Capítulo 1 - Fodendo por toda casa
Mais uma tarde quente. Mais uma tarde em que vou culpar o calor pela a minha preguiça, e, sinceramente, não estarei mentindo. De todas as estações do ano, o verão é a minha predileta, é tipo o amor, sinto falta quando está longe e pânico quando ameaça chegar perto. Complicado, eu sei, por isso, não levaremos em consideração o que acabei de dizer. Trinta minutos já se passaram. Se a minha irmã estivesse aqui estaria gritando para que eu saísse logo do banho, ela costuma dizer que eu demoro uma eternidade embaixo do chuveiro e não tem como discordar de um fato concreto.
Ariadna e eu somos um caso sério, uma relação de amor e ódio, entre tapas e beijos. As brigas sempre foram frequentes, embora não fossem graves. Ela é a mais velha, a mais estudiosa, a mais esforçada, a menina de ouro que cuidou da irmã mais nova desde a sua adoção. Não há muito o que reclamar, nós somos uma boa dupla. Quando vamos juntos para as festas apostamos para ver quem fica com mais mulheres. Ela tem o seu charme e os olhos azuis, mas eu tenho uma lábia boa e um olhar sedutor, pelo menos é o que dizem. Como pode ver, normalmente eu ganho.
Depois de um banho gelado, nada melhor do que cervejas e baseados. Sorvetes cremosos também se enquadram na categoria "nada melhor". Hoje é sábado, o único dia da semana em que posso ficar jogada no sofá assistindo "Os Simpson" e v******o sem me preocupar com a rotina cansativa do escritório ou com qualquer outra coisa. Às vezes eu troco os desenhos animados por livros entediantes. Ser adulto é uma tarefa um pouco chata resumida em contas, músicas bregas e corações partidos. Digamos que nos últimos tempos eu venho sendo muito adulta e eu acho que prefiro não pensar muito nisso, sinto a minha cabeça doer e isso cansa.
Talvez eu devesse ser um pouco mais responsável e fazer algo a mais da minha vida além de reclamar das segundas-feiras e fumar maconha aos sábados, mas o que posso fazer se a vida não passa disso? Ah, eu já estava me esquecendo, também tem os domingos, o dia em que acordo cedo para ir a missa e agradecer por existir mulheres no mundo e eu ter o dom de convencê-las a passar a noite comigo.
Se os meus coroas, vulgo, os meus pais, me escutam falando desta forma eu estaria deserdada. Eles não são fanáticos, mas não deixam de ser religiosos, diferente de mim, que não sei nem no que acredito. Quer dizer, eu até sei, mas tenho medo de me entregar e acabar girando às vinte uma horas das sextas-feiras.
Pelo visto esse baseado é do bom. Que brisa louca essa a minha, só pensamentos desconexos. Acabo rindo ao escutar o barulho da porta se abrindo. Eu acho que estou muito chapada. Ariadna foi viajar ontem pela manhã e os meus pais não programaram nenhuma visita. Decido não me preocupar, acabei ficando largada e de olhos fechados como se não houvesse um amanhã.
- Eu estou triste e quero conversar. p***a, por quê dói tanto uma traição? - a sua voz estava melancólica, arrisco dizer que ela havia chorado por horas.
Agora está explicado o porquê não terem interfonado e alguém ter acesso fácil ao meu apartamento. Clara é uma doida, muito linda, também costumo chamá-la de melhor amiga, os porteiros costumam se referir a ela como "minha mina", eles dizem "mulher", mas acho formal demais e eu já me cansei de explicar a eles que não é bem assim e que ela é só... a deixa para lá, não vem ao caso.
- Eu te disse que homem só dá dor de cabeça. - eu falei sem olhar para ela. Clara se jogou no sofá e se aconchegou em meu peito.
- Não vem com essa não, você é mulher e também não vale muita coisa.
Acabo dando risada da sua fala. Não era verdade, tão pouco mentira. Ah, isso tem os seus prós e contras.
- Mas eu pelo menos teria feito você gozar, minha querida. - eu disse de forma divertida tentando deixar o clima mais ameno.
- Quem sabe um dia eu não pague para ver. - ela disse e suspirou, a minha reação foi lhe fazer um cafuné. - Mas se isso acontecer você tem que me prometer que deixará o seu som bem longe de casa.
