Lorena
Quando o relógio finalmente marcou o fim do expediente, a sensação era de que eu tinha corrido uma maratona inteira usando jaleco. Me joguei na cadeira da recepção, tirando o estetoscópio do pescoço e o colocando sobre o balcão enquanto soltava um longo suspiro. Meus ombros doíam, meus pés pareciam reclamar de cada passo que eu tinha dado durante o dia e minha cabeça só conseguia pensar em um banho quente e na minha cama. O primeiro mês da clínica está sendo muito melhor do que imaginávamos, mas também infinitamente mais cansativo. Era consulta atrás de consulta, exames para conferir, pacientes retornando, telefonemas, receitas, prontuários... e, mesmo com outros profissionais trabalhando conosco, sempre acabávamos envolvidas em praticamente tudo. Ainda assim, olhar para essa recepção quase vazia no fim do dia me dá uma sensação de orgulho difícil de explicar. Tudo isso tinha começado com um sonho de três amigas que m*l conseguiam pagar um café na época da faculdade. Agora tínhamos nosso próprio espaço e, aos poucos, estávamos conquistando a confiança de cada paciente que entrava por essa porta.
Vitória apareceu alguns segundos depois, praticamente se arrastando, segurando uma garrafa de água e fazendo uma expressão dramática que me arrancou uma risada imediata. Ela simplesmente se jogou no sofá da recepção como se tivesse perdido todas as forças do corpo. Vanessa veio logo atrás, mais discreta como sempre, organizando alguns papéis antes de finalmente guardar tudo dentro da bolsa. Sentou ao nosso lado e também respirou fundo, fechando os olhos por alguns instantes.
Vitória : Se aparecer mais um paciente agora dizendo que esqueceu um exame, eu finjo que desmaiei — ela resmungou, arrancando uma gargalhada minha e de Vanessa.
Lorena : Você fala isso todo dia — respondi, rindo.
Vitória : E todo dia eu sobrevivo por um milagre.
O silêncio confortável durou apenas alguns segundos, até que Vitória se lembrou do assunto que ocupava nossas cabeças desde a hora do almoço.
Vitória : Tá... amanhã. Como vamos fazer? — Olhei para a agenda no celular.
Lorena : De manhã não tem como eu ir. Tenho três consultas marcadas e não quero remarcar ninguém. Eles já esperaram bastante por essas vagas. — Vanessa aproximou a cadeira.
Vanessa : Eu também consigo ficar pela manhã. Posso ajudar com os exames e qualquer emergência que aparecer. — Vitória abriu a agenda dela e deu um sorriso satisfeito.
Vitória : Eu tô tranquila. Amanhã é praticamente uma folga. Não tenho nenhuma consulta marcada, só alguns exames, e isso o pessoal consegue tocar sem mim. — Assenti.
Lorena : Então fechou. A gente almoça e vai juntas para a ONG. — As duas concordaram.
Por alguns segundos ficamos apenas imaginando como seria esse novo projeto. Eu ainda não acreditava que isso estava realmente acontecendo.
Foi Vanessa quem quebrou o silêncio.
Vanessa : Vocês... não estão com um pouquinho de medo? — Eu e Vitória olhamos para ela ao mesmo tempo.
Lorena : Medo de quê? — perguntei. Ela deu um sorriso sem graça.
Vanessa : Sei lá... do morro. — Vitória arqueou uma sobrancelha.
Vitória : Por causa do jornal? — Vanessa deu de ombros.
Vanessa : A gente cresce vendo reportagem de operação, tiro, polícia... essas coisas. Nunca entrei numa comunidade. Não sei como é. — Vitória balançou a cabeça devagar.
Vitória : Esse é o problema. O pessoal conhece a favela pela televisão, não pela realidade. — Ela se ajeitou melhor no sofá antes de continuar. — Eu já fui algumas vezes. Uma amiga minha faz aniversário lá e me chamou. Confesso que também fui cheia de preconceitos na cabeça, porque era só o que eu via no noticiário. Cheguei lá esperando encontrar um lugar onde todo mundo vivia com medo. E sabe o que eu encontrei? — Ela sorriu. — Crianças brincando na rua. Gente sentada na porta de casa conversando. Senhoras vendendo bolo, churrasquinho na esquina, música tocando, gente trabalhando, gente correndo atrás da vida igual em qualquer outro lugar. — Vanessa escutava atentamente. — Claro que existem lugares perigosos. Isso ninguém pode negar. Mas também existe muita gente boa morando lá dentro. Trabalhadores que acordam cinco da manhã, mães que fazem de tudo pelos filhos, idosos, comerciantes... O problema é que quase ninguém mostra isso.
Fiquei em silêncio, absorvendo cada palavra.
Vitória : E outra... depende muito de quem comanda a comunidade. Tem lugar onde o clima é mais pesado, tem lugar onde os próprios moradores dizem que vivem tranquilos. Não dá pra colocar tudo no mesmo saco. — Olhei para as duas e sorri de leve.
Lorena : Sinceramente? — Elas me encararam. — Eu não tô indo pra conhecer o dono do morro, nem pra saber como funciona a comunidade. Eu tô indo porque lá tem pessoas. — As duas continuaram me olhando. — Se existem pessoas precisando de atendimento médico, então é lá que eu quero estar. Foi pra isso que eu estudei tantos anos. Não importa se é num hospital enorme, numa clínica pequena ou dentro de uma comunidade. Dor é dor em qualquer lugar. E quem precisa de ajuda merece ser cuidado da mesma forma.
Vitória sorriu com orgulho.
Vitória : Eu sabia que você ia falar isso. — Sorri de volta, um pouco envergonhada.
Lorena : É verdade. Eu não faço ideia do que vou encontrar lá. Talvez seja completamente diferente do que imagino. Talvez seja mais difícil do que penso. Mas isso nunca foi motivo suficiente para eu desistir de alguma coisa. Se eu puder ajudar uma única pessoa, já vai ter valido a pena. — Vanessa respirou fundo e acabou sorrindo também.
Vanessa : Acho que você tem razão.
Lorena : Eu espero que tenha.
O assunto foi ficando mais leve depois disso. Começamos a imaginar como seria a ONG, quantas pessoas atenderíamos por dia, se haveria crianças, idosos ou famílias inteiras precisando de acompanhamento médico. Entre brincadeiras, planos e algumas piadas da Vitória para aliviar qualquer tensão, fomos fechando a clínica.
Enquanto apagava as luzes da recepção e girava a chave na fechadura, senti uma mistura de ansiedade e expectativa tomar conta de mim.
Pela primeira vez desde que me formei, eu tinha a sensação de que estava prestes a viver algo que mudaria a minha maneira de enxergar a profissão... e talvez até a minha própria vida.