Café com pão
- Não acredito que foi capaz de tudo isso! - Áureo sentia os olhos rasos d'água, enquanto encarava os olhos pelos quais se apaixonou, frios e raivosos.
- Me deixe sair, Áureo! - Julienne berrou contra o marido.
- Você não tem coração? - Áureo ouve a risada alta que sempre o encantou e sente um calafrio. O que havia acontecido com a mulher que amava?
Áureo Damião Cornell, nasceu no dia 13 de novembro de 1807. Um menino lindo, com bochechas rosadas e um sorrisinho angelical. Mas naquele dia, houve também um ataque ao castelo em que viviam. O seu pai um político importante da época, vinha sofrendo ataques por suas ideias tão sociais e em prol de minorias. Mataram-no! Mas ele também tinha amigos de outros seguimentos. Seguimentos esses que não eram expostos para toda a sociedade da época. Na verdade, até os dias atuais, não são expostos, e ficam apenas como lendas do submundo.
Conforme crescia Áureo entendeu que sua família não era comum, como as outras, ele não podia se misturar com outras crianças, e as poucas que tinha contato, eram filhos de pessoas como o seu pai. Como um bom curioso que era, antes dos 7 anos já tinha entendido tudo. Seu pai era um vampiro!
A partir dali infernizou dia e noite o seu pai, que começou a contar-lhe histórias de pessoas que viviam centenas de anos, mas tinham de viver escondidas, viam os que amavam morrer, ou então muitos transformar-se em vampiros, mas nem todos aguentavam a transformação, pois passava por um violento processo. Outros tornavam-se vilões, e os "bons" tinham de m***r os "maus" que eram pessoas que de sua própria família muitas vezes.
- O dinheiro e o poder corrompem, meu filho! - Sábio era o seu pai.
Com cerca de 33 anos, ele ja sabia tudo sobre os vampiros, tinha amizades de todos os tipos, mas já havia se decidido. Não seria transformado. Ele viveria como nasceu pra ser, um humano. Seu pai se orgulhava do filho, e pensava em como viveria sem sua esposa e filho ao longo dos anos, chegou a pensar em transformá-los, mas seria egoísmo. Pelo menos era o que ele pensava.
Áureo viu seu pai ser assassinado diante de seus olhos, com sua mãe amarrada gritando, enquanto eram atacados por um grupo do submundo dos vampiros. Seu pai lutava contra facções de vampiros, mas muitas coisas ele e sua mãe não sabiam. E ele era apenas um humano impotente, perdeu parte de sua família ali. Então semanas após o ataque e recuperação de sua mãe, foi atrás de seu tio, irmão de seu pai. O tio, que assumiria os negócios da família ficou feliz em poder ajudar. E naquele mesmo ano, ele se preparou e se transformou. Não foi fácil, ele sentia dores terríveis, suava e precisava de sangue, que nem sabia de onde tiravam, mas era insaciável.
Áureo Damião Cornell, aos 33 anos de idade, transformou-se m um vampiro. Áureo já era um homem alto e forte, sempre exercitou-se e praticou lutas, mas em sua transformação, além de imortalidade, ganhou mais velocidade, agilidade, força, e em seus poderes mentais, ele era capaz de hipnotizar qualquer humano, desde que a sua mente fosse mais forte, inclusive era capaz de entrar nos seus sonhos, mas ele precisaria estar em contato físico com a pessoa para que funcionasse com sucesso.
Com o tempo começou a frequentar mais lugares com vampiros e conheceu a bela Julienne Gladwin. Era bela e culta, aparência de 20 anos no máximo, mas ela já ultrapassava os 60 anos. Era uma mulher vivaz e sorridente, Áureo se apaixonou a primeira vista. E incrivelmente ela também se apaixonou, afinal Áureo era um belo homem, além de um ótimo pretendente.
Áureo já tivera várias pretendentes, já levara algumas mulheres para cama, mas nenhuma delas se encaixou com Julienne.
- Áureo... - Ela chamava-o dentre as tantas conversas, e o sorriso iluminava o seu mundo. Ele sentia a pureza e a bondade dela.
Uma dança, os corpos colados as respirações os traiam, ele a beijou, e foi como se ele pisasse no céu. Ele achava que já havia se apaixonado na vida, mas naquele momento soube que eram meras trepidações do coração, pois agora sim estava perdidamente e enlouquecidamente apaixonado.
