Eu vestia uma calcinha de renda vermelha e uma camisa larga. Clara não estava muito diferente de mim. Eu me sinto a vontade desta forma. Quanto menos roupa, melhor. O corpo parece gostar de "respirar", pelo menos é assim em um país tropical abençoado por Deus, como esse. Às vezes eu penso que me falta pudor, às vezes eu lembro que isso não importa, pelo menos não dentro do meu quarto. E às vezes eu percebo que nem os meus pensamentos fazem sentidos. Deve ser o baseado. A erva tem efeitos sem nexos, assim como a vida. E eu rio disso tudo. Dizem que os maconheiros riem de tudo. Deve ser porquê fugir da realidade é libertador.
Liberdade. Que p***a é essa? Eu realmente gostaria muito de saber ao certo qual a sensação de uma liberdade não ilusória. Se eu fosse observada por alguém, diriam que eu sou a própria liberdade, mas no fundo eu não passo de uma ilusão. Eu faço o que quero mas não sei o porquê faço. Eu me definiria como uma jovem acostumada a ter tudo e não saber exatamente o porquê tem. Me ignore neste momento, isso é apenas uma brisa passageira causada por mais um trago.
Agora eu poderia me deitar e olhar para o teto, deixando o peso se desfazer sozinho, mas eu acabei preferindo focar em seus gestos delicados enquanto colocava a seda entre os lábios. Eu confesso que não sei disfarçar o quanto as mulheres me seduzem facilmente, parece cena de filme, aquelas que acontecem em câmera lenta onde uma pessoa fica hipnotizada enquanto a outra não faz nada demais.
- Você deveria parar com isso. - Clara disse, e soltou a fumaça próxima a minha boca. - Eu sou hétero. - ela riu.
- Por você eu também seria só para dizer que héteros se pegam e conseguir um beijo. - Eu disse como se aquilo fosse a mais pura verdade. É claro que a gente riu mais uma vez. Dizem que a persistência é que nos leva a glória, se for verdade eu fico no aguardo. - Confessa que no fundo você tem curiosidade para saber o que me faz ter vários contatos, no fundo você tem vontade de descobrir o que eu tenho de especial.
- No momento eu só queria descobrir o que eu tenho de especial. Os homens devem me achar com cara de boi, não é possível. - Era nítida a sua frustração. Ela não tinha sorte, era sempre a mesma situação, desde a primeira vez que nos encontramos.
- É por isso que eu digo que a sua melhor opção sou eu.
- Raissa, você também não presta.
- Eu vou considerar essa fala como um: "eu te amo".
O baseado chegou ao fim. Nos deitamos, ela se acomodou em meu peito e logo pegou no sono. Às vezes a insônia se fazia presente em meu ser. Vários e vários pensamentos. Nada que fosse válido. Às vezes eu acho que falta algo em mim. Eu só queria ser um cubo mágico resolvido, um livro já concluído, uma certeza e não tantas dúvidas. O f**a é não saber o que exatamente eu sou, o que me incomoda e o que me tira o sono. É uma merda ser assim.
***
Amanheceu. É um dia nublado. Eu posso dizer que gosto da sensação do tempo estranho e do cheiro de café pela manhã. Uma boa combinação. Talvez possamos dizer que seja até poético. Se eu fosse boa com letras estaria com uma caderneta em mãos escrevendo versos e mais versos para o jornal. Uma vez li uma história sobre uma jovem que escrevia para o seu amor platônico, em contraponto, o seu amor desejava ser amada daquela forma. Uma temia o amor, a outra o esperava ansiosamente. Falando nisso, eu gosto muito de um filme que diz: "tem que ter muita coragem para fugir do amor". Eu concordo. Tem que ter coragem.
Eu sou um pouco confusa pela manhã. Como eu disse, é o tempo misturado com o cheiro do café. Como sempre, eu estava atrasada e não conseguiria esperar Clara acordar.
***
Sorrisos. Algumas mensagens pretensiosas. Pressa. Documentos. E uma chuva indecisa. Esse estava sendo o começo do meu dia. Nada demais, nada incomum, nada r**m. Falando em mensagem, eu havia decido arrumar um motivo para vê-la. Agora temos um projeto em comum. Não demorou para obter a resposta objetiva: "ok". Objetiva – palavra esta que talvez possa ser a sua definição. Uso do talvez porque não sei nada demais sobre os segredos daquele olhar. Eu confesso que tenho vontade de descobrir. Digamos que eu seja uma pessoa curiosa. Se isso é um ponto positivo eu não sei. Às vezes eu me meto em encrenca por curiosidade, e tem umas que vale muito a pena.
