Mais uma semana se inicia. Agora é a parte chata onde fico horas e horas lendo e relendo documentos que devem ser assinados e entregues em um curto prazo. Confesso que em certos momentos eu até me esqueço o que estou fazendo e me torno uma máquina repetitiva. Às vezes acabo rezando para não ter feito algo errado que nos custe muito dinheiro, igual quando assinei um cheque em branco por distração. Eu sei que um documento e um cheque tem muita diferença, mas ainda eram sete horas da manhã. Claro que também não foi muito difícil descobrir qual (ex) funcionário havia programado o golpe, mas os meus pais quase comeram o meu fígado (contém ironia). Toda manhã eu me questiono se realmente sou digna do cargo que ocupo. Eu sei que sou inteligente, boa no que faço e cumpro com os meus horários, mas não levo as coisas tão a sério como deveria.
Uma xícara de café. Duas. Três. Quatro. Cinco. De vez em quando um energético. Mais uma xícara de café. Sei lá, tento todas as opções que possam me animar, afinal, hoje ainda é segunda-feira e só de pensar no estresse que está por vir tenho vontade de sair correndo e fingir que não estou apta a vida social humana. E pensando nisso, será que alguém se sente apto? Bom, isso não importa e não faz nenhuma diferença para mim. Já é complicado me entender, por que razões eu enlouqueceria tentando entender os demais? Seria tolice. Me dói a cabeça tantos questionamentos. Me dá náuseas me sentir aérea e não conseguir encontrar os motivos pelos quais seria bom estar aqui. Eu acho que não sei quem sou e nem do que eu gosto.
- A reunião começa em dez minutos. - A bela moça de traje social e cabelo preso em um coque, disse. - Ah, posso fazer uma pergunta? - o seu olhar era esperançoso, aceno que sim. - Será que algum dia terei chance em saber o gosto do seu beijo? - As pessoas comentam pelos corredores sobre o fato da minha secretária ser apaixonada por mim, e, ela também nunca fez questão de esconder.
- Eu posso ser sincera? Não é que eu não iria gostar, o problema é que não estou afim de comentários maldosos sobre a sua pessoa. Por mim, não haveria problema em um beijo, um jantar, uma noite. Sério, eu adoraria a sua companhia, adoraria conversar coisas além do trabalho pois sei que você é bem inteligente e sabe muitas coisas interessantes. Mas se tem uma coisa a qual não condiz com o que eu sou, é a imagem da filha do dono que se aproveita para ter algo com os funcionários. Me desculpe, mas creio que você não terá essa chance. - eu disse de forma sincera. Eu não sou o tipo de pessoa que confunde as coisas e se aproveita do nome para conseguir algo ou alguém.
- Certo. Como eu havia dito, a reunião é em dez minutos. - ela disse. A sua voz demonstrava a chateação que tentava esconder em seu rosto. - Ah, e você também tem um almoço com o senhor Alvarez e a sua noiva.
***
O relógio marcava meio dia em ponto. Eu havia chego quinze minutos mais cedo. O garçom insistiu para que eu provasse um Carbenet e como uma boa admiradora de vinhos não relutei para aceitar. Mesmo não prestando muita atenção, pude perceber que realmente eu arranco olhares de homens e mulheres. Sorrio por isso. É interessante ser desejada e receber alguns bilhetes para fazer companhia a pessoas solitárias em almoços vazios, por mais que eu rejeite a todos os convites, eu gosto do jogo da sedução. Algumas pessoas me chamam de dissimulada, outras de oportunista, eu costumo dizer que sou apenas solteira.
Duas taças de vinho e o senhor Alvarez ainda não havia chego. Eu odeio atrasos, mas há tempos que não valia a pena realçar tal fato, hoje em dia quase ninguém mais preza a pontualidade, confesso que quando não é do meu interesse eu costumo não fazer questão de respeitar o horário, sendo assim, não tenho razões para cobrar dos outros o que não terão de mim. Por tanto, aceito mais uma taça de vinho para degustação e evito cansar a minha mente com preocupações tolas, como por exemplo: os documentos que precisavam ser analisados e assinados com urgência. Há coisas que devemos fingir demência e deixar de lado. Nem tudo merece a nossa exaustão. Eu sei que vinte quatros horas é pouco para sobreviver de forma coerente, então, o que não couber no meu dia de hoje, que fique para amanhã. As coisas não precisam acontecer no tempo ideal, acontecendo no meu tempo já está de bom tamanho.
