Capítulo 4

1776 Words
Fantasma Montei na moto e dei partida. Eu não sou muito de ficar dando volta à toa pelo morro sem necessidade, meu estilo é mais papo reto, resolver o que tem pra resolver e ficar no sapatinho administrando a gestão. Mas hoje o peito tava meio inquieto, uma agitação estranha desde a hora que acordei, e decidi descer pra dar uma averiguada nas pistas. O vento frio batia no rosto enquanto eu cortava os becos, observando os trabalhadores na correria, as donas de casa nas portas e as crianças subindo pra escola. Dei a volta por cima e fui descendo no talento até dar de cara com a barreira principal, onde o movimento de entrada e saída da comunidade é monitorado vinte e quatro horas por dia. Assim que encostei a moto, a contenção que tava de plantão já se colocou em postura de respeito. Os vapores que estavam na atividade com os radinhos na cintura e os fuzis a tiracolo prontamente me cumprimentaram, tirando os bonés e mandando aquele "Fé, chefe", "A soma, Fantasma". No meio deles tava o Menor, um garoto esperto que eu coloquei pra gerenciar a movimentação da entrada, supervisionando quem entra, quem sai e qualquer cara estranha que tenta dar uma de espertinho pro nosso lado. Menor : Visão, chefe — ele se aproximou — Só pra te deixar a par do movimento, hoje mais tarde tá previsto pra entrar três médicas aqui na favela. Elas vêm dar um suporte aí na ONG da comunidade. Curvei o corpo sobre o guidão da moto, encarando o menor com o olhar sério. Fantasma : Tu já puxou a ficha dessas comadres aí? Sabe de onde vêm, qual é a delas? Menor : Com certeza, chefe — ele respondeu rápido, sem titubear. — Já puxamos o currículo de todas. São médicas diplomadas, têm uma clínica lá na Zona Norte e a ficha é novinha, zero bronca, totalmente limpas. Já averiguamos o trajeto delas e tá tudo mapeado, nada de suspeito. Apenas balancei a cabeça devagar, processando a informação. Nenhuma falha podia passar batida no meu morro, ainda mais com o clima esquisito dos últimos dias e a suspeita de gente querendo atravessar meus negócios. Fantasma : Suave então. Mas fica ligado. Assim que as dondocas pisarem na barreira, tu pega elas, conduz direto até a ONG e deixa lá. Depois, tu manda o papo pra elas subirem na boca que eu quero dar uma checada pessoalmente nessas comadres. Quero olhar no olho de cada uma pra ver se é tiro trocado mesmo. Menor : Pode deixar, chefe, tá monitorado — ele assentiu e voltou pro posto. Liguei a moto de novo e fui subindo devagarzinho. No meio do caminho, resolvi dar uma parada estratégica na padaria pra encomendar o café reforçado dos vapores e dos frentes que viraram a noite no plantão das contenções. Guerra se ganha com o efetivo alimentado e motivado. Foi só eu encostar no balcão que ouvi uma voz fina e espalhafatosa me chamando. — Amorzinho. Nossa, até que fim tu apareceu. Olhei de canto e vi a Viviane vindo na minha direção, toda rebolativa. A Viviane é uma p*****a que eu dou uns cata de vez em quando, mas a mulher viaja alto demais na maionese. Ela vive espalhando no morro que é doida pra ser assumida como a primeira-dama da Rocinha, só que ela tá sonhando alto demais. É muito sonho pra uma pessoa só. Eu nunca, em hipótese alguma, vou dar um papo desse pra ela ou colocar mulher de pista dentro da minha casa. Meu ritmo é outro, o papo é direto e reto: pegou, comeu, vazou. Se não encher o meu saco e não atrapalhar o meu caminho, a pessoa vive na paz, agora, se começar com cobrança sem futuro, palhaçada ou estressar a minha mente, vai direto pra vala sem curva. Eu já tô com a cabeça cheia de problema pra ter que aguentar cobrança de mulher que nem minha é. Fantasma : Corta o papo furado, Viviane — fale antes que ela encostasse em mim, usando um tom frio. — Papo reto, o que tu quer? Ela fez um biquinho de garota mimada e cruzou os braços, bufando. Viviane : Poxa, Fantasma... eu te esperei a noite todinha lá em casa ontem e tu nem deu as caras. Fiquei igual uma trouxa te esperando. Fantasma : Tu tá doida demais, garota — debochei, dando uma risada irônica sem um pingo de paciência. — Tu acha mesmo que eu vou perder meu sono, largar minhas obrigações pra ir pra tua casa, Viviane? Acorda pra vida, caindo na real, menina. Eu lá tenho cara de quem fica fazendo visita social pra p*****a? Viviane : Credo, não precisava me tratar assim também... — ela resmungou, dando um passo pra trás, emburrada. Fantasma : Vou nem te dar mais idéia — bufei, me virando pro padeiro. — Manda entregar essa merenda toda lá na boca principal e coloca na minha conta. Nem olhei pra trás. Subi na moto, acelerei fundo e deixei a Viviane falando sozinha na calçada. Mulher quando começa a achar que tem asa, o remédio é podar no ato pra não criar asa de anjo. Cheguei na boca, estacionei a moto e cumprimentei os menor. Passei pelo corredor estreito e entrei na minha sala. O ar