Oito horas de um domingo entediante. Uma noite chata, assim como o meu dia. Um céu estrelado, sem muitos detalhes. Em contraponto e sem relevância, eu estava com uma dor de cabeça insuportável. Hoje o meu humor não era um dos melhores. Eu não gosto de mudar as coisas no meu cotidiano, por isso, um simples telefonema me deixou com os nervos à flor da pele. Se tem uma coisa que me irrita é ser avisada de algum evento de última hora, sem tempo para conseguir inventar uma desculpa para não comparecer. "Nós precisamos de você" - eles disseram, assim como também alegaram o fato de que Ariadna ainda não havia chego de viagem, mas eu não acreditei no desespero dos meus pais, afinal, era só mais um jantar corriqueiro. "Eu estou com febre" - eu disse, mas não convenceu, me disseram que eu havia perdido o dom da mentira há alguns anos. Me senti ofendida por saber que não sou tão boa assim.
Não havia mais o que fazer e nem para onde correr, só me restou tomar um banho, colocar um vestido curto de cor preta, nos lábios um batom vermelho e nós pés um scarpin. Eu tenho a minha vaidade, mas odeio atrasos, odeio chegar e ser o alvo de alguns olhares quando não estou em uma balada, e, também odeio dirigir quando a minha vontade é de correr igual uma louca idem agora, é r**m quando as multas chegam ou quando tenho que passar o meu número para quem me para, eu já cansei de trocar de chip nos últimos meses.
Os meus pais não conseguem entender os meus motivos para não comparecer nos eventos relacionados a empresa, afinal, eu tenho a minha própria sala no escritório, o que me permite ter uma vida sem preocupações, não custava nada atender um pedido. O problema é que ter que socializar não é o meu forte, sempre acaba em briga e com um marido magoado, lembrando que no caso eu sou solteira. Eu não tenho culpa se as belas mulheres me seguem até o banheiro para retocar a maquiagem, eu só ajudo em relação ao batom. Sorrio por me lembrar da última vez. Ela era mais velha, um pouco mais alta, e era nítido que o cabelo no tom loiro era tingimento, mas não parecia ter os cinquenta anos como disse, confesso que fiquei impressionada com a forma como segurou firme em minha cintura e me beijou fervorosamente, foram poucas as vezes em que a pessoa apoiada na pia sendo dominada fora eu.
Lembranças e mais lembranças de momentos bons. E que momentos bons. Eu sinto o meu corpo se arrepiar só de lembrar. Ao meu ver as mulheres são uma obra de arte, um presente dos deuses, assim como os bons vinhos, e eu não me canso de degustar nem um e nem o outro. Às vezes eu me pergunto se é errado gostar tanto dessa vida leviana, só que você a de concordar comigo que não tem nada mais saboroso do que o pecado, e tem umas que eu penso "e que pecado, meu pai". Falando em pai, o senhor Miranda já até desistiu de tentar me fazer apresentar uma nora no almoço de domingo. Ele costumava dizer que era preciso encontrar alguém que me fizesse ver o mundo com outros olhos e só assim eu entenderia a importância de formar uma família. A verdade é que eu sou grata por ter tido a oportunidade de fazer parte da vida deles, mas carrego em meu íntimo uma certa frustração em relação a essa palavra: "família".
Eu acredito que agora não seja hora de pensar nos momentos vividos no orfanato. O passado deve ficar para trás, então, digamos que eu comecei a viver a partir dos meus seis anos, no exato momento em que Eva Miranda me chamou de filha. Lembrar daquele dia me emociona. Foi exatamente ali em que a esperança de uma menina abandonada passou a existir. Foi naquele instante em que eu decidi desistir de procurar a pessoa que me deixou a Deus dará. Tem coisas que não vale a pena ficar remoendo, corre o risco da dor se tornar maior do que já é.
Droga! É por isso que eu odeio o trânsito. Quanto mais avoada e irritada eu estou, mais eu penso no que não deveria. Por quê eu não consigo só ficar em silêncio, sem ficar remoendo tantas coisas?
O trânsito estava complicado e então, não adiantou me arrumar rápido, assim que eu entrei na residência fui o alvo de olhares. Logo dona Eva se aproximou, me abraçando e me beijando no rosto.
- Você está linda, mamãe. - eu disse com toda a sinceridade. Ela usava um vestido longo de cor vermelha, a sua maquiagem era leve e sem falar do lindo scarpin que calçava.
- Você também, minha filha. E obrigada por ter vindo. - ela disse. Um garçom nos ofereceu uma taça de vinho, nos serviu e se retirou. Eu não me sinto muito à vontade mas também não é tão r**m assim. Não demorou para que uma mulher aparentemente mais velha, de cabelo escuro e pele n***a me olhasse de cima a baixo e ficasse toda sorrisos. - Ah, por favor, se for levar alguém para o banheiro, tome cuidado para não serem vistas, nesse jantar estão grandes investidores para a empresa e não seria interessante botar tudo a perder por conta de um fogo no r**o incontrolável que vocês tem.
- Eu adoro o seu senso de humor, mamãe. Com licença. - eu disse e me retirei, seguindo rumo ao corredor menos movimentado da mansão bem decorada.