Julienne tremia sob o corpo grande dele, a primeira vez deles foi mágica. Ele vibrava e sentia as vibrações dela. Ele podia hipnotizá-la se quisesse e fazê-la contar sobre tudo que sentia, mas ele confiava nos sentidos e nas reações. Ele entregou-se a ela, assim como ela a ele. Juntos eles eram mais espertos, ela o ajudava em suas investigações, e o fazia ficar leve apenas com uma daquelas gargalhadas abertas. Os cabelos longos, escuros e ondulados, pareciam uma cascata o encantando, e o corpo curvilíneo e cheio de vida o levava a loucura.
Em menos de dois meses de namoro, se casaram. Ele era completamente rendido a ela. Nunca amara como tal. Ela era sedutora e ao mesmo tempo suave, ela era perfeita, e ele nunca imaginara que ela não era quem dizia e se mostrava ser.
O tempo passou, e apesar das dificuldades ele descobriu segredos mais profundos do que ele imaginava. O submundo vampiresco, era de arrepiar até um homem como ele. Tinham de todos os tipos, capazes de ruindades, que ele nem mesmo poderia mencionar. Por esses caminhos descobriu o verdadeiro culpado por trás da morte de seu pai. Seu próprio tio, irmão de seu pai. Ele queria os negócios, o lugar na política, e a confiança que o seu pai tinha. E o pior, Julienne estava metida nisso. Ele demorou para assimilar o que acontecia, e somente quando viu-a cravar uma adaga no peito de uma criança, que reagiu.
- Está brincando comigo, Áureo? Nenhum de nós tem coração!
- Pois eu tenho, Julienne! - Julienne para de sorrir e encara o grande homem a sua frente.
- Saia da minha frente ou o mato! - Áureo balança a cabeça.
- Não teria coragem!
- Duvida? - Ela tira a adaga da cintura e deixa a mostra as presas. Ela não parecia estar brincando, e aquele olhar puro que ele tanto amava, estava irado.
- Julienne... - Áureo estava em choque. - Eu sou seu marido!
- Bem que seu tio falou que era um bebê chorão! - Ela o encara com nojo. - Ele é muito melhor que você. - Áureo fica boquiaberto com a nova descoberta. Além de fazer parte da máfia vampiresca e estar por trás de crimes hediondos, ela o traía? Com o seu tio?
Naquela noite ele a deixou sair. Não conseguia pensar no que fazer ao descobrir tudo aquilo. Ela ajudava os rebeldes, estava acumunada com seu tio e... estaria ela também envolvida na morte de seu pai?
Áureo saiu de sua grande mansão, e correu para a casa de sua mãe, mas ao se aproximar ouviu os gritos, e chegou a tempo de vê-la ser assassinada, pelas mãos daquela que mais amou na vida. Cego de ódio, ele foi em direção a ela, que o encarava com expectativa. Como se esperasse que ele fizesse algo.
Áureo segurou-a pelos cabelos e viu lágrimas nos olhos amendoados.
- Por quê? - Bradou entre os dentes. Recebeu uma risada de volta, e em sua raiva, retirou a adaga de sua cintura e cravou no peito dela. Ouviu o urro, então uma lágrima e então um sorriso.
- Idiota... - Percebeu ela levar a mão a barriga. - Matou seu filho! - Ele ficou ali, com a mulher nos braços por dias, até que começaram a vir atrás dele. Então era só ele, com ele mesmo. Tinha sido traído por seu tio, sangue do seu sangue, e pela mulher que amava. Estaria ela mesmo grávida dele? Ele nunca saberia. Saiu dali e não olhou para trás.
Recolheu os seus principais pertences e desapareceu no mundo. Sua fortuna era incontável, por herança de seus avós e pai. Ele deixou-se isolar, e pelos próximos anos, encarava uma foto dela. Pensando se podia ter feito algo diferente, se era culpado pela morte de sua mãe, se... e se... e esses "e se" o matavam. Seu pai estava certo, a eternidade sem os que ama do lado, é um inferno.
Dedicou a sua vida a viver escondido nas multidões. Nomes comuns, em bairros comuns, trabalhos comuns, apenas para existir. Uma caridade aqui ou ali, e era assim que passava o seu tempo. Mulheres, apenas o satisfaziam e ele as descartava depois. Ninguém entrava em sua mente ou coração, nem mesmo se aproximava sem que ele permitisse. E antes, ele hipnotizava e descobria os piores segredos, ninguém mais o faria de t**o, ou o trairia.
*** 2023 ***
Áureo estava paralisado em frente a uma pequena cafeteria de uma pequena cidade, que vivia há poucos meses. Era ela! Julienne! Como? Como ela sobreviveu? Quase 200 anos sofrendo e ela estava viva? Não! Ele acompanhou o enterro a distância, não era possível... Seria tudo encenação? Não... não... ele havia se certificado de que o seu tio também estaria morto antes de sumir de lá.