***
A minha secretária a anunciou e lhe deu espaço para entrar. Alessandra estava magnífica. Está certo que ela é uma p**a mulher linda, e eu não digo isso com desdém. Eu deveria fazer uma anotação para não dizer isso em voz alta, ela poderia me levar a m*l. Enfim, hoje ela usava um vestido florido, nos pés uma sandália e o cabelo estava solto. Alessandra e seus mistérios. O seu jeito sem um estilo definido é encantador. Parece que ela oscila entre uma mulher frágil e uma mulher simplesmente f**a. Ela sorriu, e, de forma involuntária eu sorri também.
Talvez eu esteja babando, fascinada, o que preferir.
A minha secretária se retirou. Rios se acomodou na cadeira a minha frente e me analisou por breves segundos.
- Conte-me mais sobre o seu projeto. - eu disse a primeira coisa que me veio na mente. Ela riu e negou com a cabeça.
- Eu acho que nós já conversamos o bastante sobre o projeto. Confessa que você só queria a minha companhia. - ela disse de forma intimidadora.
- Bom, se fosse esse o caso eu poderia ficar muito feliz, principalmente pelo fato de você ter vindo. Se isso fosse um jogo eu estaria ganhando, senhorita Rios. - Eu disse. Alessandra pareceu ponderar no que responder. - Mas eu só a chamei aqui para falarmos sobre negócios.
- Todos sabem a fama que você tem. Eu não acredito que esse foi o real motivo. O seu trabalho parece tedioso. Não tinha nada para fazer e então decidiu me fazer as mesmas perguntas de ontem? - ela me olhava de uma forma intensa e por isso eu decidi corresponder. Okay, talvez às vezes eu misturasse trabalho com diversão.
- Ponto para você. Eu acho complicado demais puxar um assunto qualquer pelo w******p, prefiro conversar pessoalmente. Por mensagem eu não consigo ter os mesmos poderes de sedução. - eu disse de forma divertida.
- E pessoalmente não funciona tão bem, Raissa. - Alessandra riu. Ela estava brincando comigo. - Mas eu vou fingir que estou aqui para falar de trabalho, me conte o que achou e o que tem pensado sobre o que leu.
- Okay, eu confesso que seria o mesmo assunto de ontem. - eu suspirei. - O que você gosta de fazer, Alessandra? - eu perguntei e ela não pareceu compreender aonde eu queria chegar. Na verdade, a resposta seria: a lugar nenhum. - O que faz no tempo livre?
- Eu gosto de ir ao parque ou ao cinema com o meu filho. Ele é o meu bem maior, mas nos últimos dias está me evitando. Henrico odeia o Rafael.
- E quem não odeia, Alessandra? Ele tem jeito de ser um cara escroto, sem pontos positivos.
- E você, o que gosta de fazer no tempo livre?
- Eu gosto de estar acompanhada. Digamos que a solidão não é o meu forte, pelo contrário, então, estar acompanhada é o que eu gosto no tempo livre. - Eu havia pedido dois cafés e logo fomos servidas. - Qual o seu filme preferido? A sua música preferida? - eu perguntei.
Eu não sei explicar as razões para me importar ou querer conversar sobre, mas no momento o meu desejo era saber tudo o que lhe despertava um certo fascínio.
- Eu não sei. Ninguém nunca me perguntou isso antes. Raissa, acho que se você me perguntasse qualquer coisa que exige detalhes eu não saberia responder. A minha vida sempre se resumiu em cuidar do meu filho, e me prostituir para completar a renda, eu nunca parei para pensar no que pudesse me agradar. - ela disse com uma certa frustração.
- Talvez seja o momento de pensar no que lhe agrada, no que lhe faz bem. - eu disse e ela me olhou com uma intensidade ainda maior.
- Okay, você sabe exatamente como seduzir uma mulher. Dê ouvidos a ela e ganhe o coração. - Ela disse e eu não demonstrei compreensão. - Neste exato momento, o que me faria bem seria um beijo seu.
Eu me levantei. Ela também. Eu me aproximei, mas ela pareceu se afastar por um instante. Eu busquei o seu olhar, toquei delicadamente o seu rosto, ela fechou os olhos e acabou cedendo. As nossas respirações se misturaram. O seu hálito quente fora a minha perdição. A primeiro momento o beijo foi calmo. Estávamos conhecendo as particularidades uma da outra. Mas não demorou para que o beijo se tornasse urgente, carregado de luxúria. Alessandra buscou apoio na mesa enquanto as minhas mãos apertavam a sua cintura. O meu corpo todo reagiu, mas como dizem a felicidade dura pouco e a minha mãe entrou na sala.
- Raissa Miranda! - a minha mãe falou em um tom mais alto, fingindo estar brava. - Ah, quer saber? eu não vou dizer mais nada para você, criatura! Ainda bem que a desastrada da sua secretária derrubou chocolate quente no senhor Alvarez.
Alessandra se afastou, tentando arrumar o cabelo e endireitando a postura. Eu confesso que foi engraçado ver o seu rosto ficar totalmente vermelho por conta do flagra