Quarenta e cinco minutos depois. Eu poderia dizer que já estava a ponto de ir embora quando o casal apareceu. O senhor Alvarez não é uma figura muito distante de ser desenhado, o típico homem de negócios retratados em filmes clichês, o cabelo bem penteado, a roupa social, os sapatos brilhantes e o sorriso falso. Olhando de longe não há defeitos, olhando de perto não passa de um i****a que grita com a sua companheira. Agora, sobre a bela dama a qual tive o prazer de conversar na noite anterior não arrisco tirar conclusões precipitadas. O seu olhar é um mistério. Um dia eu ouvi dizer que "as mulheres de olhos claros são as piores", o que isso quer dizer eu não sei, mas que elas são lindas, isso não há como negar. Alessandra tinha o cabelo preso em um r**o de cavalo, vestia uma calça branca e um blazer claro, e calçava um lindo salto. Eu estou começando a achar que adoro a elegância de uma mulher.
- Desculpe o atraso, senhorita Miranda, tivemos um problema no caminho. - Alvarez disse. Ele se sentou, esquecendo de ser cordial com a sua noiva. Alessandra deu de ombros e se acomodou na cadeira a minha frente. Não pude deixar de reparar na sua maquiagem aparentemente refeita de forma apressada. Não que estivesse m*l feita, só não foi o suficiente para apagar a tristeza em seu rosto. - Vamos fazer os pedidos e depois falamos de negócios! - A sua fala não era uma pergunta e não foi um tom de voz agradável, pelo contrário, foi grosseira e me pareceu uma ordem. Quando o garçom se aproximou Alvarez se prontificou a escolher os pratos enquanto eu continuava hipnotizada pela beleza de uma certa senhorita.
- Bom, vamos lá, a minha primeira pergunta não será relacionada a algo em específico das páginas as quais eu li. - eu disse e ele me olhou confuso. - A senhorita que o acompanha fará parte do projeto, caso seja o escolhido?
- Não. Eu não pretendo colocá-la a frente de nada referente a negócios. Alessandra Rios é apenas a minha noiva. - Ele respondeu de forma ríspida.
- Certo. - eu disse e busquei o olhar de Alessandra. - Senhorita Rios, eu tenho uma proposta para lhe fazer.
- Raissa tudo o que for relacionado ao projeto deverá ser tratado comigo.
- Senhor Alvarez, por favor, me trate como Senhorita Miranda. E o que eu achar necessário tratar com o senhor pode ter a certeza que será direcionado a você. - eu disse. - Mas como eu tenho a absoluta certeza de que isso aqui não é de sua autoria, eu prefiro tratar com quem saberá me dizer com detalhes qual o propósito e qual seria a melhor forma de colocar em prática o que ainda está no papel.
- Isso é uma afronta, Senhorita Miranda. - Alvarez insistiu.
- Senhor Alvarez, afronta é o senhor pegar um projeto da sua noiva e não lhe dar o retorno merecido. A empresa Miranda já fez outras parcerias contigo e nada foi parecido com a perfeição que está em minhas mãos, não há dúvidas de que isso não é resultado da sua imaginação fértil. Bom, o projeto é tudo o que nós procuramos mas só será aprovado caso a senhorita Rios esteja a frente. - eu disse e ele parecia incrédulo. - E antes de negar a minha proposta, lembre-se que somos os melhores do mercado e que ninguém pagará o que estamos dispostos a pagar.