Entrou no local, e a jovem garota que a pouco estava de costas se vira para ele, com um enorme sorriso. Era ela!
- Julienne? - Sussurra, e o sorriso da moça dá uma leve vacilada.
- Desculpa?
Eloise Barnett encara o homem que entra em sua pequena cafeteria. Forte, alto, cerca de 1,80 de altura, aparencia de uns 30 anos. Pele clara, olhos esverdeados, nariz reto, boca levemente aberta, com uma barba leve cobrindo-lhe a face, e apresentava um leve furinho no queixo. Os cabelos castanhos arrumados a parecer propositalmente despenteados. A roupa nitidamente era de qualidade, mas de forma minimalista. Sorriu para ele. Era um gatão. Sua mãe já vinha falando que a cafeteria estava fazendo sucesso. Cada vez mais pessoas chiques por ali.
- Julienne? - Seu sorriso vacila. Julienne? Isso era nome de algum tipo de café? Não, ela saberia se fosse!
- Desculpa? - Encara o homem que não desgruda os olhos de si. - Em que posso servi-lo?
Áureo pisca e trava os maxilares. - Como... ?
- Como? - Eloise vira a cabeça de lado. Já eram quase duas da tarde, perto do horário delas fecharem e aparecia um maluco? Podia ser bonito e até chique, mas ela já estava estranhando e pensando em chamar a polícia. Vinha acontecendo muitos casos de assalto nas redondezas.
- Filha... já finalizei o caixa! - Márcia, mãe de Eloise sai de uma porta lateral e para ao ver o cliente. - Ah, me desculpe, não vi que tinha cliente ainda.
- Filha? - Áureo olha de Eloise para Márcia. - Desde quando você tem mãe, Julienne?
- Bom... ahn... - Eloise franze o cenho, estranhando cada vez mais o cara. - Sou Eloise e essa é minha mãe. - Abre um sorriso novamente. - Deve estar me confundindo. - Ela encara a mãe, assustada, que vai para o lado da filha em sinal de p******o.
- Gostaria de pedir algo? - Márcia diz encarando o homem de cima a baixo.
Áureo estreita os olhos para a mulher. Eram os mesmos cabelos, longos, escuros e ondulados. O mesmo sorriso perfeito, a boca bem desenhada, o corpo mesmo por trás do avental, percebia-se ser curvilíneo e sensual. Fungou. O cheiro era outro. Mas os olhos... eram os mesmo olhos... grandes e expressivos com os castanhos amendoados raros de se ver, só estavam mais suaves...
- Pode ser... - Áureo responde ainda sério encarando a mulher de cerca de 1,60 de altura, exatamente como Julienne. - Eloise? - Repetiu ainda focado nela.
- Sim. - Eloise sorri novamente, sentindo seu peito acelerado. - E o senhor?
- Áureo Damião Cornell. - Áureo diz seu nome e aperta os punhos. Fazia muito tempo que não dizia seu nome verdadeiro. O que tinha dado nele para dar-lhe o nome verdadeiro a ela.
- Bem senhor Cornell. - Márcia interrompe os olhares entre eles. - Deseja algo?
- Um expresso duplo. - Responde automaticamente.
Eloise vai para trás do balcão rapidamente e põe-se a preparar o café, como sempre faz, da melhor maneira possível. Ela amava cafés, e tudo que se tratava sobre cafés. Era uma estudiosa de cafés.
Seu pai falecera quando ela era ainda criança. Cresceu somente com a sua mãe, que lutou a vida toda para criá-la fazendo faxinas na casa das outras pessoas. Com 18 anos, assim que saiu do Ensino Médio, fez vestibular e conseguiu uma bolsa 100%, sempre muito estudiosa e dedicada, conseguiu bons amigos e oportunidades de trabalho no ramo da gastronomia. Com esforço e economia, ela e a mãe compraram um terreninho, pequeno, mas era delas. Financiaram a construção da casa do jeito que elas queriam. Era uma equina, e fizeram o primeiro andar para um comércio, que Eloise não pensou duas vezes, e colocou a sua cafeteria, a "Café com pão: para aquecer o coração.". O segundo andar, era a casa delas. A cafeteria abria das 5 horas da manhã, e ia até as 14 horas. Eloise queria além de uma renda fixa, em seu próprio negócio, qualidade de vida. Principalmente para a sua mãe. Então, não abria mão desse horário. Pois trabalhavam direto sem parar das 5 as 14 horas.
- Aqui está, senhor Conell. - Eloise deixa os seus devaneios e entrega o café ao homem misterioso.
- Obrigado. - Áureo agradece e beberica o café ainda sem conseguir tirar os olhos dela.