- Clara, eu sei que no fundo você adora o meu gosto musical. É tão poético.
- Raissa Miranda toma vergonha nessa sua cara. Aonde que "fodendo por toda a casa" é poético?
- Quer que eu te mostre? - eu disse e só então eu a olhei. Me sinto tão bem admirando as suas íris negras, me sinto hipnotizada. Não há como negar o seu poder de sedução, acho que em uma balada ela ganharia de mim e de Ariadna caso quisesse entrar na aposta. - Okay, que tal um baseado, uma cerveja bem gelada e você escolhe as músicas? Eu te disse que mesmo fazendo péssimas escolhas em relação a quem estará ao seu lado, eu estarei aqui quando a pessoa partir o seu coração. Promessa é dívida, então, o que me diz?
- Algumas taças de vinho e uma pizza já será o suficiente.
- O seu pedido é uma ordem, minha deusa. Uma italiana e uma de brigadeiro? - eu pergunto e ela acena que sim. - E feita por mim, certo? - ela concorda novamente. - Okay, mesmo chapada, talvez eu consiga fazer essa proeza.
***
Em poucos minutos a cozinha estava uma bagunça, a bancada toda suja de farinha e o chão nem se fale. Eu até gosto de cozinhar, mas dá um trabalho. Clara costuma dizer que eu levo jeito para a coisa, mas eu não a escuto em relação a isso, é só um passatempo.
- Eu posso pedir uma lasanha também? - ela pergunta e faz uma expressão de criança mimada. Confesso que é o suficiente para me convencer. - Ah, vamos lá Raissa, eu peguei ele na cama com uma colega de trabalho. Estou muito m*l com a situação e só você sabe me animar.
- Eu estou pensando seriamente em abrir um restaurante só para os cornos, segundo você a minha comida cura os chifres.
- Qual é, o efeito da sua erva já passou? Não precisa pegar pesado. Você é mais sensível quando está drogada. - ela disse.
- Em relação a você eu sempre sou sensível e a prova disso é que neste exato momento estou mudando a minha rotina para cuidar de ti. - Eu me aproximei e a segurei pela cintura. Clara sempre acaba rindo quando eu faço isso e entra no jogo envolvendo os braços pelo meu pescoço. - Você venceu, eu faço a lasanha também.
Nós nos conhecemos há pouco tempo mas já é o bastante para tanto carinho. Eu me lembro como se fosse hoje o dia em que esbarrei na linda mulher de longos fios negros com mechas vermelhas, vestida casualmente com um jeans rasgado, uma jaqueta de couro preta e nos pés um all-star de cano alto. Foi involuntário ter reparado em praticamente tudo, mas é que em uma avenida tão movimentada de São Paulo não é toda hora que notamos as pessoas e que conseguimos dizer um simples "olá". Naquele dia o seu lindo olhar estava um tanto apagado, avermelhado, o seu rosto estava inchado e a maquiagem borrada. Estranhamente a situação era um tanto semelhante com a de hoje, como a de um mês atrás, como a de dois meses atrás... enfim, deixa para lá, tantos detalhes não são importantes. Eu acredito em destino e no poder de uma boa bebida, por isso, a convidei para tomar uma xícara de café comigo na padaria da esquina da grande avenida e desde então as nossas vidas passaram a se encontrar com mais frequência.
É engraçado, mas foi questão de semanas para que ela tivesse livre acesso no condomínio onde moro e a ser um rosto comum para os vizinhos, eles dizem que Clara é mais simpática do que eu, e, talvez seja verdade, digamos que eu não goste muito de conversar pela manhã, pela tarde e pela noite quando não me convém.
- Você foi o melhor acaso da minha vida, senhorita Miranda. - ela disse docemente.
- Assim eu largo essa minha vida de p*****a e caso contigo, morena. - eu disse de forma divertida.
Todos a nossa volta costumam levar a sério essa nossa relação, só nós duas sabemos que é puramente brincadeira.
Clara pegou um vinho Merlot e se serviu. Como de costume, não demorou para que ela tirasse as minhas músicas e colocasse as suas. Depois de Ariadna, ela é a única que tem essa liberdade.