão inteira sem fazer nada.
Luke ainda estava nervoso, e eu tinha quase certeza que ele iria dizer alguma coisa, mas ele parou parecendo estar concentrado em alguma coisa. Sirenes.
— d***a. — Xingou, me puxando pelo braço e correndo até a moto.
As pessoas por ali começaram a correr, desesperadas, e em frações de segundos a maioria dos motoqueiros que estavam por ali já tinham sumido do meu campo de visão. Luke me entregou o capacete e ligou a moto rapidamente. Eu enlacei meus braços na cintura dele com força para não cair, eu sabia que ele iria correr. Eram as sirenes de policias, se eles os pegassem eles estariam encrencados. Eu estaria encrencada. Nicolas era melhor amigo do meu pai e trabalha na policia, de vez em quando ele fazia rondas pela cidade. Se dessa vez fosse ele que tivesse vindo e me visse ali, ele poderia contar ao meu pai e eu estaria encrencada.
Luke acelerou, seguindo por aquela pista onde antes, ele tinha corrido com os outros, em seguida ele cortou caminho passando por uma rua, um beco e em seguida estávamos em uma avenida. Eu forcei os braços em volta dele com os olhos fechados, estava com medo, não de cair, mas de toda a situação em si. Quando não era mais possível escutar alguma sirene e já podia escutar que a moto estava em uma velocidade normal, abri os olhos.
Estávamos em uma rua deserta com alguns comércios por todo lado, na qual, àquela hora já estavam quase todos fechados, estava silencioso e, de alguma forma, isso me deixou mais calma. Luke estacionou a moto perto de uma calçada e eu desci. Ele ficou sentado na moto e passou uma mão na boca, ainda estava sangrando.
Olhei em volta procurando algum comercio que estivesse aberto; qualquer lugar que eu pudesse comprar alguma coisa para o ferimento, mas não havia nada. Luke, me encarava de uma forma curiosa.
— Você está com medo? Não me diga que você quer chorar.
Eu sorri
— Não!
Precisava encontrar alguma coisa para improvisar um lenço, então, olhei para a blusa que eu usava — uma de multicamadas —, e arranquei um pedaço dela, Luke me encarava de sobrancelha erguida.
Eu me aproximei com calma tomando cuidado para não esbarrar nele no processo e acabar encostando nele. Ele ficou me observando enquanto eu limpava o machucado e o sangue que escorria da boca dele. Ele estremeceu e conteve um sorriso.
— Sabe que não precisa fazer isso, certo? Não é a primeira vez que isso acontece.
— Desculpe se eu não estou acostumada com isso. — falei, percebi que estava tremendo, mas preferi ignorar — No meu mundo, quando as pessoas se machucam as outras costumam ajudar.
— No meu mundo, quando as pessoas se machucam as outras costumam pisar em cima pra piorar.
Ele parecia estar sendo sincero, e mesmo se eu quisesse, talvez não conseguisse compreender tão bem o mundo dele. As pessoas tinham que ajudar as outras e não pisar nelas.
Notei que Luke me observava e acabei corando e puxando o meu braço, ele segurou com calma.
— O... o quê? O que foi?
— Não precisava ter feito aquilo, eu mesmo poderia ter resolvido o problema, eu sei me defender. Você não sentiu medo?
— Eu não podia deixar que ele brincasse com seus sentimentos daquela forma, é desumano. Além disso... eu sabia que estaria lá para me proteger.
Um meio sorriso se formou no rosto dele.
— Eu achei que não confiasse em mim.
Eu mantive meu olhar no dele com medo de que, se desviasse poderia acabar corando.
— Isso foi antes de te conhecer.
Estávamos muito perto, eu tentava não deixar que o pânico tomasse conta de mim, Luke não me machucaria, ele não faria isso. Estaria eu, sendo ingênua de novo por pensar assim? Confiei em Caleb e ele me machucou, mas de alguma forma sentia que Luke era diferente.
Ele é diferente. Agora é uma certeza e não mais dúvida.
Ele me observava firmemente, mantendo o olhar no meu, eu não conseguia desviar o olhar do dele, era como se estivesse hipnotizada e de alguma forma, eu queria ficar daquele jeito. Ele estava muito próximo de mim e eu sabia o que aconteceria a seguir. Sua mão estava em meu rosto, e estávamos tão próximos que podia sentir a respiração dele, mas eu não consegui. Desviei o olhar afastando um passo para trás.
— E-eu sinto muito, eu não... eu...
— Não tem que explicar. — Falou.
Eu estava constrangida e não sabia o que dizer.
— Vou levar você para casa.
Ele ajeitou-se na moto e me entregou o capacete novamente, minha mão estava tremendo, e meu coração disparado, eu não sabia o que fazer. Mas aceitei o capacete dele, de uma forma ou de outra teria que ir para casa.