O homem estava engolindo em seco. Pela primeira vez a minha intuição foi certeira. Eu poderia estar enganada, mas ao ver o seu olhar furioso, pude saber que poderia prosseguir com o que falava. Quando eu li as páginas não pude acreditar que havia saído daquela mente sem criatividade. O fato de já o ter patrocinado outras vezes me ajudou a reconhecer um "plágio", dito assim. Alessandra desviava o foco de nós e parecia não querer confusão com o noivo, enquanto eu só não queria a injustiça de vê-la na plateia quando as coisas acontecessem. Pelo que conversamos ontem e pelo que vejo hoje, para Alvarez ela não é apenas o rosto bonito como a sua boca proferiu em outrora, longe disso, ela seria a criadora das ideias que o levaria a glória.
- Essa é a sua única condição? - Ele perguntou e eu disse que sim com um aceno positivo. - Então, eu aceito.
- E você, senhorita Rios, também aceita a minha proposta de estar a frente do seu projeto? - eu perguntei. Alessandra me olhou curiosa, intrigada. A mulher não parecia acreditar na chance que estava tendo. Não é muito difícil dizer sobre a sua falta de confiança no seu trabalho. Ela era simplesmente brilhante, mas acredito que não teve muita oportunidade para mostrar ao mundo sobre isso.
- Se não tiver problemas. - Alessandra encolheu os ombros e olhou para o noivo que sorriu fraco.
- Ótimo. Então vamos falar sobre essa maravilha aqui! - eu disse e comecei os questionamentos do que estava escrito. As suas respostas eram perfeitas e o seu olhar apaixonado pelo assunto me fazia estar apaixonada pelo seu jeito. Em um determinado momento da conversa, o senhor Alvarez precisou se retirar para atender um telefonema.
- Como soube que era eu a criadora do projeto? - foi a oportunidade que ela teve para conversar naturalmente e fazer qualquer pergunta que lhe viesse a mente. - Como me deixou a frente de algo sabendo que sou apenas uma prostituta que não terminou nem o ensino médio?
- Eu realmente não me preocupo com diplomas quando se tem uma mente incrível. E acredite, eu sei reconhecer de longe quem tem talento e merece chegar no topo.
***
Oito e meia da noite. Eu estava extremamente cansada. Foi um dia corrido, cheio de reuniões e assuntos chatos. Eu esperei ansiosa para chegar em casa, tomar um banho e preparar algo para comer antes de cair em um sono profundo. É difícil disfarçar o quanto o início de semana me irrita. Da mesma forma que é impossível esconder a minha felicidade ao abrir a porta e encontrá-la. Clara parece um anjo que caiu do céu para tornar os meus dias melhores. Um anjo inteligente, lindo e gostoso, cá entre nós. Okay, esquece a última palavra, às vezes o meu lado da safadeza fala mais alto. Mas podemos combinar que ela é um anjo bem sensual, não importa qual roupa esteja vestindo, tudo lhe cai bem, desde o vestido justo e a camisa larga com um shorts jeans.
- Eu ainda estava triste e por isso resolvi vir lhe fazer companhia. - ela disse me olhando atenta.
- Okay, vamos fingir que o chifre foi a razão de ter vindo me ver e não a saudade dessa deusa aqui.
- Eu não sei porque ainda sou a sua amiga. - ela disse, vindo me abraçar. - E muito menos do porquê te amo.
- É porque eu sou irresistível.
- A controvérsias! - ela disse de forma divertida. - Ah, o jantar está pronto. Espero que goste de macarrão a alho e óleo e que não ligue por eu ter invadido a sua casa.
- Clara, nós duas sabemos que isso já se tornou comum e é por isso que eu te amo. - eu disse. - Me acompanha num delicioso banho na hidromassagem?
- Isso que é um convite de arrancar suspiros! - ela deu risada e balançou a cabeça de forma negativa.
- Isso é um sim, certo? - eu pergunto e ela acena positivo.
Mamãe costuma dizer que eu sou de lua e ela não está errada. Às vezes o meu desejo é uma ducha em temperatura amena e cervejas geladas, e, em outras situações a minha satisfação vem de champagnes e banheiras. Confesso que tinha uma certa frequência que Clara me fazia companhia. Nós conversamos sobre tudo, sobre as constelações, sobre livros de romances clássicos, sobre filmes que estavam para lançar e até mesmo da catástrofe que se encontrava o país. O banho era a melhor hora do meu dia.