A minha intenção era ser acompanhada por aquela que me admirava, mas acabei mudando o meu rumo ao ouvir uma discussão vindo de uma sala mais afastada. A porta estava entreaberta, então, pude ver o homem gesticulando enquanto gritava. Em sua frente estava uma mulher de cachos loiros, pele branca – quase pálida, vestida de forma elegante. Ele parecia estar furioso enquanto ela apenas o ouvia, não sei se não lhe dava atenção por não se importar com a situação ou se só não queria confusão. Aquela cena me incomodou, mas antes que eu entrasse e arrumasse briga o homem arrumou a gravata e saiu em passos largos, sem se importar em olhar para os lados. Se isso aqui fosse um filme essa seria a brecha para eu me apresentar, mas eu sei que isso aqui é vida real, bom, de qualquer forma essa acabou sendo a hora da minha entrada.
- Oh, me desculpe, eu não vi que tinha gente aqui. - eu disse, mentindo descaradamente. Ao ouvir a minha voz a mulher passou as mãos em seu rosto de forma estabanada tentando enxugar as lágrimas. Talvez ela se importasse com a situação. - A senhorita está bem?
- Sim, está tudo bem. Eu estou bem! - ela também mentiu. Acho que encontrei alguém mais descarada. - Com sua licença. - ela disse e iria se retirar.
- Aceita vinho? É de uma boa safra. - eu me apressei em dizer. Ela estendeu a sua destra e pegou a taça. - Muito prazer, o meu nome é Raissa Miranda.
- O prazer é todo meu. Eu sou Alessandra Rios. - ela disse. A sua voz era doce e firme ao mesmo tempo. Confesso que eu estava me sentindo fascinada. Os seus lábios rosados eram bem desenhados. Os seus olhos eram verdes, quase azuis. A sua beleza era única, inexplicavelmente única. - Eu nunca a vi por aqui. - comentou.
- Eu não sou uma grande fã de jantares de negócios. Venho apenas quando forças maiores me obrigam, no caso, o senhor e a senhora Miranda. - eu disse e me sentei no pequeno sofá que havia no cômodo. Alessandra se sentou ao meu lado.
- Eu também não me sinto muito à vontade no meio de tantas pessoas. Eu não gosto de ter que fingir simpatia e ser cordial. O Rafael Alvarez não gosta muito desse meu jeito e para ele hoje era indispensável que eu estivesse na sala sendo apresentada como sua noiva.
- Eu não consigo entender essa necessidade de expôr as mulheres como prêmios. Parece que a maioria delas ficam desconfortáveis e que estão sendo obrigadas a acompanhar os seus maridos. A única parte boa é a moral que eu acabo tendo e os beijos que acabo ganhando.
- Ah, falando desta forma eu já consigo ligar o nome a pessoa. O Alvarez me pediu para ficar longe da filha de Murilo e Eva. Segundo ele, em toda festa ela é pega com a esposa de alguém. O meu noivo surtou quando confirmaram que a senhorita estaria presente. - Ela disse como se estivesse lembrando de um fato engraçado. - Ele disse que a senhorita arranca olhares e suspiros de homens e mulheres.
- Pelo que posso ver o seu noivo é inseguro, porém inteligente, pois não mentiu em absolutamente nada. Faço jus a fama que tenho. - Eu disse de forma convencida, arrancando mais uma risada da loira. - O que foi? Não acredita que sou tudo o que dizem?
- Não é isso, é que pelo que ouvi falar, eu só esperava uma mulher mais velha, que passasse dos trinta anos, assim como eu. É de se espantar que as mulheres de quarenta caem em tentação com um bebê. - Alessandra dizia as coisas com tamanha naturalidade que eu até me esquecia que estava sendo zoada.
- Digamos que eu tenha bastante experiência e que fui uma boa aluna nas aulas de sedução. - E lá estava ela dando mais uma risada.
Eu estava gostando da sensação de estar ao seu lado conversando como se tivesse a mesma i********e que tenho com Clara, ou Ariadna, por exemplo.
- Raissa, obrigada por ter fingindo que não me viu sendo maltratada pelo meu próprio noivo. Você me ajudou a não surtar e voltar lá como uma i****a que deveria pedir desculpas por algo que não fez.
- Eu acho que mereço um beijo por ter livrado você de um evento chato, não concorda? - eu disse. Alessandra olhou em meus olhos e aproximou o seu rosto me fazendo sentir o seu hálito quente próximo a minha boca.
- E eu acho que deve ter alguma mulher pelo salão esperando um convite para lhe encontrar no banheiro. Como eu disse, ao meu ver você é um bebê ainda. - ela disse, beijou no canto de minha boca e se levantou.
- Eu posso fazê-la mudar de opinião. - Eu disse. Ela pegou a sua bolsa que estava em cima de uma mesinha que só então notei a existência e me entregou um cartão. Agora eu pude entender toda a insegurança do tal noivo.
- Me mande uma mensagem para eu salvar o seu número. Podemos ser amigas. - ela disse, mas ficou vermelha ao perceber qual cartão havia me dado. - Okay, isso é passado, espero que não mude a impressão que teve de mim. Alvarez me pediu em casamento alegando que tenho uma boa aparência e que ninguém iria saber de onde eu vim, o problema é que eu esqueço que ainda tenho alguns cartões que deixava com os clientes e acabo fazendo essa confusão.
- Você não precisa me explicar nada. Ah, e eu não me importo se você é ou foi uma prostituta, isso não mudaria nada sobre a impressão que me causou. E só mais uma coisa, não permita que ele te trate m*l por conta disso. Os meus pais me ensinaram que para se casar temos que ter a certeza de que seremos amados e respeitados, independente de qualquer coisa.