Ele dirigiu sem dizer nada, eu não conseguia formular uma explicação, mas a verdade era que nada precisava ser explicado. Tinha sido um quase, beijo e isso não significava nada. Nem que eu devia explicação a ele ou que ele me devesse alguma explicação. Estamos agitados demais pelo que tinha acontecido na pista, aquilo foi somente... uma confusão. Isso! Uma confusão.
A estrada estava deserta, escutei o barulho de uma sirene quando vi que era a policia. Respirei fundo tentando manter a calma. Luke estacionou e o policial saiu da viatura, foi quando consegui ver a pessoa.
— Não. Não acredito nisso.
— Relaxa, eu tenho os documentos. Por agora eles não vão conseguir me prender — Falou, enquanto um sorriso preguiçoso se estendia pelo rosto dele.
É claro que eu entendi o recado oculto por detrás daquilo. Ele poderia não ser preso agora, mas poderia ser preso em outra hora em uma de suas corridas.
— Não é isso. E-ele é...
— O tal amigo do seu pai que você falou? — perguntou Luke enquanto observava Nicolas — E qual o problema?
Ele terminava de pegar alguma coisa na viatura antes de vir até nós.
— Se ele me ver com você pode acabar contando ao meu pai. Ele vai... ele...
— Então é esse o problema. — falou parecendo ter pensado alto.
Luke mexeu no bolso e pegou uma carteira tirando alguns documentos, Nicolas veio até nós e nos encarou. O olhar dele foi de Luke até mim.
— Verônica? O que você está fazendo aqui a essa hora da noite? E com esse rapaz? Acredito que seu pai não saiba disso.
— Ele... ele... Quer dizer, eu estava...
Eu não conseguia formular uma mentira convincente, não era boa em mentir, nunca precisei, mas eu não podia contar que tinha saído com Luke, ele poderia contar tudo ao meu pai.
— Eu estava dando uma carona a ela.
Nicolas encarou Luke de uma forma desconfiada
— Seu pai não sabe disso, não é? Tenho certeza que ele está muito preocupado com você. Sabe que pode me contar qualquer coisa, certo? — perguntou mantendo o olhar no meu, eu sabia o que ele estava querendo dizer, mas não era como se Luke estivesse me sequestrando ou eu estivesse ali contra minha vontade.
— Eu sei disso. Já estou voltando para casa, então não precisa se preocupar. Não precisa contar nada ao meu pai.
— Nos últimos meses, desde o final do ano passado ele andou muito preocupado com você, chegou ao ponto de perder a concentração no trabalho dele. Ele se importa muito com você, não suportaria se alguma coisa lhe acontecesse.
— Eu sei disso, Nicolas. Obrigada, mas eu já estou voltando não tem que se preocupar.
— Quer que eu acompanhe você até em casa? — perguntou ele observando Luke de cima abaixo, sabia que ele não tinha gostado de Luke. Ele devia estar pensando que eu estava sendo coagida por Luke.
— Não precisa.
— Por que você está machucado?
— Isso é importante?— Luke respondeu com um ar atrevido
— É se você anda com a filha do meu melhor amigo. Eu os acompanho desde que ela era uma criança. É o meu dever cuidar dela. Se você tentar alguma gra...
— Ele...
— Não foi nada demais. — disse Luke me interrompendo e entregando os documentos, ele observou tudo direito e depois acenou com a cabeça.
— Acho bom voltar logo para casa, Verônica. Não é seguro ficar em um lugar como esse, na rua, sozinha.
Ele voltou para a viatura e Luke deu partida na moto. Eu estava constrangida pelo fato de Nicolas ter tratado Luke como se ele fosse um criminoso, mas eu duvidava que alguma coisa que eu dissesse naquele momento pudesse mudar a situação.
Olhei no celular e vi que não passava das nove horas, ainda tinha chance de chegar em casa e meu pai não estar lá. Assim não precisaria explicar sobre Luke e precisava contar com o fato de que, Nicolas deixaria aquilo passar em branco, mas duvidava muito. Ele era melhor amigo do meu pai, e como ele tinha dito, sempre esteve na família, ele acompanhou o meu crescimento, era como um tio que eu nunca tive. Ele se preocupava comigo e tinha certeza que contaria ao meu pai. Como as folgas do meu pai eram alternadas, eu aproveitava o tempo que ele não estava em casa para sair com Luke.
Algum tempo depois Luke estacionou na frente da minha casa, o carro do meu pai não estava lá ainda, o que me causou um conforto. Desci da moto e entreguei o capacete a ele.
— Desculpa sobre o Nicolas e obrigada por hoje.
— Não se preocupe com isso, sou acostumado com essas situações.
Eu sorri
— Então... — começou e eu parei para observá-lo. — Até breve?
— Até breve! — Confirmei.
Ele sorriu colocando o capacete e eu fui até a porta, antes de entrar parei para observá-lo dar partida na moto e sumir na estrada, e, só então, entrei.