Fantasma
O rádio começou a chiar antes mesmo de o despertador tocar.
— Tssshhh... Fantasma... Fantasma... tá me ouvindo? — Fechei os olhos com força e passei a mão no rosto, tentando ignorar esse barulho infernal. Não adiantou. — Fantasma... responde essa p***a.
Bufei irritado, estiquei o braço até a cômoda e peguei o rádio.
Fantasma : Que foi, c*****o? — Do outro lado, Henrique (Vulgo escudo) riu.
Escuto : Bom dia pra você também. — Revirei os olhos.
Fantasma : Fala logo.
Escudo : E aí, bela adormecida... bora acordar que a gente tá cheio de trabalho hoje. — Respirei fundo, sentindo a paciência indo embora antes mesmo de o dia começar.
Fantasma : Vai tomar no teu cu. — Sem esperar resposta, desliguei o rádio e o joguei de volta na cama.
Henrique e meu braço direito há anos. E o único filho da mãe que conseguia me irritar logo cedo e sair rindo da situação. Mas também era um dos poucos homens em quem eu confiava de olhos fechados. Se um dia eu caísse, sabia que ele seguraria tudo até eu voltar.
Levantei da cama, caminhei até o banheiro e deixei a água gelada cair sobre o corpo. O banho sempre ajudava a organizar a cabeça antes da rotina começar. Enquanto me arrumava, observava meu reflexo no espelho. Vinte e cinco anos. O rosto já não era mais o de um garoto. As tatuagens cobriam boa parte do meu corpo e algumas cicatrizes faziam questão de lembrar que essa vida cobrava caro por qualquer distração.
Coloquei uma bermuda da Lacoste, uma camiseta branca, um tênis e um boné. Peguei a pistola, conferi o carregador por puro hábito e a coloquei na cintura. Antes de sair do quarto, dei mais uma olhada pela janela.
O morro já estava acordado. Moto subindo. Comércio abrindo. Crianças correndo pra escola. Gente indo trabalhar.
Era cedo, mas a Rocinha nunca dormia de verdade. Desci as escadas da minha casa e, antes mesmo de chegar à cozinha, senti o cheiro de café fresco.
Sorri de canto. Só podia ser ela.
Fantasma : Benção, mãe. — Dona Valéria virou na mesma hora, ainda mexendo a panela no fogão.
Valéria : Deus te abençoe, meu filho.
Ela se aproximou, segurou meu rosto e deu um beijo demorado na minha testa, como fazia desde o dia em que me acolheu. Não importava quantos anos eu tivesse ou o que eu representasse para o resto do mundo. Para ela, eu continuava sendo apenas o menino que apareceu perdido na porta da casa dela anos atrás.
Valeria : Dormiu direito?
Fantasma : Dormi. — Ela estreitou os olhos.
Valéria : Mentira. — Sorri sem mostrar os dentes.
Fantasma : Dormi o suficiente. — Ela fez uma cara de quem claramente não acreditava.
Valéria : Senta. — Obedeci sem discutir.
Existiam milhares de pessoas nessa comunidade que tremiam quando ouviam meu nome. Mas bastava Dona Valéria mandar eu sentar para eu sentar. Mandar comer. Eu comia. Mandar descansar. Eu fingia que ia. Ela e a única pessoa no mundo que consegui mandar em mim sem precisar levantar a voz.
Enquanto ela colocava café na minha frente, ouvi passos descendo a escada. Luana apareceu ainda bocejando, com o cabelo completamente bagunçado.
Olhei para ela franzindo a testa.
Fantasma : Tu tava onde? — Ela me encarou como se eu tivesse feito a pergunta mais i****a da história.
Luana : Oxe... no meu quarto. — Pisquei algumas vezes.
Fantasma : É.. — Cocei a nuca. — Esqueci que tu tem quarto aqui. — Ela caiu na risada.
Luana : Tu é inacreditável.
Fantasma : Fazer o quê né. — Ela puxou uma cadeira.
Luana : Eu tenho quarto na casa da mãe, tenho quarto aqui e tenho meu apartamento... e tu esquece que eu existo.
Fantasma : Tu exagera.
Luana : Exagero nada. — Dona Valéria riu enquanto colocava outra xícara sobre a mesa.
Valeria : Vocês dois começam cedo. ; Luana pegou um pedaço de pão.
Luana : Culpa dele.