aqui dentro cheirava a maconha e café forte. No sofá e nas cadeiras de escritório, estavam os caras que seguravam a bucha comigo diariamente. Aqui não tinha amigo de infância de crescer junto na mesma rua, até porque quando eu cheguei na Rocinha com dezessete anos, fuga do meu passado, eu não conhecia ninguém. Mas esses caras aqui foram os irmãos que a vida me deu. Eles me ajudaram a erguer o império, seguraram tiro por mim e me apoiaram quando tomei o comando. O Henrique, vulgo Escudo, e o meu braço direito e o pilar da segurança de todo o morro. Cara frio, estrategista, o verdadeiro escudo da favela, responsável por organizar os plantões e manter os acessos trancados contra os bucha e os alemão. Do lado dele tava o Lucas, o Falcão, gerente de uma das bocas mais rentáveis da comunidade. O moleque e o puro impulso, excelente atirador de longa distância e o cara que resolvia tudo na base do balaço quando a cobrança exigia, mas não tinha uma gota de juízo na cabeça. E no canto, no sapatinho, tava o Gabriel, o Águia, gerente da outra ponta do morro. O Águia e o oposto do Falcão, calmo, observador, conseguia enxergar as coisas de longe antes mesmo de o problema acontecer, agindo sempre com a mente e nunca pelo sangue quente. Águia : Pô, parceiro... — ele falou, soltando a fumaça pro alto e me encarando com a cara amassada de sono. — O Escudo te ligou de manhã cedo e tu parecia que ia engolir o cara. Que marra é essa, Fantasma? Soltei o ar com força, me encostando na mesa. Fantasma : Me liga de novo de manhã cedo antes do café pra tu ver se eu não te deixo careca na bala. Falcão começou a gargalhar, jogando a cabeça pra trás e dando tapinhas no próprio joelho. Falcão : Vixe, vixe. Tá brabinho, hein, chefe? Isso aí pra mim é nítido, é falta de mulher. Tá precisando descarregar o pente. Fantasma : Isso aqui não é falta de mulher não, Falcão. É falta de eu dar dois tapas bem dados nessa tua cara de paçoca pra tu tomar tenência. A sala inteira caiu na gargalhada. Henrique tirou o copo de café da boca, rindo baixo da cara do Falcão. Escudo : Qual foi, Fantasma, tá estressado à toa por quê, mano? Todo dia tu acorda nessa ignorância aí. Fantasma : Não te interessa, Henrique. Vamos focar no que interessa aqui que a pista não tá pra brincadeira. Sentei na cadeira, puxei um baseaso do bolso e acendi, dando uma tragada funda enquanto a fumaça subia lentamente. A conversa logo mudou de rumo quando Henrique voltou pro assunto da segurança do dia. Escudo : Falando nisso, Fantasma, o Menor já deve ter te avisado... As três médicas da ONG tão pra chegar aí. É pra manter o monitoramento em cima delas ou deixa as dondocas transitarem livres? Fantasma : É pra ficar de olho bem aberto em cada passo que elas derem — respondi na postura, apontando o cigarro na direção dele. — Qualquer atitude esquisita, qualquer conversa fora do padrão ou movimento fora da rota, me avisa na hora. E afinal, quem é que vai descer pra escoltar as comadres pela favela e acompanhar o atendimento delas na ONG? Escudo : Eu mesmo vou descer — ele respondeu, pegado a pistola. — Vou ficar lá na atividade, escoltando elas pra garantir que nada fuja do controle e nem nenhum menor cometa palhaçada. Me aproximei dele, encarando sério. Fantasma : Então tu faz o teu trabalho direito. É pra tu escoltar e observar, não é pra ficar de papo furado, de risadinha e nem de gracinha com médica de asfalto não, tá ouvindo? Falcão começou a rir alto, se jogando no sofá. Falcão : Vixe, que isso, chefe. Tá com ciúme do teu braço direito, é? Tá com medo do Escudo arrumar uma médica e te abandonar? Olhei pro Falcão com a cara mais fechada do mundo, sentindo a veia do pescoço saltar. Fantasma : Vai te embora, Falcão. — Ele parou de rir na hora, confuso. Falcão : Como assim, chefe? Fantasma : Vai te embora daqui agora, p***a. Pega tuas coisas e vaza da minha sala antes que eu me estresse de verdade. Falcão : Pô, Fantasma, mas eu não fiz nada de mais, mermão. — ele levantou as mãos pro alto, cheio de drama. Fantasma : Vai te embora agora, c*****o. Não quero ouvir tua voz nos próximos dez minutos. Falcão levantou devagar, pegou a camisa e foi se esquivando em direção à porta, mas não aguentou ficar de boca fechada. Antes de passar pelo porta, colocou só a cabeça pra dentro e gritou. Falcão : Vou vazar, mas aviso logo, isso aí é pura falta de mulher. Vai arrumar uma pra tu pegar, Fantasma, pra ver se tu para de encher o saco da rapaziada. Fantasma : Como é, seu filho da p**a? — falei, ameaçando levantar da cadeira e pegar o que tava na mesa pra jogar nele. Falcão saiu correndo pelo corredor rachando de rir, enquanto Águia e Escudo gargalhavam alto. Mesmo nessa vida desgraçada de crime, tiro e tensão constante, ter esses caras do meu lado e o que ainda mantinha a minha cabeça no lugar.
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