Capítulo 1
Lorena
Sempre disseram que quem escolhe a Medicina precisa aprender a conviver com a dor. Eu nunca acreditei muito nisso. Para mim, a Medicina nunca foi sobre aprender a lidar com a dor, mas sobre fazer o possível para diminuí-la. Desde pequena eu nunca suportei ver alguém sofrendo. Enquanto outras crianças brincavam de casinha, eu enfaixava os joelhos ralados dos meus amigos, inventava receitas para curar resfriados imaginários e dizia ao meu pai que um dia seria médica para salvar o máximo de vidas possível. Ele sempre sorria e dizia que eu tinha o coração grande demais para esse mundo. Talvez ele estivesse certo. Eu realmente tinha. E, mesmo depois de tantos anos, depois das noites sem dormir na faculdade, das provas intermináveis, dos plantões que pareciam durar uma eternidade e das lágrimas escondidas dentro do banheiro do hospital quando eu perdia um paciente, aquele sonho da menina de cabelos bagunçados continuava exatamente o mesmo: ajudar as pessoas.
Me chamo Lorena, tenho vinte e três anos e, há poucos meses, realizei o maior sonho da minha vida. Sou médica. Ainda e estranho quando alguém me chama de "doutora". Às vezes até olho para trás para ver se a pessoa está falando com outra mulher, porque ainda me sinto aquela estudante completamente perdida, andando pelos corredores da universidade carregando livros maiores que eu. Mas a verdade é que consegui. Cada noite em claro, cada final de semana estudando, cada aniversário perdido valeu a pena. Hoje, junto das minhas duas melhores amigas, Vitória e Vanessa, consegui abrir nossa própria clínica. Pequena, simples, mas construída com muito esforço. Cada parede desse lugar carrega um pedaço da nossa história.
Vanessa é exatamente o oposto de mim. Ela consegui transformar qualquer ambiente silencioso em uma festa. Conversa com todo mundo, faz piadas até nas situações mais tensas e tem uma facilidade absurda para arrancar sorrisos das pessoas. Já Vitória é mais parecida comigo. Discreta, tranquila e extremamente responsável. Se Vitória e o sol, Vanessa é a calmaria depois da tempestade. E eu... bom, eu sou um pouco das duas. Gosto de conversar, de rir, de brincar com os pacientes para deixá-los mais confortáveis, mas também sei a hora de ser séria. Afinal, existiam momentos em que um abraço dizia muito mais do que qualquer medicamento.
Nossa clínica ainda está começando, então os dias eram corridos. Consultas pela manhã, exames à tarde, visitas domiciliares quando necessário e, entre um paciente e outro, pilhas de documentos para organizar. Mesmo assim, eu nunca reclamava. Pelo contrário. Entrava aqui todos os dias com o mesmo entusiasmo de quem esta realizando um sonho pela primeira vez. Ver alguém sair daqui mais tranquilo do que entrou fazia qualquer cansaço desaparecer. Era como se Deus me lembrasse diariamente que eu estou exatamente onde deveria estar.
Mas existia uma ironia enorme na minha vida. Eu passava os dias ajudando pessoas a controlarem doenças, dores e medos... enquanto escondia os meus próprios. Pouquíssimas pessoas sabiam, mas eu sofro com crises de ansiedade desde a adolescência. Algumas eram leves, outras me deixavam completamente sem ar. Meu coração acelerava, minhas mãos tremiam e minha mente insistia em criar os piores cenários possíveis. É estranho pensar que eu conseguia manter a calma quando um paciente chegava em estado grave, mas, às vezes, uma simples preocupação do cotidiano era suficiente para fazer meu peito apertar de um jeito que parecia impossível respirar. Eu fazia acompanhamento, seguia todas as orientações e aprendia um pouco mais a conviver com isso a cada dia. Não era algo de que eu me envergonhasse, apenas não gostava de preocupar as pessoas. Preferia carregar minhas tempestades em silêncio e aparecer sorrindo para o mundo.
Meu pai sempre diz que eu herdei isso da minha mãe. Logo depois muda de assunto, como fazia todas as vezes que ela era mencionada. Eu nunca a conheci. Segundo ele, ela foi embora quando eu ainda era um bebê porque não suportava a vida simples que levávamos. Durante muito tempo tentei imaginar como seria o rosto dela, o tom da voz, se eu tinha os olhos parecidos com os dela ou o sorriso. Com o passar dos anos, aprendi a aceitar que algumas perguntas talvez nunca fossem respondidas. Meu pai, Francisco, compensou a ausência dela com amor suficiente para duas vidas. Nunca me deixou faltar carinho, educação ou apoio. Foi ele quem acreditou em mim quando ninguém mais acreditava. Foi ele quem trabalhou dobrado para que eu pudesse estudar. Se hoje eu era médica, boa parte desse diploma também pertencia a ele.
Nessa manhã, a clínica está especialmente movimentada. O cheiro de café recém-passado se misturava ao perfume suave do álcool em gel e ao som das conversas na recepção. Eu terminei de preencher um prontuário quando Vitória apareceu encostada na porta da minha sala, segurando um copo de café e com um sorriso que sempre significava que ela estava prestes a aprontar alguma.
Vitória : Doutora Lorena... posso interromper a profissional mais dedicada dessa cidade? — Sorri, balançando a cabeça.
Lorena : Você já interrompeu. — Ela entrou rindo, seguida por Vanessa, que trazia um envelope nas mãos.
Vanessa : Chegou a resposta — ela disse, tentando esconder a animação. Franzi a testa.
Lorena : Resposta de quê? — Vitória praticamente jogou o envelope em cima da minha mesa.
Vitória : Abre logo.
Peguei o papel. Conforme meus olhos percorriam as primeiras linhas, senti meu coração acelerar, mas dessa vez não era ansiedade. Era expectativa.
A ONG que atendia comunidades em áreas vulneráveis havia aceitado nossa inscrição. Eles precisavam de médicos voluntários.
Três vezes por semana. O projeto seria realizado no Morro da Rocinha.
Por alguns segundos fiquei completamente imóvel, apenas olhando para essa folha. É difícil acreditar. Desde os tempos da faculdade, eu e Vitória sonhávamos em trabalhar em um projeto social como esse. Não era sobre dinheiro, reconhecimento ou currículo. E sobre fazer diferença onde a assistência médica muitas vezes demorava a chegar.
Levantei os olhos para as minhas amigas. Vanessa sorria discretamente. Vitória já comemorava como se tivéssemos ganhado na loteria.