Fantasma : Minha?
Luana : Tu perguntou onde eu tava.
Fantasma : E tu tava dormindo.
Luana : No meu quarto.
Fantasma : Que eu esqueci que existia. — Ela começou a rir outra vez.
Por mais estranho que parecesse, esses momentos eram os únicos em que eu conseguia esquecer quem eu era lá fora.
Aqui eu não era o Fantasma. Eu so sou o filho da Dona Valéria. O irmão da Luana. Nada mais.
Enquanto tomávamos café, minha mãe me observou por alguns segundos.
Valéria : Vai estar muito ocupado amanhã à noite? — Levantei os olhos.
Fantasma : Não... por quê? — Ela deu de ombros.
Valéria : Nada. Só perguntei. — Franzi a testa.
Fantasma : Posso nem desconfiar? — Ela sorriu.
Valéria : Posso perguntar não? Tu é meu filho. — Balancei a cabeça.
Fantasma : Vixe... que ignorância. — Luana começou a rir.
Luana : Mamãe hoje acordou braba, hein? Só patada em cima de patada. — Dona Valéria fingiu ficar ofendida.
Valeria : Vocês dois me respeitem. — Nós três acabamos rindo juntos. Eu sabia que esses momentos eram raros. E exatamente por isso eu fazia questão de aproveitá-los.
Porque quando eu saísse por aquela porta, o mundo mudava completamente
Me chamo Guilherme. Mais já tem cinco anos que quase ninguém me chamava assim. Para a polícia, eu era um dos criminosos mais procurados do estado. Para os inimigos, eu era um pesadelo. Para os moradores da Rocinha... Eu era o Fantasma. O homem que comandava o morro.
Engraçado como a vida muda rápido.
Cinco anos atrás, eu não imaginava que pisaria numa comunidade pela primeira vez. Muito menos que um dia seria responsável por ela. Eu não cresci nesse lugar. Não conhecia ninguém daqui. Cheguei sem ter para onde ir, sem família, sem futuro e carregando nas costas um peso que nem o tempo conseguiu apagar. Eu precisava desaparecer. Precisava sobreviver. Foi a Rocinha que me deu essa chance.
Quem primeiro estendeu a mão para mim foi Dona Valéria. A casa dela m*l parava em pé, mas ainda assim ela dividiu comigo o pouco que tinha. Nunca perguntou de onde eu vinha nem exigiu explicações sobre o meu passado. Apenas disse que ninguém merecia dormir na rua. A partir daquele dia, nunca mais me deixou sozinho. Com o tempo, Luana também passou a fazer parte da minha vida e, antes que eu percebesse, essa mulher já era minha mãe e essa menina já era minha irmã.
O antigo dono do morro foi quem enxergou alguma utilidade em mim. Eu conhecia pouco dessa vida, mas aprendi rápido. Não era o mais forte nem o mais velho, mas pensava antes de agir. Nunca gostei de violência sem motivo e sempre acreditei que respeito se conquistava mais pela palavra do que pelo medo. Aos poucos fui ganhando espaço, resolvendo problemas, protegendo os moradores e mostrando lealdade. Quando o confronto que tirou a vida do antigo dono aconteceu, muita gente esperava que a comunidade mergulhasse no caos. Em vez disso, os próprios homens decidiram que eu assumiria o comando.
Desde então, carrego essa responsabilidade todos os dias. Não é uma coroa. É um peso. Um peso que aceitei carregar porque, se eu não estivesse aqui, talvez alguém muito pior estivesse.
Existe uma regra que nunca permiti que fosse quebrada dentro da Rocinha: quem mexe com morador responde para mim. Mulher, criança, trabalhador e idoso são intocáveis. Quem desrespeita isso descobre rapidamente que eu não tenho paciência para esse tipo de covardia. Mais mulher quando merece, merece, ainda mais p**a que pensa que a vida é um morango.
Muita gente acha que eu escolhi essa vida porque gostei. Não faz ideia do quanto está errada. Eu entrei nessa guerra porque um homem destruiu tudo o que eu tinha.
E eu fiz uma promessa. Enquanto ele respirar... Eu não vou descansar.
Mas todos os dias, quando eu acordo, lembro exatamente por que continuo nessa vida.
E quando esse acerto de contas finalmente chegasse... Não haveria lugar no mundo onde ele pudesse se esconder do Fantasma.